Alguns dias atrás um usuário do Reddit divulgou trechos do livro Star Wars Archives: 1999-2005, focado na produção da Trilogia Prelúdio. Mas o que foi divulgado foram os planos do cineasta George Lucas para a Trilogia Final (também chamada de Trilogia Sequência, em referência a ser a continuação da Trilogia Clássica) da saga, a qual ele nunca realizou.

No trecho fotografado e divulgado por toda a internet, há um trecho explicado pelo próprio Lucas sobre que história contaria envolvendo os amados personagens da saga após a queda do Império em O Retorno de Jedi. A deixamos a palavra com Lucas:

Darth Maul teria treinado esta garota, Darth Talon, que nos quadrinhos aparece como sua principal aprendiz. Ela estava destinada a ser a nova Darth Vader, e a maior parte da ação estava seria focada nela. Então, estes seriam os dois principais vilões da Trilogia. Maul eventualmente se tornaria o chefão do crime no universo porque, conforme o Império cai, ele assume o vazio deixado.

Os filmes seriam sobre como Leia – quero dizer, de quem mais seria a liderança? – estaria tentando reconstruir a República… e Luke estaria tentando reconstruir os Jedi.

Ao final da trilogia, Luke teria reconstruído boa parte dos Jedi, e teríamos a renovação da Nova República, com Leia tornando-se a Chanceler Suprema responsável por tudo. Então, ela acabaria sendo a Escolhida.

O trecho revelado também revela porque Lucas não realizou sua trilogia: o diretor estava planejando a história e já tinha conversado com os atores, porém, estava prestes a ganhar uma nova filha, e sabia que criar uma nova trilogia duraria uns 10 anos, então, preferiu ir cuidar da vida, da família e da filha e deixou os planos para depois.

Vader, Lando e Boba Fett.

Quando o tempo passou, Lucas se viu velho demais para embarcar na empreitada e preferiu vender sua empresa, a LucasFilm, dona de Star Wars, à Disney, por US$ 4 bilhões, em 2013. Imediatamente, a Disney iniciou sua versão da Trilogia Final que foi um estrondoso sucesso com O Despertar da Força (2015), mas recebido com frustração e indignação com Os Últimos Jedi (2017), e encerrando com uma nota ainda mais baixa em A Ascensão Skywalker (2019).

Então, a questão que fica é: a Trilogia de George Lucas seria melhor do que a da Disney?

Claro, isso é impossível de responder, ainda mais porque o texto publicado é apenas uma premissa básica para três filmes, sem detalhamento.

Lucas revolucionou o cinema com a Trilogia Clássica Uma Nova Esperança (1977), O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983) – e ficou receoso de seguir com o plano de fazer três trilogias. Mas após um longo período de hesitação, terminou por fazer a Trilogia Prelúdio A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005) – que até fizeram sucesso, mas não foram bem recebidos por críticos e fãs.

Obi-Wan versus Anakin.

O fato é que a trama – escrita por Lucas – da Trilogia Prelúdio é muito boa, focada na ascensão de Anakin Skywalker como o maior dos Jedi de seu tempo, porém, terminando por ser corrompido pelo poder da Força e se transformando em Darth Vader, e ajudando no golpe que pôs fim à República Galáctica e deu início ao maligno Império. A história desenvolveu bons personagens – a versão jovem de Obi-Wan Kenobi, a princesa Padmé Amidala, o senador Palpatine, mestre Yoda etc. – e se mostrou mais inteligente até do que a Clássica ao abordar uma trama essencialmente política, que resulta na lendária Guerra dos Clones como uma artimanha de Palpatine para destruir a República e se tornar o Imperador.

O problema é que a Trilogia Prelúdio foi muito mal executada. Lucas nunca foi um diretor magnífico e tinha sérios problemas em interagir com atores e não sabia como extrair deles performances mais apaixonadas. Além disso, embora seja um criador excepcional de conceitos, personagens e tramas; Lucas não sabe desenvolvê-las muito bem e não é bom com diálogos. O que quer dizer que o cenário ideal é aquele em que Lucas cria a ideia principal da história, mas outros roteiristas mais habilidosos desenvolvem essa história para torná-la mais ágil e outro diretor assume o comando para contar a história de modo mais cinematográfico, dirigido e com boas interpretações. Foi assim que O Império Contra-Ataca se tornou o mais querido dos filmes de Star Wars.

Mas na Trilogia Prelúdio, Lucas voltou atrás: se tornou mais protetivo de suas criações e assumiu tudo: direção e roteiro. Sozinho!

