Capa variante com Feiticeira Escarlate, Capitão América, Gavião Arqueiro e Mercúrio. Arte de Alan Davis.

Os irmãos gêmeos Wanda e Pietro Maximoff, vulgos Feiticeira Escarlate e Mercúrio, foram apresentados ao grande público em grande estilo lá atrás em Vingadores – Era de Ultron, de 2015, ao lado do Visão, que apareceu no mesmo filme. Com Mercúrio morrendo logo em sua estreia, Wanda (ela nunca foi chamada de Feiticeira Escarlate nos filmes) e Visão prosseguiram como membros importantes dos Vingadores e agora ganham outra dimensão em WandaVision. E não estamos esquecendo da versão de Mercúrio nos filmes dos X-Men que correu paralelamente na franquia mutante na 20th Century Fox, separada do universo ficcional do Marvel Studios. Quem iria imaginar, 30 anos atrás, que esses personagens secundários das HQs da Marvel iriam virar propriedades discutidas por um amplo público que nunca leu um balão de quadrinho?

Mercúrio e Feiticeira Escarlate em Era de Ultron.
Mercúrio e Feiticeira Escarlate em Era de Ultron.

É por isso que apresentamos aqui nosso Dossiê sobre o trio mais esquisitão dos Vingadores nos quadrinhos. Então, carregue seus poderes de manipulação da realidade, corra mais rápido do que o som e atravesse as paredes para encontrar um lugar tranquilo e mergulhar nos rincões da Marvel dos anos 1960 e 80! E dos dias de hoje também.

Três Vingadores Clássicos

Primeiro, temos que esclarecer que tratamos de três personagens diferentes cujas tramas e biografias se cruzam constantemente, mas também não andam juntos o tempo todo. Este post vai tentar dar conta desses cruzamentos e dos desenvolvimentos mais importantes de suas trajetórias.

Primeiro: quem são eles nas HQs… E lembre-se: sempre há diferenças significativas entre os personagens em sua mídia original e suas adaptações para o cinema e a TV.

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A Irmandade de Mutantes original na arte de Jack Kirby: Groxo, Magneto, Mestre Mental, Feiticeira Escarlate e Mercúrio.

Wanda Maximoff é a mais importante. A Feiticeira Escarlate surgiu ao lado de seu irmão Mercúrio nas revistas dos X-Men, integrando o grupo de vilões Irmandade de Mutantes, liderado por Magneto, o arquivilão dos heróis. Depois de um tempo, a dupla se regenerou e ingressou nos Vingadores, com Wanda permanecendo como membro efetivo da equipe durante a maior parte de suas aventuras desde meados dos anos 1960 até o início dos anos 1980.

Feiticeira Escarlate: de uma das principais membros até uma poderosa inimiga.

Nas histórias, Wanda sempre é descrita como um tipo de feiticeira, e comumente é chamada de bruxa quando alguém quer xingá-la, mas desde o início é tratada como uma mutante. Na verdade, a classificação de seus poderes sempre foram um pouco indefinidos e mudaram de acordo com a abordagem dos roteiristas, o que mais tarde foi explicado como Wanda realmente usando a magia como forma de ampliar e complementar seus poderes mutantes naturais. A mais comum definição desses é o de manipulação da realidade, seja lá o que isso quer dizer. (Na verdade, sabemos o que é e explicaremos mais adiante).

Mércurio, o filho de Magneto nos quadrinhos.

Pietro Maximoff, o Mercúrio, teve uma trajetória mais tortuosa. Mutante dotado do poder de se movimentar em altíssimas velocidades, sempre teve uma postura superprotetora em relação à irmã e os dois eram inseparáveis no início, migrando das revistas dos X-Men para a dos Vingadores. Mas depois, que a dupla se afastou temporariamente da equipe no fim dos anos 1960, Pietro terminou se envolvendo nas histórias do Quarteto Fantástico, interagindo com os Inumanos e, por fim, casando com Crystalis, com quem teve a filha Luna. Temperamental e esquentado, quase sempre Mercúrio foi tratado como alguém desagradável e terminou praticamente transformado em um vilão em meados dos anos 1980, antes de ser redimido por escritores mais tradicionalistas. Ao contrário da irmã – que permaneceu entrando e saindo dos Vingadores como um dos membros mais tradicionais da equipe – Pietro regressou ao universo das revistas mutantes nos anos 1990, quando fez parte da segunda encarnação do X-Factor, um grupo de heróis mutantes a serviço do Governo dos EUA.

O Visão nos quadrinhos.

Já o Visão surgiu um pouco depois dos irmãos, já na revista dos Vingadores: um ser artificial criado pelo vilão (e também artificial) Ultron para matar a equipe, terminou desenvolvendo uma personalidade bondosa e virou membro, sendo outro dos mais tradicionais da equipe e uma presença quase sempre presente até o início dos anos 1980. Sua gama de poderes é vasta, mas bem definida: ele pode alterar a massa do seu corpo, desde ficar praticamente intangível até duro como um diamante. Como consequência dessa habilidade, o Visão pode voar (na verdade ele flutua) e se torna superforte.

Seu corpo é praticamente indestrutível e sua mente computadorizada podia acessar computadores e linhas telefônicas (um dom que usava pouco, pois na época das histórias clássicas dos Vingadores, computadores não eram bens pessoais e somente existiam para fins acadêmicos, comerciais ou militares). Ademais, dotado de uma Joia Solar na testa (presumivelmente, capta a energia solar), esta lhe permite disparar rajadas de calor, outro poder que usa bem pouco.

Apesar de ser um sintozoide – um ser humano artificial (mais do que um robô, mais do que um androide) – o Visão terminou se apaixonando e casando com a Feiticeira Escarlate e os dois terminaram se afastando dos Vingadores quando ela ficou grávida e deu a luz a um par de gêmeos. Depois, o casal ingressou nos Vingadores da Costa Oeste (uma filial do time principal), antes das coisas darem bem errado, como detalharemos a seguir.

Tendo conhecido os parâmetros gerais dos personagens vejamos como se desenvolveram nos quadrinhos.

Vilões Relutantes

A Irmandade na arte de David Finch.
A Irmandade de Mutantes original na arte de David Finch.

O Universo Marvel estava em seus primeiros passos quando Feiticeira Escarlate e Mercúrio surgiram. A editora Marvel Comics já existia desde 1939 sob outros nomes e em seus primeiros anos criara personagens de sucesso como Tocha Humana, Namor, o príncipe submarino (ambos em 1939) e o Capitão América (1941), e foram bastante populares no período da II Guerra Mundial, mas depois veio a decadência. A editora prosseguiu publicando outros gêneros de quadrinhos (faroeste, histórias de guerra, ficção científica), mas voltou a publicar super-heróis em 1961, inaugurando o nome Marvel e criando o Quarteto Fantástico. O sucesso fez disparar um bom número de novos personagens, como Hulk, Thor, Homem-Aranha, Homem-Formiga, Vespa, Homem de Ferro, Doutor Estranho, culminando com outros dois grupos: os Vingadores (reunindo heróis pré-existentes) e os X-Men (apenas com personagens novos). No meio disso, a editora reaproveitou seus velhos personagens: o Quarteto tinha uma nova versão do Tocha Humana; Namor regressou como um oponente, em vez de um herói; e o Capitão América retornou e ingressou nos Vingadores.

Tudo isso se desenvolveu em meros 2 anos pelas mãos de um punhado de artistas: o escritor Stan Lee (que também era o editor-chefe da Marvel), o escritor Larry Lieber, e os desenhistas Jack Kirby, Steve Ditko, Don Heck, e alguns outros.

É deste ponto que começamos aqui…

Os X-Men foram criados por Stan Lee e Jack Kirby como um grupo de adolescentes que eram mutantes, ou seja, já nasciam com habilidades especiais (superpoderes) e eram liderados pelo professor Charles Xavier que ao mesmo tempo que os educava em uma escola, os treinava no uso de seus poderes para agirem como defensores da raça mutante e combater mutantes desviantes (criminosos). O time original era Ciclope, Garota Marvel (Jean Grey), Fera, Homem de Gelo e Anjo.

Quando surgiram em X-Men 04, de 1964, também criados por Stan Lee e Jack Kirby, Wanda e Pietro Maximoff são apresentados como membros relutantes da Irmandade de Mutantes de Magneto. As histórias estabeleceriam que os irmãos gêmeos eram ciganos do Leste Europeu vivendo em um acampamento itinerante até que se perceberam como mutantes, e um dia, sem querer, Wanda pôs fogo no acampamento com seus poderes e os dois passam a ser perseguidos como feiticeiros e estão próximos a serem mortos por uma turba enlouquecida quando são salvos por Magneto, que os recruta para sua Irmandade.

