A banda Uriah Heep não teve um ano de 2020 muito feliz. Além de ser obrigado a interromper os shows por causa da pandemia de Covid-19 (como todo o mercado musical), dois ex-membros célebres morreram este ano: o baterista Lee Kerslake e o tecladista-compositor Ken Hensley. Contudo, o grupo britânico celebra 50 anos de sua estreia fonográfica em 1970 e lançou recentemente Fifty Years in Rock, um gigantesco box set com 23 CDs, reunindo todos os seus álbuns de estúdio, o clássico ao vivo Live 73 e mais 4 discos com compilações criados pelos membros originais.

O grande diferencial do box set, que chegou às lojas no dia 30 de outubro, são os quatro CDs de coletâneas, cada qual criado a partir das escolhas de um dos membros originais do grupo: o tecladista Ken Hensley, o baterista Lee Kerslake, o baixista Paul Newton e o guitarrista Mick Box.

Falando ao Cleveland.com, Box (o único membro original que permaneceu na banda desde sua fundação até hoje) comentou a caixa e as mortes recentes de Hensley e Kerslake.

O que o manteve [na banda] por tanto tempo?

Box: Acho que, em termos gerais, tenho a mesma paixão pela nossa música que sempre tive. Essa é a minha força motriz. Mas também, com a saída de David (Byron, vocalista, em 1976) e Gary (Thain, baixista) falecendo (em 1975), eu senti a responsabilidade de manter vivo o legado deles para que as pessoas pudessem ter acesso à sua música. E isso foi ainda mais longe - Trevor Bolder faleceu, John Wetton faleceu, Lee Kerslake (e Ken Hensley) recentemente. Manter nossa música na frente das pessoas é fundamental.

Como a banda chegou ao que se tornou o som de Uriah Heep?

Box: Demorou um pouco. Éramos uma banda chamada Spice, primeiro - a ideia era que o mundo tem muitos temperos, e queríamos que nossa música fosse assim, não apenas um gênero. Se você olhar para o nosso primeiro álbum, “Very 'Eavy, Very' Umble” [de 1970], tem um pouco de rock progressivo jazzístico, folky, blues, muitos gêneros. Foi um pouco confuso, se você preferir, que é o que amamos. O segundo álbum, “Salisbury” [de 1971], foi a mesma coisa, mas quando chegamos em “Look at Yourself” [também em 1971], percebemos que queríamos ser uma banda de rock sólida e seguimos em frente com isso.
Perdemos Lee Kerslake este ano e, muito recentemente (4 de novembro), Ken Henley. Qual era a sua relação com eles?

Box: Com Lee ... éramos irmãos com mães diferentes. Aquilo perdurou com tudo, quando ele estava na banda, fora da banda, tanto faz. Percorremos a universidade da vida juntos, lado a lado. Com Ken, falamos apenas sobre coisas históricas que precisávamos discutir, não mais do que isso. Ele tomou um caminho totalmente diferente em sua vida. Se estou sendo brutalmente honesto e estou citando Ken aqui, ele diz que nunca foi amigo de ninguém da banda e, na verdade, era apenas um negócio. Ele criou uma distância real.
No entanto, ele foi o principal compositor do grupo em seus primeiros sete álbuns de estúdio.

Box: Isso é um equilíbrio na vida, não é? Eu acho. Ele era um bom escritor e tinha uma banda que poderia pegar o esqueleto de qualquer uma de suas canções e transformá-las em dinamite. Ele sabia que tinha aquele veículo. Essa química foi uma grande parte do nosso sucesso. Não sei se ele gostou disso, no entanto.

O Uriah Heep se formou em 1969 com o nome de Spice, liderado pelo guitarrista Mick Box e o vocalista David Byron; e pouco depois da entrada do tecladista Ken Hensley mudou de nome para Uriah Heep e conseguiu um contrato com uma gravadora, estreando com o disco … Very ‘eavy, Very ‘umble, em 1970; mas conseguindo chamar a atenção de público e crítica com o quarteto de discos seguintes: Salisbury (1971), Look at Yourself (1971), Demons and Wizards (1972) e The Magician’s Birthday (1972), que marcaram época com seu hard rock melódico, puxado por uma guitarra fazendo riffs, os teclados fazendo uma “cama sonora” e os vocais a muitas vozes, dramáticos e algo exagerados.

Contudo, o grupo sempre manteve uma rotatividade imensa de músicos e prosseguiu existindo até os dias de hoje, embora com apenas Mick Box atravessando todas as formações: o baixista Paul Newton só tocou nos três primeiros discos; o baterista Lee Kerslake e o baixista Gary Thain ingressaram no quarto álbum, em 1972; Thain (que era um baixista incrível) teve sérios problemas com as drogas e foi demitido em 1975, terminando por morrer de overdose de heroína no mesmo ano; foi substituto por John Wetton (ex-King Crimson) que tocou em dois álbuns (1975-76); em 1976, o vocalista Byron saiu do grupo e foi substituído por John Lawton, que ficou até 1979 e foi substituído por John Sloman; Hensley (o principal compositor do grupo) deixou a banda em 1980; e por aí continuou até hoje. Mais de duas dúzias de músicos passaram pelo Heep até hoje!

A formação de 2020 é composta por: Mick Box (guitarra e vocais – desde 1970); Bernie Shaw (vocais); Phil Lanzon (teclados), ambos desde 1986; Davey Rimmer (baixo – desde 2013); e Russell Gilbrook (bateria – desde 2007).

O baterista Lee Kerslake, que também tocou com Ozzy Osbourne, teve duas longas temporadas na banda (1972-1979 e 1981-2007), morreu em 19 de setembro de 2020, aos 73 anos, vítima de um câncer.

O tecladista Ken Hensley, que foi o principal compositor da banda (assinando clássicos como Easy livin’, Sweet Lorraine, Stealin’, Sunrise, I wanna be free, Lady in black etc.) esteve no grupo entre 1970 e 1980 e morreu em 04 de novembro de 2020, aos 75 anos, vítima de uma breve doença ainda não revelada.

O box set Fifty Years in Rock, além dos 23 CDs, traz uma série de artes de Roger Dean, que produziu várias das capas da banda nos anos 1970 e um livro de 78 páginas trazendo raridades dos arquivos pessoais dos músicos.