E mais: encantado pela tecnologia digital que emergia com força no final da década de 1990, decidiu pesar a mão nos efeitos digitais, ao contrário dos efeitos físicos usados na Trilogia Clássica, com suas maquetes e miniaturas. Yoda foi trocado de uma marionete para um boneco em CGI. E pior: com a tecnologia avançando ainda mais, Lucas chegou ao cúmulo de desistir de usar cenários e passar a construir quase tudo em CGI, o que prejudicou demais a atuação dos atores, que precisavam o tempo inteiro imaginar onde estavam, contracenando apenas com fundos verdes. Até a interação entre os atores por vezes foi deixada de lado em prol de gravações separadas unidas depois pelo CGI.

Os efeitos especiais da Trilogia Prelúdio até que envelheceram bem – algo nem sempre presente em produções com muitos efeitos digitais – contudo, o uso excessivo da tecnologia deixou os filmes com um visual estranho, um pouco datado e pouco tridimensional.

É de se esperar que os erros permanecessem caso fizesse sua Trilogia Final, e talvez até piorassem. Quem sabe as críticas à Prelúdio poderiam ter feito retomar a estratégia vencedora da Clássica e trazer roteiristas e diretores para lhe auxiliarem a contar sua história? É a esperança que pode permanecer.

A Disney, por sua vez, cometeu erros crassos na sua versão da Trilogia Final. O estúdio não resolveu a questão entre liderar a história (como Lucas faria) e dar autonomia aos seus cineastas, e no fim, produziu uma Trilogia sem foco. Afinal, entregar cada filme a um diretor diferente sem a pactuação necessária de uma trama geral e dando bastante liberdade a cada um é a receita para o desastre. E ele aconteceu.

J.J. Abrams abriu a Trilogia com O Despertar da Força e fez muito sucesso, mas logo, público e crítica perceberam que o filme era meio que uma refilmagem de Uma Nova Esperança, mantendo a mesma estrutura de filme, história e dinâmica de personagens. Ray era uma nova versão de Luke (uma heroína improvável destinada a ser a maior); Finn uma releitura mais adocicada de Han (o cara que estava do lado errado e se reposiciona na história); o vilão Kylo Ren um novo Darth Vader (com referências até no visual); o Supremo Líder Snoke como um novo Imperador (repetindo até as transmissões holográficas!); e a Primeira Ordem como uma substituta igualzinha do Império; usando os mesmos veículos, soldados e armas; sim, e até a mesmíssima grande arma, fazendo de sua Starkiller apenas uma versão exagerada (e sem graça e sem impacto) da velha Estrela da Morte. Não é a melhor maneira de se começar uma NOVA história, né?

Star Wars: recordes de bilheteria.

Além disso, O Despertar da Força usou de preguiça de roteiro e comodismo para simplesmente, numa única tacada, fazer toda a conquista conseguida a tantas duras penas na Trilogia Clássica, ir por água abaixo e voltar tudo exatamente ao ponto em que estavam lá em Uma Nova Esperança. Assim, nunca vemos a Nova República, que por sinal, é destruída toda de uma vez pelo raio da Starkiller num efeito praticamente off-scream (ou seja, fora de tela, sem ser mostrado realmente, apenas mencionado). E pronto acabou. A Primeira Ordem já está plena, atuante e ameaçadora no primeiro filme e parece maior do que a República desde o primeiro segundo. Não é a melhor maneira de se começar uma NOVA história, né?

O Despertar da Força traz ainda, logo de cara, um dos grandes erros da Trilogia da Disney: não saber o que fazer entre apresentar heróis novos ou manter os antigos. Rey, Finn e Poe são personagens bacanas que têm seu próprio mérito; mas suas histórias não são resolvidas (nem no primeiro filme e muito menos na Trilogia) ao passo em que também não deixam espaço para os velhos heróis.

E convenhamos, os fãs queriam muito ver os velhos heróis em ação e a Disney poderia ter equilibrado melhor entre os velhos e os novos. Se desde o início mostrassem Luke Skywalker assumindo o treinamento de Rey ou mesmo sua relutância fosse o tema do primeiro filme, o estúdio saciaria os velhos fãs (que ainda são quem sustentam a saga) mostrando um Luke superpoderoso e realizado ao mesmo tempo em que introduziam uma personagem nova, também forte, para ser a cara da nova geração. Não mostrar Luke ainda teria sido melhor do que apresentá-lo por apenas literalmente um segundo na última cena do filme. Dar espaço nulo para Leia foi um erro apenas um pouco menos pior. Matar Han Solo apenas cumpriu o desejo do ator Harrison Ford de se desvincular do personagem.