Lee e Kirby estabeleceram rapidamente nas histórias dos X-Men que os mutantes eram uma nova raça humana – o homo superior – e que o fato de terem habilidades especiais os fazia ser temidos e perseguidos pela população em geral, numa clara analogia à situação dos negros e da luta pelos direitos civis nos EUA. Assim, enquanto Charles Xavier sonha com um futuro em que mutantes e humanos possam viver em harmonia (se associando a Martin Luther King); Magneto é o completo oposto, querendo que os mutantes se imponham pela força e dominem os humanos (numa referência a Malcoln X).

A Irmandade de Mutantes original: Groxo, Mestre Mental, Magneto, Mercúrio e Feiticeira Escarlate.

Magneto apareceu logo em X-Men 01, de setembro de 1963, e regressou na edição 04 ao lado de seu grupo terrorista. Na trama, atacam a (fictícia) República de São Marcos para criar um país só para mutantes, no que são impedidos pelos X-Men. A história deixa claro que Wanda não concorda com os métodos de Magneto, mas se mantém unida a ele por um senso de gratidão por ter salvado a vida deles. Pietro é superprotetor da irmã, mais esquentado e mais suscetível à influência de Magneto. Na batalha final, vemos Wanda secretamente manipulando um maquinário para ajudar aos X-Men.

A batalha entre os X-Men e a Irmandade de Mutantes se estendeu por cinco edições, do número 04 ao 07. Após serem derrotados em São Marcos, os vilões são mostrados na nova base de Magneto, o Asteroide M, uma base espacial em baixa órbita, e os X-Men vão até lá resgatar o Anjo que foi sequestrado e o Asteroide termina destruído e caindo na Terra. Na edição 06, Magneto consegue aliciar Namor, o Príncipe Submarino, para ingressar em seu time e combater os X-Men, já que Namor é um mutante (filho de um humano com uma princesa Atlante – uma raça que vive debaixo d’água).

A trama mostra a Feiticeira Escarlate ao ponto da ruptura com Magneto, irada porque o vilão queria deixar Mercúrio para morrer, e ela termina se aliciando a Namor, que depois, se volta contra Magneto e vai embora.

Em X-Men 07, Magneto convoca outro membro para a Irmandade – o Blob que já tinha aparecido edições antes – mas o grupo é novamente derrotado. Após um pequeno intervalo, os dois grupos se confrontam novamente na edição 11, já em 1965 e ainda por Lee e Kirby, Magneto testemunha o aparecimento de um ser bastante poderoso, o Estranho (que é na verdade um alienígena), e pensando ser ele um mutante, tenta aliciar para sua causa, mas o Estranho se volta contra eles e todos terminam lutando. No fim, o Estranho sequestra Magneto e o leva ao seu planeta. Feiticeira Escarlate e Mercúrio aproveitam a ocasião para deixar a Irmandade e seguir seu próprio rumo.

Os X-Men, então, convidam os irmãos Maximoff a ingressar na equipe, mas eles recusam. Pela trama que se desenvolvia desde X-Men 04, parecia que Lee e Kirby queriam desenvolver os irmãos Maximoff como membros dos X-Men, mas por algum motivo, a dupla de criadores preferiu não mexer no status quo do grupo mutante e fez os vilões relutantes simplesmente irem embora. Na verdade, a dupla ingressaria logo depois em outro grupo da Marvel: os Vingadores.

Vingadores

Os novos Vingadores são apresentados: Capitão América, Feiticeira Escarlate, Mercúrio e Gavião Arqueiro.
Os novos Vingadores são apresentados: Capitão América, Feiticeira Escarlate, Mercúrio e Gavião Arqueiro.

Aquele era o momento em que os Vingadores promoviam uma grande mudança: os membros originais – Homem de Ferro, Thor, Vespa e Gigante (ex-Homem-Formiga) – saem da equipe e deixam o Capitão América para liderar um time de jovens ex-criminosos, com Gavião Arqueiro, Feiticeira Escarlate e Mercúrio, Avengers 16, de 1965, também por Stan Lee e Jack Kirby.

Outra bela capa de Jack Kirby.

Era uma mudança radical para um grupo menos poderoso do que antes, mas que compensava por uma melhor interação entre os personagens, com o Gavião Arqueiro questionando a autoridade do Capitão América ao mesmo tempo em que dá em cima da Feiticeira Escarlate, o que o põe em conflito com Mercúrio.

A “Quadrilha do Capitão”: Capitão América, Gavião Arqueiro, Mercúrio e Feiticeira Escarlate. Capa de “Avengers 24”, de 1966, por Jack Kirby.

Ainda assim, esses novos Vingadores – apelidados de Quadrilha do Capitão (por causa do passado criminoso dos outros membros) – se mostraram bastante eficientes e dignos do título do grupo, combatendo vilões como o Toupeira e o Minotauro (edição 17), Espadachim (edição 19), Mandarim (20), Poderoso e Encantor (21), Kang, o conquistador (23), Doutor Destino (25), Attuma e os Atlantes (26) e o Colecionador (28), quando o quarteto ganha um quinto membro na figura de Hank Pym (ex-Homem-Formiga e Gigante, agora, assumindo o nome Golias). Pouco depois, a Vespa também regressou e o time virou um sexteto. Todas essas aventuras foram escritas por Stan Lee e desenhadas por Don Heck, que fazia as histórias do Homem de Ferro, já que Jack Kirby deixou a revista dos maiores heróis da Terra para se dedicar a outros projetos, apesar de continuar a desenhar a maioria das capas.

Os Vingadores permaneceram oficialmente como um sexteto por um tempo, embora ganhassem membros não oficiais para aventuras ocasionais, como o semideus grego Hércules e a Viúva Negra (outra ex-vilã, então, namorada do Gavião Arqueiro). No meio disso, outra mudança editorial: Stan Lee deixou o roteiro da revista e o passou às mãos de Roy Thomas, em Avengers 36, e pouco depois, Don Heck saiu e a arte foi assumida por John Buscema, na edição 40, de 1967.

Os Vingadores na arte de John Buscema: Feiticeira Escarlate, Capitão América, Golias, Mercúrio e Vespa.

Thomas e Buscema dariam início à mais clássica das fases dos Vingadores, construindo o melhor momento da equipe até então. A dupla de criadores era mais dinâmica do que seus antecessores – Thomas investia em roteiros que articulavam os eventos da vida real dos EUA dos anos 1960, como as mudanças culturais e a política; enquanto Buscema combinava as qualidades de seus dois antecessores: era capaz de dotar suas figuras de movimento como Kirby e incorporava os elementos visuais exagerados do artistas; mas adotava um estilo menos estilizado e mais orientado na beleza plástica da arte de Heck – e isso fez muito bem aos Vingadores. De início, o time se manteve com os mesmos membros de antes, mas logo, isso começou a mudar também.

Capa de Avengers 47 com arte de Don Heck. A história é desenhada por John Buscema.

Mas pouco depois, Feiticeira Escarlate e Mercúrio ganharam um episódio especial na revista: Avengers 47 traz Magneto em seu primeiro confronto com os Vingadores. De volta à Terra, o mestre do magnetismo vai atrás dos irmãos Maximoff e exige que regressem à Irmandade de Mutantes, e com a negativa, uma batalha com os Vingadores é mobilizada.

A trama prossegue em Avengers 49, quando Mercúrio decide dar um voto de confiança a Magneto e os dois vão à ONU, demandar a criação de um país exclusivamente para os mutantes, onde não precisem ser perseguidos pelos humanos. Mas em vista dos crimes do mestre do magnetismo, claro, logo as coisas degringolam e os Vingadores saem em luta novamente. Porém, no fim, Wanda é baleada e sua vida é salva por Magneto, que retira a bala. Em retribuição, Mercúrio vai embora o vilão, levando a irmã, e a dupla deixa os Vingadores pela primeira vez.

A trama teve um rápido desdobramento em Avengers 53, quando Roy Thomas promove um crossover com os X-Men (já que ele também escrevia então a revista mutante). Na trama, Magneto decide se vingar dos X-Men e por meio de um aparelho de estímulo mental, faz os mutantes atacarem os Vingadores. Mas os heróis conseguem virar o jogo e o vilão é derrotado. A história revela que, após ter sido baleada, Wanda perdeu seus poderes. Ainda assim, magoados com tudo, Feiticeira Escarlate e Mercúrio não retornam aos Vingadores.

Até um Androide pode Chorar

Curiosamente, quando se vê em retrospecto, foi justamente no momento em que os irmãos Maximoff saem da revista que chega o Visão.

A primeira aparição de Ultron: “é só um robô…”.

Roy Thomas e John Buscema iniciam uma fase nova dos Vingadores a partir de Avengers 54, na qual o time é atacado por uma nova versão dos Mestres do Terror (reunindo vilões importantes) liderados pelo misterioso Manto Rubro, que é revelado na edição seguinte: Ultron, um robô autoconsciente – ou uma Inteligência Artificial como chamaríamos hoje, que é corporizada em um invólucro metálico.

“Avengers 57” traz a estreia do Visão.

O mistério sobre Ultron permaneceu por algumas edições até que em Avengers 57 ouro robô ataca o grupo: o Visão. Ao longo da edição, Visão também toma consciência de si e percebe que sua personalidade é pacífica, não violenta, e decide se unir aos heróis para deter o seu criador: Ultron!

Ultron e Visão: criador e criatura.

No número seguinte, os Vingadores e o Visão encontram Ultron e descobrem que ele foi criado por Hank Pym (o Golias), mas a máquina se tornou maligna e apagou a mente de seu criador. No fim, os Vingadores reconhecem o valor do Visão e sua humanidade, colocando-o como membro da equipe, e ele termina por chorar de emoção.

O Visão chora de emoção ao ser aceito pela equipe.

O Visão se tornaria um dos principais – se não o principal – membro dos Vingadores pelos muitos anos seguintes, sendo uma presença quase obrigatória na revista de 1967 até 1980.

Os Vingadores, então, se tornam um grupo ligeiramente diferente, com Golias, Vespa, Pantera Negra, Gavião Arqueiro, Visão e o retorno de Capitão América, Homem de Ferro e Thor, que passam a participar das aventuras de modo mais constante. Logo depois, o Golias mudou novamente sua identidade heroica para o Jaqueta Amarela e o Gavião Arqueiro trocou de máscara e virou o novo Golias.

Os Invasores são introduzidos na cronologia Marvel.

O Visão é desde o início mostrado como uma grande aquisição ao time, tendo em vista sua gama de poderes. Um bom exemplo é em Avengers 71 – escrita por Roy Thomas e desenhada por Sal Buscema, o irmão caçula de John – quando os Vingadores são lançados em um jogo entre Kang, o conquistador e o Grão-Mestre em batalhas ao longo do tempo, e Pantera Negra, Jaqueta Amarela e Visão vão parar em 1941 e lutam com as versões mais jovens de Capitão América, Namor e o Tocha Humana original, e o trio do presente vence principalmente por causa do sintozoide.

A primeira formação da Legião Letal, com o Ceifador à frente.

Um desenvolvimento importante para o Visão acontece em Avengers 79, na qual um novo vilão chamado Ceifador reúne um grupo de vilões chamado Legião Letal – tal qual os Mestres do Terror, formado por vilões importantes da equipe – e descobrimos que ele é Eric Williams, o irmão de Simon Williams, o empresário aliciado pelo Barão Zemo (líder dos Mestres do Terror originais) e transformado no Magnum (Wonder-Man), que morreu combatendo a equipe lá atrás em Avengers 09. Na verdade, no fim, o Magnum se arrependeu de seus crimes e ajudou os Vingadores, sendo morto por Zemo.

O Ceifador mantém o corpo do irmão preservado – Magnum foi transformado em pura energia iônica por Zemo, se transformando num tipo de super-homem, com superforça e invulnerabilidade, e daí seu corpo não entra em decomposição – e termina descobrindo que Ultron usou os padrões cerebrais de Simon Williams para criar a mente computacional do Visão. Por causa disso, o Ceifador pensa que o Visão é seu irmão! Mas o Visão não sente que seja.

A Volta dos Maximoff

Após uma longa ausência de quase dois anos, Mercúrio regressa à revista em Avengers 75, de 1970, de novo por Thomas e John Buscema. E estreia o seu uniforme mais clássico, sem as ombreiras e na cor azul-acinzentado. Na trama, Pietro vem pedir a ajuda aos Vingadores para uma ameaça planetária: na busca por recuperar os poderes de Wanda, os irmãos estudaram vários livros antigos de magia e ao usar um deles terminaram por trazer à Terra um ser poderoso chamado Arkon, de outra dimensão. Arkon descobre que precisa destruir nosso planeta para que o dele possa sobreviver.

Na edição 76, Arkon usa um grupo de cientistas sequestrados para construir um aparelho nuclear poderosíssimo para destruir a Terra e os Vingadores o enfrentam, enquanto ele tenta manter a Feiticeira Escarlate como sua noiva em seu planeta. No fim das contas, os heróis vencem, Arkon diz que não vai forçar Wanda a casar com ele e vai embora. Mas a viagem dimensional restaurou os poderes de Wanda e ela e Pietro reingressam no time. Esta é a primeira vez que Wanda e Visão se encontram.

Thomas começaria a desenvolver uma atração bizarra entre Wanda e o Visão, a mutante e o sintozoide, em parte porque, por suas origens, eles se sentiam deslocados. O primeiro vislumbre desses sentimentos é exposto em Avengers 81, quando a Feiticeira Escarlate é quase morta por gangsters.

Os irmãos em ação…
Os irmãos em ação…
… durante a Guerra Kree-Skrull…
… durante a Guerra Kree-Skrull…
… na arte de Sal Buscema.
… na arte de Sal Buscema.

Mas a coisa pegou fogo mesmo foi durante o arco A Guerra Kree-Skrull, publicada entre Avengers 89 e 97, de 1971 e 1972, na qual os heróis falam abertamente de seus sentimentos e trocam o seu primeiro beijo.

Mas o fato dele ser um ser sintético não torna as coisas mais fáceis e, para piorar, Wanda é assediada por Clint Barton, o Gavião Arqueiro/ Golias, que se declara para ela, e isso cria uma tensão dentro dos Vingadores por um tempo.

Os Vingadores enfrentam um Sentinela em “Avengers 104”. Arte de Rick Buckler.

A temporada clássica do trio Feiticeira Escarlate, Mercúrio e Visão nos Vingadores se encerra na batalha contra os Sentinelas, em Avengers 102 a 104, de 1972, que também encerra a fase de Roy Thomas (agora com o desenhista Rich Buckler) após 70 edições! Thomas tinha acabado de assumir o cargo de editor-chefe da Marvel Comics, que fora ocupado por 31 anos por Stan Lee, agora, promovido a publisher. Responsável pelo comando da redação, Thomas não podia mais escrever tantas revistas (ele também cuidava de várias outras e uma revista de equipe dava muito trabalho).

Na trama, Thomas dava continuidade a uma história que havia desenvolvido na revista dos X-Men dois anos antes, mas que como o título dos mutantes fora cancelado pouco tempo depois, ficaram algumas pontas soltas. A história dos X-Men (que teve discreta participação da Feiticeira Escarlate e Mercúrio) concluía com Ciclope conseguindo convencer os Sentinelas que a causa das mutações nos humanos era o sol e que ele devia ser destruído, então, as máquinas viram que isso era lógico e foram ao sol tentar destruí-lo e, com isso, presumivelmente foram destruídos.

Mas agora, descobríamos que não: os Sentinelas não haviam sido destruídos e estavam de volta com um novo plano! Na impossibilidade de destruir o sol, iriam provocar uma enorme tempestade solar que tornasse a humanidade estéril e os Sentinelas assumiriam o controle da reprodução, eliminando a mutação. Mas eles não percebiam que, na verdade, iriam destruir o planeta! De volta à Terra, os Sentinelas voltam a atacar mutantes e – na ausência dos X-Men sem revista – cabe aos Vingadores impedi-los. Na primeira batalha, eles sequestram Wanda, porque querem usá-la como fonte de energia à sua nova arma.

No meio disso, o Ceifador retorna e faz uma oferta ao Visão: transferir sua mente computadorizada para o corpo do seu irmão Simon Williams, o Magnum, e com isso, o Visão se transformar em um humano. Ainda que superhumano. O Visão recusa de início, mas realmente fica tentado a aceitar.

Os Vingadores descobrem que os Sentinelas construíram uma nova base num gigantesco formigueiro artificial no deserto da Austrália, e vão para lá tentar impedi-los, enquanto em paralelo, Mercúrio vai atrás de Larry Trask, o filho do cientista Bolivar Trask que criou os Sentinelas. Fora Larry quem reativara os robôs caçadores de mutantes na aventura prévia dos X-Men, porém, no fim, viu o mal que tinha causado e se arrependera, descobrindo que ele próprio era mutante no processo, capaz de ver o futuro. Pietro encontra Larry e o leva à Austrália para ajudar aos Vingadores na batalha final.

Enquanto o time tem uma severa batalha com os robôs, Mercúrio e Trask entram na base na busca de salvar Wanda, mas são subjugados por um dos robôs. Mercúrio termina bastante ferido no chão e vê uma luz misteriosa antes da cena seguir adiante. O Visão liberta Wanda e Larry Trask consegue mostrar que o líder dos Sentinelas, o N.º 2, é um “mutante”, o que o leva a ser destruído pelos outros. Mas sem o líder, as máquinas são desativadas. Um dos robôs cai em cima de Larry e ele morre esmagado.