Os Últimos Jedi foi assumido por Ryan Johnson que, não há como negar, fez um filme mais corajoso; embora ainda não tenha mostrado Luke Skywalker como o herói que o público esperava. A trama ousou em muitas coisas, mas ao contrário de Abrams, Johnson estava bastante à vontade com os personagens antigos, dando a Luke um papel protagonista e mais espaço para Leia, ainda que de novo ela passa a maior parte do longa ausente. O problema neste caso foi dar alguma “função” para Finn e Poe, no que o filme não é nada bem sucedido, especialmente no caso do primeiro.

Mas como tudo pode piorar, a má recepção escandalosa de Os Últimos Jedi deve ter deixado a Disney de cabelo em pé e as discussões que se seguiram resultaram na demissão de Colin Trevorrow que faria o terceiro filme. Na pressa e no desespero para não mudar o cronograma de lançamento, o estúdio trouxe Abrams de volta e ele entregou o miserável A Ascensão Skywalker.

Mostrando que não havia nenhum direcionamento do estúdio, Abrams “desdisse” praticamente tudo o que Johnson fez, muitas vezes sem nenhuma sutileza, e na falta de ideias originais, preferiu trazer o Imperador de volta em uma trama sem pé nem cabeça, de novo, constituindo um plágio de um filme da Trilogia Clássica, agora, O Retorno de Jedi. A morte da atriz Carrie Fisher impediu dar qualquer aprofundamento à personagem Leia e o final não fez honra à importância da saga. E ainda criou um incômodo e desnecessário ciclo – mania obsessiva de Hollywood – de que “era tudo parte do plano” do Imperador; o que torna tudo ainda pior. Pior mesmo.

Qual é o problema desse povo com novas aventuras, novos desafios?

Para tudo ficar ainda mais feio, vazou um relato completo de como seria o filme de Colin Trevorrow, e pelo menos no papel (e nas artes conceituais belíssimas que vazaram também), o filme parece ser bem melhor do que o de Abrams. Pelo menos é mais digno e heroico.

Saiba tudo sobre o Episódio IX de Star Wars por Colin Trevorrow neste post do HQRock.

Voltando a nosso tópico, a Trilogia Final de Lucas, tal qual no papel, seria um bicho muito diferente. Para começar, se passaria apenas alguns anos após O Retorno de Jedi e não após 30 anos como terminou sendo o que vimos no cinema. Mas isso imputaria alguns problemas: mesmo que o diretor iniciasse seus planos imediatamente e lançasse sua Trilogia em 2008, seus atores já estariam velhos demais para fingir que passou apenas alguns anos desde O Retorno de Jedi, mas isso era algo que poderia ser contornado – adiantando o tempo.

Quem quer imaginar um outro final à saga ainda tem outra opção: a trilogia de livros O Herdeiro do Império, ou Trilogia Thrawn, que sem os limites logísticos do cinema, realmente se passa apenas alguns anos após a queda do Império e mostra Leia ajudando na reconstrução da República; Luke tentando reconstruir a Ordem Jedi e todos tendo que lutar contra as reminiscências do Império, na figura de um almirante genial que conseguiu reunir algumas tropas e se transforma em uma grande ameaça.

No fim de tudo fica uma lição: só é possível a construção de um universo lógico e coerente de personagens no cinema quando se tem uma centralidade criativa, como era o caso de George Lucas na velha Lucasfilm pré-Disney ou como é o Marvel Studios comandado de modo inconteste por Kevin Feige dentro da própria Disney. E também não deu certo – sem essa figura – em vários outros casos, desde o Universo DC Comics até a inacreditável tentativa da Universal Pictures fazer um Universo dos Monstros.

Resta saber se a Disney – e a LucasFilm – aprenderam a lição (teve ainda o fracasso de Han Solo – Uma História Star Wars, não se esqueçam…) e como serão os lançamentos que virão no cinema pós-pandemia. E nesse cenário, os rumores constantes de que o estúdio pode até fazer um reboot e recontar a Trilogia Final sob outro ponto de vista até que não ficam tão descabidos. Ou pelo menos seu último episódio.

O trio de protagonistas: Luke Skywalker, Leia Morgana e Han Solo.

Mas eu apostaria que, após alguns anos de “descanso”, a LucasFilm irá trazer jovens atores para interpretar os papeis de Luke, Leia e Han e contar as consequências de O Retorno de Jedi e tentar, com isso, se redimir da falha da Trilogia Final.