Os Vingadores vão embora sem saber que Mercúrio esteve na base e foi deixado para trás. É o fim da participação de Pietro na equipe em sua fase mais clássica e durante quase uma década.

O Romance está no ar!

Os Vingadores permaneceram em sua rotina de salvar o mundo até Avengers 110, de 1973, com roteiro de Steve Englehart e arte de Don Heck, na qual enquanto a equipe treina, Mercúrio reaparece pela primeira vez desde que desapareceu seis edições antes, ao lado de Crystalis dos Inumanos e Dentinho, o cão teleportador. Wanda fica supercontente em revê-lo e Pietro informa que fora resgatado por Crystalis e que os dois tinham não somente engatado um romance, como haviam decidido se casar!

Todos celebram felizes até que Wanda diz a Pietro que também está namorado… com o Visão. Pietro fica enfurecido, considerando um absurdo que ela se envolva com um robô e fica tão enfurecido que vai embora e diz que não vai voltar a falar com ela até que “recobre a razão”, estabelecendo uma ruptura duradoura entre os Maximoff.

Mas coincidentemente, logo após a saída de Pietro, os Vingadores recebem um chamado de ajuda de Charles Xavier, e vão até a Mansão X para descobrir que Magneto derrotou o grupo e quer matar os Vingadores também, resultando em uma batalha na qual o time conta com a ajuda do Demolidor e da Viúva Negra na edição 111.

Um detalhe importante nessa trama é que, quando confrontam os Vingadores, os Sentinelas escaneiam o Visão e afirmam que ele é um robô com tecnologia de 30 anos antes. Como assim? Esse mistério seria logo resolvido!

Durante a temporada de Steve Englehart à frente da revista dos Vingadores, o romance de Feiticeira Escarlate e Visão se desenvolveu plenamente ao mesmo tempo em que o escritor dava a Wanda uma personalidade mais assertiva, influenciado pelo movimento feminista que ganhava força nos EUA na época. (Ele fez o mesmo com a Viúva Negra, que quando se viu disputada por Demolidor e Gavião Arqueiro – em Daredevil 99 e Avengers 111 – decidiu não ficar com nenhum dos dois e ainda ingressou nos Vingadores para ganhar autonomia; e também com Mantis, uma nova heroína que o escritor criou para a revista).

Englehart manteve os Vingadores em alta e Wanda e Visão foram protagonistas de muitas aventuras nesse período.

Mercúrio e Feiticeira Escarlate.

Paternidade Resolvida Parte 1

A paternidade de Wanda e Pietro Maximoff se tornou objeto de disputa entre escritores ao longo dos anos e isso gerou alguma confusão cronológica, já que a identidade dos pais dos heróis mudou várias vezes ao passar dos anos. O curioso é que isso começou exatamente como uma tentativa de consertar a cronologia da Marvel.

Vamos por partes… Quando Feiticeira Escarlate e Mercúrio foram introduzidos por Lee e Kirby nas histórias dos X-Men, apenas afirmaram que eles eram de origem cigana e viviam em um acampamento no Leste Europeu. Não havia menção aos seus pais ou à família Maximoff. As histórias dos Vingadores em seguida, escritas por Lee, e depois, por Thomas, davam a entender que os irmãos simplesmente não lembravam da infância, e portanto, não sabiam quem eram seus pais.

O Esquadrão Vitorioso em 1946,

Então, Roy Thomas veio resolver a questão. Ele era um grande fã dos super-heróis da Era de Ouro e se preocupou – mais do que Stan Lee o fizera – de criar uma cronologia coerente que conectasse aquelas aventuras dos tempos da guerra e o seu presente. Na cabeça de Thomas, todas aquelas revistas dos anos 1940 e 50 (sua infância) eram válidas, eram canônicas, portanto, era preciso aparar algumas arestas, a mais famosa delas como explicar as aventuras do Capitão América após a II Guerra, quando Avengers 04, de 1964, definiu que o herói terminou congelado em 1945 e trazido de volta à vinda décadas depois.

Parte do mistério (do Capitão e dos Maximoff) começa a se resolver em Giant-Size Avengers 01, publicada no verão de 1974, com roteiro de Roy Thomas e desenhos de Rich Buckler. Lembramos que Thomas era na época do editor-chefe da Marvel e substituiu os velhos anuais de verão pelas revistas Giant-size, que tinham tamanho maior (formato magazine), mais páginas e traziam eventos especiais e republicações de histórias antigas. Neste caso, para embalar o clima da Era de Ouro e o tema da história dos Vingadores, era republicada uma história do Tocha Humana original, de 1948; e uma história da Vespa da de 1963.

Na trama, alguém invade a Mansão dos Vingadores e os heróis descobrem que é o Ciclone (Whizzer), um velocista, herói dos tempos da II Guerra Mundial que lutou ao lado do Capitão América. Após uma breve batalha, o mal entendido é desfeito: Robert Frank está em busca um artefato cromado que aprisiona o seu perigoso filho, um vilão louco chamado Nuklo. Claro, o vilão se liberta, vence os heróis e foge. Enquanto o time dos Vingadores vai atrás do vilão, Feiticeira Escarlate é tocada de uma intuição e fica para trás, para levar Frank ao hospital.

What If… 04: E se os Invasores permanecessem unidos?

Lá ele lhe conta toda a sua história em detalhes: a narração deixa claro – retomando uma narrativa criada por Thomas e executada por Englehart nas histórias do Capitão América de dois anos antes – que após o desaparecimento do Capitão América em 1945, outros três homens ocuparam o seu lugar, brevemente. William Naslund, o Independente (Spirit of ’76) tomou o lugar de Steve Rogers a pedido do Governo, para que a notícia da morte do herói não esfriasse os ânimos dos soldados na reta final da Guerra; mas Naslund terminou morto em uma missão em 1946, e foi substituído na função de Capitão América por Jeff Mace, o Patriota, que teria agido até 1949. (O terceiro Capitão – William Burnside – surgiria em 1953, como parte de uma iniciativa do governo de reproduzir o Soro do Supersoldado e terminaria enlouquecido e aprisionado, o mesmo que se libertara e lutara contra o verdadeiro Capitão no arco de histórias publicado em 1972). O próprio Thomas detalharia essa trama dos outros Capitães América na revista What’s If… de 1977, assim como na revista The Invaders (Os Invasores), que escreveu entre 1976 e 1979.

Mas tudo isso é para dizer que o Whizzer conta a Wanda suas aventuras com o Esquadrão Vitorioso, o grupo que prosseguiu com o legado dos Invasores após a Guerra, e conta que em uma das últimas aventuras da equipe, ele e a esposa, a também heroína Miss América (Madelyne Joyce), terminaram contaminados por uma alta dose de radiação, de modo que o filho deles, Robert Frank Jr. se transformou no vilão Nuklo.

Mas aí vem a surpresa! Robert e Madelyne passaram por outra gravidez depois. Temerosos de que o filho pudesse ter problemas como o primeiro, foram ao Leste Europeu, no país chamado Trânsia em bisca da Montanha de Wundagore, onde estava escondida a instalação científica do Alto Evolucionário, que tinha aparecido nas histórias do Thor. O Alto Evolucionário fazia experimentos com o DNA humano para tentar acelerar a evolução da humanidade. Madelyne dá à luz a um par de gêmeos e morre no processo, após solicitar que eles fossem batizados de Wanda e Pietro.

Feiticeira Escarlate "descobre" quem é seu pai em Giant-Size Avengers 01.
Feiticeira Escarlate “descobre” quem é seu pai em Giant-Size Avengers 01.

Então, a Feiticeira Escarlate finalmente conhece a verdade: ela é filha dos heróis da II Guerra Mundial, Ciclone e Miss América!

O que aconteceu é que Robert Frank ficou tão abalado pela morte da esposa que terminou indo embora sem os filhos, e o Alto Evolucionário, então, entregou às crianças aos Maximoff, que moravam em um acampamento cigano ali próximo. A história é fundamental para estabelecer que a Transia é o país natal de Wanda e Pietro.

A trama de Thomas é boa e faz sentido quando se quer criar laços entre a Era de Ouro e a Era de Bronze na qual Giant-Size Avengers 01 foi publicada, porém, enfrentou alguns problemas. Primeiro, em relação ao tempo, pois em 1974 fazia praticamente apenas 30 anos que a guerra havia terminado, mas na medida que os Vingadores continuaram a ser publicados, a cronologia continuamente se ajustava para deixar os eventos da guerra cada vez mais ao passado. Nos anos 1980, já eram 40 anos de diferença e começava a ficar difícil que um herói como a Feiticeira Escarlate fosse jovem sendo filha de pais que viveram nos tempos da guerra. (E este ponto nem seria alterado pelo retcon que viria a seguir…).

Feiticeira Escarlate e Mercúrio nos quadrinhos: drama, traição e filiação perigosa…

Outro ponto é que Wanda e Pietro garantiam uma pequena diversidade aos Vingadores ao serem retratados como originários do Leste Europeu, e não americanos como a maioria dos outros heróis. Mas a revelação de Thomas fazia com que fossem filhos de dois heróis americanos, transformando sua origem semi-oriental apenas um acidente de percurso.

De qualquer modo, a ideia de que a Feiticeira Escarlate e Mercúrio eram filhos de Whizzer e Miss América vingou durante alguns anos e até fazia algum sentido: afinal, pai e filho tinham os mesmos poderes, e por uma certa coincidência, Wanda era retratada de modo similar à Miss América, inclusive, com ambos os uniformes sendo vermelhos; embora não haja correspondência entre seus poderes.

Dali em diante, a paternidade dos velhos heróis passou a ser explorada na revista dos Vingadores, e com Miss América morta, Whizzer permaneceu como um coadjuvante nas aventuras dos heróis pelo restante da década de 1970.

Capa de “Giant Size Avengers 02”, de 1974, por Ron Wilson e John Romita.

A Madona Celestial e o Casamento

A partir de Avengers 129, de 1974, Steve Englehart (ao lado dos desenhistas Sal Buscema e Dave Crockum) dá início à uma das mais célebres histórias dos Vingadores clássicos: A Busca da Madona Celestial, que também foi chamada de A Guerra de Kang (Kang War) na época. Na trama, o viajante do tempo Kang, o conquistador, declara guerra à humanidade e termina entrando em conflito com outros dois vilões também viajantes no tempo: o Faraó Rama-Tut e Immortus, no fim das contas, revelando que os três são as mesma pessoa, em tempos distintos. Em meio à guerra, surge a busca pela Madona Celestial, uma mulher de imenso poder que daria à luz ao salvador do universo. A Feiticeira Escarlate é uma das suspeitas de ser a tal entidade, mas no fim, é revelada como sendo Mantis.

A saga se arrastou por várias revistas e progrediu em Giant-Size Avengers 02, na qual o Espadachim se sacrifica para salvar a equipe, e em Giant-Size Avengers 03, lançadas em novembro de 1974 e fevereiro de 1975, respectivamente, ambas por Steve Englehart e David Crockum, na qual o mistério da origem do Visão é finalmente revelado: seu corpo sintozoide não fora construído por Ultron como pensávamos, mas era uma reciclagem do corpo do antigo Tocha Humana da Era de Ouro, que também era um androide.

Era outro movimento de conexão das duas eras dos quadrinhos e uma explicação para a ausência do Tocha Humana na Marvel moderna – afinal, Namor e o Capitão América estavam atuantes. Por outro lado, a revelação causou estranheza, tanto porque não havia nada similar entre os poderes do Tocha Humana (cobria o próprio corpo de chamas, voava e disparava bolas de fogo) com o Visão (que ficava intangível ou duríssimo, adicionando super-força); quanto porque ao fazer isso ficava-se impedido de usar o velho Tocha Humana nas histórias da Marvel caso se quisesse.

Esta questão – tal qual a paternidade dos Maximoff – seria retomada e alterada no futuro.

O duplo casamento (polêmico) em Giant-Size Avengers 04.

Mas uma das consequências da Saga da Madona Celestial, que se encerrou em Giant-Size Avengers 04, de junho de 1975, agora por Englehart e Don Heck, na qual viajando pelo tempo e o espaço, o Visão encontra a Feiticeira Escarlate na Dimensão Negra de Dormammu, mas consegue salvá-la. De volta, o Visão finalmente reconhece seus sentimentos por Wanda e a pede em casamento. Ela aceita! Na Terra, Mantis encontrou um ser Colati que incorporou a essência do Espadachim (seu namorado) e decide se unir a ele. Kang, tenta seu último round, querendo se apossar da Madona Celestial e os Vingadores contam com a ajuda da Serpente da Lua, enquanto o vilão se vê traído por um de seus asseclas, o Fantasma do Espaço.

Com a vitória, Immortus realiza o casamento duplo de Mantis e o Cotati/Espadachim e Feiticeira Escarlate e Visão, selando definitivamente a união da mutante com o sintozoide.

Jack Kirby traz um pouco dos velhos tempos às capas.

Vida de Casados

Mesmo casados, Wanda e Visão continuaram suas aventuras nos Vingadores como dois dos principais membros pelo restante dos anos 1970, passando por sagas como a da Coroa da Serpente, A Noiva de Ultron e, a mais importante, A Saga de Korvac, na qual os heróis enfrentaram aquele que provavelmente foi seu inimigo mais poderoso.

Avengers 181 traz 16 Vingadores e os Guardiões da Galáxia: Arte de John Byrne.

Mas para vencer Korvac, os Vingadores reuniram um time que excedia uma dezena – e incluía a volta de Mercúrio pela primeira vez desde 1973! – e ainda contava com o auxílio dos Guardiões da Galáxia originais (não o time que ficou famoso no cinema). Neste ponto, o Governo dos EUA se intromete – por meio do agente Henry Peter Gyrich – impõe que o time precisa ter um core de 7 membros fixos.

Assim, Avengers 181, de 1978, escrita por David Michelinie e com desenhos do mestre John Byrne, faz emergir uma nova equipe oficial: Homem de Ferro (continuando como líder), Visão, Capitão América, Feiticeira Escarlate, Fera, Vespa e o Falcão

Michelline e Byrne revelam que Mercúrio e Feiticeira Escarlate são filhos do vilão Magneto.

Os Segredos de Wundagore

Mas o arranjo do novo time não durou nada. O Falcão ainda estava ausente e Mercúrio e Gavião Arqueiro continuaram envolvidos com o time e Avengers 182 trouxe uma grande surpresa: a primeira aparição de Django Maximoff, um mago que clama ser o pai de Wanda e Pietro! É o início do arco Noites de Wundagore, que vai explorar as origens da dupla de heróis.

Na trama, Django Maximoff não se mostra maligno, apenas alguém desesperado para retomar o contato com os filhos. Mas Wanda e Pietro pensam que são filhos dos heróis da II Guerra Mundial Ciclone (Whizzer) e Miss América (já falecida). Intrigados com a “revelação”, os dois irmãos decidem ir à Europa Oriental junto com Django para averiguar sua história.

A saga Noites de Wundagore prossegue em Avengers 185, quando vemos Feiticeira Escarlate e Mercúrio chegando ao fictício país da Trânsia indo em direção à Montanha de Wundagore, base do vilão Alto Evolucionário, velho personagem opositor ao Thor, um cientista que faz experimentos com a evolução humana. Mas a dupla é atacada pelo mago Mordred e pela entidade Chton, que se apossa da Feiticeira Escarlate, obrigando Mercúrio a chamar os Vingadores para ajudá-los.

Noites de Wundagore: segredos revelados.
Noites de Wundagore: segredos revelados.

Enquanto isso, Bova – uma vaca com inteligência, evoluída pelo Alto Evolucionário – conta a Pietro sua história: uma mulher chamada Magda chegou à montanha, também grávida. Como explica Bova, Magda fugia de um marido que tinha desenvolvido estranhas habilidades e que agora queria dominar o mundo. Ela deu à luz a dois filhos gêmeos, Wanda e Pietro, mas depois, os deixou lá e fugiu.

Numa coincidência macabra, logo em seguida, Robert e Madelyne Frank, os antigos heróis Ciclone e Miss América, chegaram a Wundagore, com ela grávida. O casal já tinha tido um filho que nasceu com superpoderes descontrolados (como mostrava a história de Giant-Size Avengers 01, de 1973), e procurou a ajuda do Alto Evolucionário. Os heróis foram acolhidos, mas o bebê nasceu morto. A ideia de Bova era entregar Wanda e Pietro ao casal, substituindo o filho natimorto, mas Miss América morreu no parto e Ciclone não suportou a notícia, fugindo dali. Com os gêmeos órfãos pela segunda vez em poucos dias, Bova entregou as crianças a Marya e Django Maximoff, que viviam em um acampamento cigano próximo a Wundagore.

Bova explica a nova origem de Feiticeira  Escarlate e Mercúrio.
Bova explica a nova origem de Feiticeira Escarlate e Mercúrio.

A história não esclarece quem é Magda, mas os leitores atentos do Universo Marvel puderam perceber que as histórias mais recentes dos X-Men já haviam introduzido uma mulher com o mesmo nome e que a descrição de um marido que queria dominar o mundo deixava ainda mais claro quem deveria ser aquele pai que sequer sabia que a esposa estava grávida.

Foi uma jogada ousada da Marvel na época, porque a história não diz explicitamente quem é o pai dos heróis, mas qualquer leitor das aventuras recentes dos mutantes sacou no ato de quem se tratava. Foi um caminho não usual, pois poderiam ter feito isso em uma aventura do tipo crossover ou algo do tipo, mas escolheram esse caminho indireto.

Mas o tema seria abordado às claras em breve.

Filhos de Magneto

A verdade – que todos já sabem à esta altura – era que Wanda e Pietro eram filhos de Magneto!

Este foi um dos maiores retcons da história dos Vingadores clássicos. A nova geração de escritores da Marvel – incluindo o editor-chefe Jim Shooter, David Micheline, John Byrne e Chris Claremont (que escrevia as histórias dos X-Men) – não compraram a ideia de Roy Thomas de fazer os Maximoff filhos de Ciclone e Miss América, inclusive, porque isso criava problemas temporais em uma cronologia que precisava se distanciar dos anos 1940 depois de 40 anos! Ademais, fazia mais sentido vinculá-los a Magneto, com quem agiram em suas primeiras histórias na Irmandade de Mutantes.

A coisa estranha nisso tudo é que essas histórias estabeleceram que Magneto – chamado então Magnus, mas cujo nome Erik Lehnsherr seria definido depois – não sabia que Magda estava grávida, o que tornava a coincidência de encontrar seus filhos vivendo entre os ciganos e recrutá-los para seu grupo mutante sem saber da verdade, um pouco difícil demais para acreditar.

Mas de qualquer modo, vincular dois dos maiores Vingadores de todos os tempos a um dos maiores vilões do Universo Marvel terminou se mostrando uma boa jogada e rendendo drama e tramas a explorar.

Por mais que os fãs mais ligados já houvessem ligado os pontos, a resposta definitiva sobre a paternidade dos Maximoff só veio quatro anos depois, numa minissérie focada na Feiticeira Escarlate e no Visão. A minissérie The Vision & The Scarlet Witch mostra no último capítulo que Wanda e seu irmão Pietro descobrem que o vilão Magneto é seu verdadeiro pai. Magneto aparece para os filhos por causa do nascimento de Luna, a filha de Mercúrio com a inumana Crystalis, e revela a verdade, citando o mistério acerca de Magda, a mãe deles conforme descobriram algum tempo antes, que era a primeira esposa do vilão.

A origem de Magneto só fora revelada em detalhes no fim dos anos 1970 nas histórias dos X-Men escritas por Chris Claremont, apesar do vilão ter aparecido no primeiro número da revista X-Men, em 1963. Na trama que Claremont desenvolveu com os desenhistas Dave Crockum e John Byrne, Magnus (mais tarde, Erik Lehnsherr) era um polonês de origem judia cuja família fora aprisionada num Campo de Concentração pelos Nazistas na II Guerra Mundial. Mas o jovem Erik sobreviveu à chacina, por causa de seus desconhecidos poderes mutantes. Depois da guerra, Lehnsherr se estabeleceu no interior da Alemanha e se casou com Magda, outra sobrevivente dos Nazistas. Os dois tiveram uma filha chamada Anya e viveram uma vida normal por alguns anos, com ele trabalhando em uma fábrica. Mas as manifestações inconscientes de seu poder mutante começaram a assustar os vizinhos, que pensavam ser ele e sua mulher bruxos – explorando o estereótipo dos europeus do leste carregados de medo e misticismo – o que levou aos moradores de seu pequeno vilarejo a colocarem fogo em sua casa.

O jovem Erik chegou há tempo apenas de ver Anya morrer consumida pelas chamas e num ato de puro desespero e impulso usou seus poderes mutantes para matar TODOS os moradores da vila. O ato aterrorizou Magda, que rejeitou o marido e fugiu, deixando a ponta solta que foi completada com a trama de Wanda e Pietro.

As duas histórias vão se ligar definitivamente na minissérie The Vision & Scarlet Witch, em quatro capítulos escritos por Bill Mantlo e desenhados por Rick Leonardi, entre o fim de 1982 e o início de 1983. Depois de terem deixado os Vingadores (em Avengers 211), determinados a viverem uma vida normal pela primeira vez em suas vidas, Wanda e o Visão se mudam para Leonia, um subúrbio tranquilo em Nova Jersey, inclusive, com o visão tentando se passar por humano sob o nome de Victor Shade – uma referência velada ao seu “antecessor”, o Tocha Humana original, que adotara o nome de Victor Hammond para viver entre os humanos. Porém, “uma vez Vingador, sempre Vingador”, os problemas logo batem à sua porta: na edição 01, o casal recebe de presente um velho livro de magia que termina tendo um demônio vinculado; e na edição 02, Robert Frank, o Ciclone, que ainda pensa ser o pai de Wanda, vai lhes pedir ajuda para transferir seu outro filho, o vilão Nuklo (que ainda jaz no hospital) para Attilan, a terra dos Inumanos, que com sua tecnologia superior poderia curá-lo. Lembremos que Pietro vivia agora com os Inumanos, que tinham mudado sua base secreta da Cordilheira do Himalaia para a Lua (em Fantastic Four 240). Mesmo sabendo que Frank não é seu pai, Wanda se dispõe a ajudá-lo, mas prefere manter o segredo sobre a verdade, achando que o velho ficaria mais feliz pensando ainda ser o pai dos dois Vingadores.

Feiticeira Escarlate e Visão: casal estranho nos quadrinhos.

Mas o enfermeiro responsável pelos cuidados de Nuklo se revela ser Isbisa, um dos velhos inimigos do Esquadrão Vitorioso (o grupo de heróis que sucedeu os Invasores após o fim da II Guerra Mundial) – o vilão tinha aparecido em All-Winners Comics 19, de 1946 (!) – e usa tecnologia para roubar os poderes. Visão, Feiticeira Escarlate e Ciclone combatem o vilão, mas no calor da batalha, Robert Frank descobre a verdade e termina morrendo nas mãos de Isbisa, que por sua vez, é destruído pelo casal vingador.

Porém, a batalha custou um dos braços do Visão, e na edição 03, Wanda pede ajuda aos Vingadores para que Magnum transfira uma porção de seu poder para ajudar a recuperar seu marido. Isso é feito, mas o vilão Ceifador aparece para se aproveitar da situação e matar os dois “impostores” que ele julga terem maculado a memória de seu irmão, Simon Williams (que é o Magnum, mas o vilão não aceita mais isso). No meio da batalha, um moribundo Visão revê suas origens como um sonho – oportunidade para recapitular a história na qual o Visão é construído a partir do velho Tocha Humana por Ultron para destruir os Vingadores.

Enfim, a revelação de que Magneto é o pai da Feiticeira Escarlate e de Mercúrio.
Enfim, a revelação de que Magneto é o pai da Feiticeira Escarlate e de Mercúrio.

Finalmente, na edição 04, o grande momento: Magneto encontra Bova em Wundagore e a força a revelar a verdade sobre Magda, descobrindo que ela deu à luz a Wanda e Pietro. Impressionado pela descoberta, Magneto vai até Atillan para conversar com os filhos. Wanda e o Visão foram à Lua para visitar Luna, a filha de Pietro e Crystallis, e aproveitar que a tecnologia dos Inumanos cure o braço do Visão. Magneto aparece e revela ao quarteto que é o pai de Wanda e Pietro, mas seu passado criminoso os leva a um confronto acirrado com os filhos, o genro e a nora.

Mas quando Crystallis percebe que a batalha está pondo a vida de Luna em risco, consegue parar tudo. Magneto, então, se acalma e pede que os filhos apenas o aceitem e pega a neta nos braços – um elemento que terá grandes consequências para o personagem adiante – e a história termina aí, deixando em aberto o que poderia vir a seguir.

O que aconteceu foi revelado pouco tempo depois. Em Avengers 233, de 1983, o ataque feroz do Aniquilador faz com que Feiticeira Escarlate e Visão se reintegrem ao time, mas o Visão termina seriamente ferido no confronto. Isso é a deixa para que, na edição 234, Vespa e Mulher-Hulk peçam à Feiticeira Escarlate que conte sua história à Capitã Marvel (Monica Rambeau), que tinha ingresso no time pouco tempo antes. Era uma estratégia de recapitular os eventos recentes – em particular da minissérie – aos leitores regulares da revista dos Vingadores que, por ventura, não tivessem lida aquela história. Nessa recapitulação, Wanda revela que após Magneto ter segurado sua neta por alguns instantes de ternura, seguiu-se uma discussão comportada e ela e Pietro rejeitaram aquele que era, até então, um dos maiores vilões do Universo Marvel. Magneto ficou triste e enfurecido, e disse que eles se arrependeriam, mas foi embora em paz.

Isso meio que fechava a questão, mas o fato é que, nas histórias dos X-Men, ainda escritas por Chris Claremont, se iniciaria um longo arco difuso de histórias nas quais Magneto iria, paulatinamente, se arrependendo de seus crimes e se tornando uma pessoa melhor. Até o ponto em que virou um aliado relutante e foi acolhido pelos X-Men e passou a tutorear os Novos Mutantes, em histórias de 1986 (três anos depois). Mas os Vingadores ainda o considerariam seu inimigo.

Magneto passaria alguns anos ao lado dos mocinhos e só se tornaria realmente um vilão de novo em X-Men 01, de 1991. Mas antes disso ainda teria um acerto de contas com os filhos…

Visão Absoluto

Por sua vez, a revista dos Vingadores lançaria o Visão em uma série de histórias de descontrole, no arco Visão Absoluto, que começa em Avengers 238, de 1983, e que vai se estender até Avengers 254, de 1985, na qual o sintezoide assume a liderança dos Vingadores e começa a secretamente armar um plano para dominar a rede computadores mundial – a internet ainda não era pública nem comercializada nos anos 1980 – num esforço de manter a paz mundial, tramando inclusive uma fusão com o supercomputador alienígena ISAAC, dos Titãs (a raça da qual vem Thanos). Mas com isso, o Visão excedeu o bom senso e isso o levou a ser confrontado pelos Vingadores e, em seguida, expulso do time. Não adiantou a descoberta que tudo fora causado por um tipo de “mal funcionamento” causado pelo trauma sofrido nas edições anteriores. Ele tinha ido longe demais. A expulsão fez a Feiticeira Escarlate também deixar os Vingadores – e ela ficaria pela primeira vez por um longo período fora do time.

Bom, pelo menos do time principal.

Os Filhos, Tommy e Billy

Fora dos Vingadores, Wanda e Visão retornam para Leonia e tentam reconstruir sua “vida normal”, mas de novo, não conseguem, como mostra uma nova série chamada The Vision & Scarlet Witch, mas agora em 12 capítulos, escrita por Steve Englehart e desenhada por Richard Howell, que correu paralela ao lançamento da revista West Coast Avengers 01, de outubro de 1985, também com roteiro de Englehart, mas arte de Al Migrom, trazendo os Vingadores da Costa Oeste em sua própria revista. O time tinha como membros Gavião Arqueiro, Harpia, Homem de Ferro, Magnum e Tigresa e estreara na revista principal dos Vingadores um ano antes (Avengers 243) e aparecera apenas algumas vezes sem destaque, mas agora, teriam suas próprias aventuras, baseados em Los Angeles. Como Englehart escrevia ambas as revistas, criou uma trama cruzada – uma estratégia para dar mais visibilidade a duas revistas novas.

Na trama da maxissérie, Wanda e Visão são atacados em sua nova casa pelos zumbis do Galo Negro e descobrem mais uma artimanha do Ceifador em tentar usar o Visão para ressuscitar seu irmão, Simon Williams, que há algum tempo ele não aceitava mais que fosse o Magnum dos Vingadores. Mas a grande atração da série era o fato de que Wanda se descobria grávida! De gêmeos!

Visão e Feiticeira Escarlate têm filhos: grandes consequências…

Como era possível que Wanda engravidasse quando o Visão era sintozoide? Um ser humano artificial. Em última instância, um robô avançado? A resposta “óbvia”: a Feiticeira Escarlate era capaz de manipular as probabilidades e, com isso, tornou possível sua fertilização. Na edição 12 da maxissérie, após vencidas as ameaças, Wanda dá à luz aos gêmeos Tommy e Billy.

Magneto, já no seu processo avançado de se regenerar junto aos X-Men, também paga uma visita aos seus novos netos.

Um dos nossos: história de traição e união.

Mercúrio, o Traidor

Uma curiosa e inesperada reviravolta é lançada sobre Pietro Maximoff pouco tempo depois…

Em Avengers Annual 15, de 1986, o escritor Danny Fingeroth e o clássico desenhista Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha), contam a história em que, durante um jogo de baseball beneficente entre os Vingadores e os Vingadores da Costa Oeste, os heróis são atacados pela nova encarnação da Irmandade de Mutantes, agora, liderada por Mística e sem envolvimento com Magneto, cujos membros eram Blob, Pyro, Sina e Avalanche. Os Vingadores descobrem que os vilões agora são a Força Federal, um time de “ex”-criminosos sancionados pelo Governo dos EUA para missões arriscadas em troca de perdão.

Os Vingadores vencem a batalha, mas fica a questão: eles estão sendo perseguidos pelo Governo acusados de um crime grave. E os vilões deixam escapar que foi um ex-Vingador quem os acusou e articulou a perseguição. Há um traidor entre eles!

A sequência da aventura chega em West Coast Avengers Annual 01, logo em seguida, com roteiro de Steve Englehart (que escrevia a revista dos Vingadores da Costa Oeste) e desenhos de Mark D. Bright (que fazia a revista do Homem de Ferro). Na trama, os Vingadores principais da e da Costa Oeste se reúnem num esconderijo secreto e discutem sobre quem poderia ser o membro traidor, analisando cada um dos heróis que fizeram parte do grupo. Era uma desculpa para revisionar as várias formações do time, pois a edição também era celebrativa dos 25 anos da Marvel Comics (contados a partir do lançamento do Quarteto Fantástico, em 1961, e ignorando o período das décadas de 1940 e 50).

Enquanto tentam descobrir, os heróis precisam lidar com uma nova versão do Zodíaco – o time de 12 vilões, cada qual representando um dos signos – e, no fim, terminam levando as pistas até o Formigueiro da Austrália, a velha base dos Sentinelas (da história de 1972), e descobrem que o traidor é Pietro Maximoff, o Mercúrio, que se ressente de uma série de coisas relacionadas à história da equipe.

Pietro só freado em suas ações quando o Visão aparece e exibe para ele uma imagem de seus sobrinhos, Tommy e Billy, que eram recém-nascidos no momento da história. Aquilo abalou Mercúrio e ele fugiu em disparada.

Tal qual outros movimentos criativos relacionados aos personagens, a transformação de Mercúrio em um vilão não agradou em nada muitos dos escritores veteranos da Marvel Comics e isso logo seria revisitado.

De Volta aos Vingadores… da Costa Oeste

“Um vez Vingador…”. Feiticeira Escarlate e Visão não guardaram resguardo por muito tempo. O casal regressou aos Vingadores, mas desta vez, aos Vingadores da Costa Oeste, não à equipe principal, a qual permaneceriam afastado por muito, muito tempo. Em West Coast Avengers 37, de 1988, ainda escrita por Steve Englehart e desenhada por Al Migrom, o time está dividido por causa da tensão entre o também casal Gavião Arqueiro e Harpia, que discordam sobre a letalidade de suas ações. Com o grupo na iminência de se separar, Wanda e Visão são convocados para ajudar e aceitam, mudando-se para Los Angeles com os filhos.

A Feiticeira Escarlate.

A Busca pelo Visão e Mais Sombrio do que Escarlate

Os Vingadores da Costa Oeste nunca emplacaram nas vendas. Talvez por ter transformado a equipe no playground particular de Steve Englehart – que fora um dos maiores escritores da editora nos anos 1970 e retornava à casa após uma década afastado – a ação terminou deixando o time isolado do restante do Universo Marvel e, com isso, sua existência era praticamente irrelevante ao fluxo da editora. E por uma razão qualquer – talvez um má desenhista? – a revista nunca decolou e estava ameaçada de ser cancelada

John Byrne: pensando em suicídio?

Por isso, a Marvel apostou alto para colocar o time no radar. Englehart saiu da revista e ela foi ocupada pelo artista sensação John Byrne. Nascido na Inglaterra, mas criado no Canadá, Byrne emergiu na cena dos quadrinhos em meados dos anos 1970, desenhando histórias secundárias na Marvel, e chamando a atenção com seu trabalho no Punho de Ferro e nos Campeões, com sua arte belíssima, cheia de movimento. Com isso, desenhou Marvel Team-Up (uma revista com histórias do Homem-Aranha sempre ao lado de algum outro herói) e terminou fazendo parceria com o escritor Chris Claremont na revista dos X-Men, onde a dupla produziu algumas das histórias mais aclamadas dos mutantes, como A Saga da Fênix Negra e Dias de um Futuro Esquecido, entre 1977 e 1981. Nos mutantes, Byrne mostrou que também era um escritor e, por isso, fez uma celebrada parceria com Roger Stern nas histórias do Capitão América e desenhou várias edições dos Vingadores ao lado de David Micheline (como já vimos). Isso levou Byrne a assumir sozinho (texto e arte) a revista do Quarteto Fantástico e produzir a fase mais celebrada da equipe desde a temporada original de Lee e Kirby.

Byrne deixou a Marvel em 1986, após uma discussão com um dos editores e foi para a concorrente DC Comics, onde recriou o universo do Superman depois do reboot de Crise nas Infinitas Terras, trabalho que o colocou definitivamente como um dos maiores (senão o maior) nome das HQs de super-heróis da época. Mas dois anos depois, Byrne regressou à Marvel para novos trabalhos e um deles foi assumir das duas revistas dos Vingadores com a missão de tornar o time da Costa Oeste relevante. E ele não decepcionou! Enquanto escrevia o time principal e deixava os desenhos para Paul Ryan, Byrne escreveu e desenhou Avengers West Coast a partir do número 42, de fevereiro de 1989. E deu largada a dois arcos matadores: A Busca pelo Visão e Mais Sombrio do que Escarlate.

Em Avengers West Coast 42, enquanto são atacados por uma réplica fraca de Ultron, os Vingadores da Costa Oeste se dão conta de que o Visão despareceu. Enquanto armam missões para encontrá-lo e investigam, são ajudados pela Harpia, que parece saber o que aconteceu. Na edição 43, Wanda encontra o marido: desmontado e dissecado por um grupo de cientistas do Governo dos EUA, que mandara desabilitar o Visão como uma reprimenda por suas ações no arco Visão Ilimitado. Na edição 44, Hank Pym (Homem-Formiga, Gigante, Golias, Jaqueta Amarela) começa a remontar o Visão.

E mais: ao começar a remontar o Visão na edição 44, Pym tem uma certeza: o Visão não é o Tocha Humana original. Na sua avaliação, a tecnologia do Visão era muito mais “jovem” e os Vingadores até encontram o Dr. Phinneas Horton, o cientista que havia criado o Tocha Humana em 1939, e ele confirma: aquele não é seu projeto. Assim, fica presumido que Ultron criou o Visão do zero, no máximo utilizando algumas peças sobressalentes do Tocha.

Paralelamente, Pym estuda os poderes da Feiticeira Escarlate e começa a perceber que todos – inclusive ela própria – havia interpretado mal o que seus poderes eram. Pym suspeita que ela é capaz não apenas de afetar as probabilidades como se pensava, mas sim, de alterar a própria realidade. E isso o assusta! E a informação vem quando nas edições anteriores presenciamos Tommy e Billy apresentarem desaparecimentos misteriosos, quando são deixados sozinhos com suas babás, enquanto Wanda está em perigo com os Vingadores.

Na edição 45, o Visão é finalizado, mas Pym falha em restaurar suas emoções após ter sua mente apagada pelo Governo. Com o auxílio dos computadores avançados dos Vingadores, o cientista conseguiu recuperar a maior parte dos arquivos de memória do Visão, mas suas emoções não existem mais. Pym explica para Wanda – e para o leitor – de modo bastante didático, que as emoções que compunham o Visão desde sempre eram oriundas dos padrões cerebrais de Simon Williams, que Ultron usou quando criou o Visão para estruturar a mente computacional do sintozoide. Sem esses padrões, o Visão até tinha as memórias de suas aventuras passadas, mas nenhuma emoção sobre elas. Ele era uma máquina fria e calculista. Para refletir essa nova versão, o Visão escolhe não recompor a cor laranja que tinha antes e se mantém em um branco pálido, que faz mais jus ao seu nome. Ele também não vê a necessidade de usar roupas, mas reconhecendo o valor moral das vestimentas, adota um uniforme mínimo para si mesmo.

O Visão que todos conheciam estava, na prática, morto. Era uma mudança radical.

Wanda fica em choque, enquanto o Governo dos EUA, para manter o Visão sob vigilância, impõe um membro aos Vingadores da Costa Oeste comissionado por eles: Jack Daniels, o Agente Americano.

Avengers West Coast 47 dá início ao arco Mais Sombrio que Escarlate, no qual John Byrne continua a explorar o efeito do trauma de perder o marido em Wanda. Ela guarda esperança de fazer “renascer” os sentimentos que o Visão nutria por ela, mas o sintozoide continua sendo uma máquina fria. Enquanto uma estranha organização de cientistas tenta comprovar em Wanda uma teoria de que um elemento maligno acompanha os seres vivos desde tempos imemoriais na Terra, ela tem a mente dominada e precisa ser detida pelo Capitão América e a Mulher-Hulk (membros do time principal).

O Visão e o Tocha Humana original.

Wanda é restituída, mas parece que algo mudou dentro dela… Wanda parece mais nervosa, mais raivosa. Quando os Vingadores vão ao túmulo do Tocha Humana – que “morreu” em 1954, na cronologia da Marvel – para investigar se o Visão realmente não é o velho androide membro dos Invasores e do Esquadrão Vitorioso, Wanda se impacienta e simplesmente usa seus poderes para ressuscitar o Tocha Humana, que volta à vida, conhece seu irmão e se torna um membro dos Vingadores da Costa Oeste!

Na edição 51, enquanto o Homem de Ferro regressa aos Vingadores da Costa Oeste após muito e muito tempo, os Vingadores são levados a confrontar o Mestre Pandemônio, que traz uma verdade terrível: a edição 52 revela que Tommy e Billy Maximoff não existem! Eles são fragmentos da alma de Mefisto – o diabo do Universo Marvel – que foram captados (sem querer) pelas habilidades feiticeiras de Wanda e “construídas” como se existissem, mas tratam-se apenas de manifestação de uma ilusão poderosa por parte dela. Por isso, que os pequenos vinham “desaparecendo”: quando estava em perigo imediato, Wanda deixava de pensar nos filhos e eles deixavam de existir.

À princípio, os Vingadores recusam a acreditar, mas Agatha Harkness – a antiga mestra de magia de Wanda – confirma a verdade. É outro golpe duro para a heroína.

A Feiticeira Escarlate sed transforma em uma das mais poderosas vilãs. Por John Byrne.

Após os Vingadores gastarem algumas edições dentro da saga Atos de Vingança, todo o trauma de Wanda paga um preço em Avengers West Coast 56, já em 1990, quando ela incorpora uma versão maligna de si mesma se voltando contra os seus amigos. É nesta história que é confirmado que os poderes dela alteram a realidade e a Feiticeira Escarlate aprisiona os Vingadores e tortura Magnum física e psicologicamente, por saber que ele é apaixonado por ela.

Inclusive, a cena da tortura desenhada por Byrne dava a entender que Wanda fazia sexo oral de Simon, como um tipo de estupro, mas a Marvel achou a cena pesada demais e um desenhista assistente desenhou a traseira da cabeça de Wanda para afirmar que ela não se abaixou.

Família reunida: Magneto, Feiticeira Escarlate e Mercúrio.

Para piorar tudo, Magneto e o convertido em vilão Mercúrio aparecem e acolhem a maligna Wanda para uma reunião de família na edição 57. Porém, a história mostra que Mercúrio estava apenas fingindo como parte de uma artimanha para reestabelecer sua irmã ao normal. Agatha Harkness dá o toque final, criando um feitiço que faz com que Wanda esqueça a existência dos filhos, para que parasse de sofrer.

Como se vê o arco de Byrne abalou os alicerces de Feiticeira Escarlate, Visão e Mercúrio mudando muita coisa:

  • Visão não era o Tocha Humana;
  • Os filhos de Wanda e Visão não existiam;
  • Os poderes dela eram de alterar a realidade;
  • Mercúrio não era um vilão, mas um herói.

Byrne quis livrar o Tocha Humana original para poder ter suas próprias aventuras – ele passou a aparecer em outras revistas da Marvel dali em diante – e reabilitou Pietro como um herói, meio que ignorando a história de que ele era um traidor e reforçando com seus atos que ele era um herói.

Enquanto isso, após Darker than Scarlet, o Visão migrou para o time dos Vingadores principais e permaneceu por lá, sem emoções e branco por algum tempo. Ele voltaria a ostentar cores e resgatou um pouco do seu eu antigo, mas nunca mais voltaria a ser o mesmo.

A relação entre Wanda e Visão jamais voltaria.

Força Tarefa

Wanda precisou de um longo período para se recuperar.

Após algum tempo, Wanda retomou a ativa dentro dos Vingadores da Costa Oeste, mas após a saída do escritor/desenhista John Byrne, o time secundário dos maiores heróis da Terra novamente voltou à obscuridade e permaneceu algo irrelevante dentro do panorama da Marvel Comics pelos anos seguintes. Então, no verão de 1994, a editora decidiu tentar algo diferente.

Tomando como base a cisão que se construiu entre os Vingadores pela ação final na saga Operação Tempestade Galáctica – na qual alguns heróis acharam que era válido eliminar a Consciência Suprema dos Kree, líder dessa raça alienígena que travou uma guerra espacial contra o Império S’hiar; enquanto outra facção era contra o assassinato – o Homem de Ferro, então, líder da filial da Costa Oeste aproveitou para – de modo chocante – declarar o encerramento da equipe secundária. Sua proposta era: reunir os membros – Feiticeira Escarlate, Agente Americano, Magnum, Mulher-Aranha II (o Gavião Arqueiro se recusou) – e criar uma nova equipe independente, que foi batizada de Força Tarefa.

Com roteiro de Dan Abnett e Andy Lanning e arte de Tom Tenney, Force Works 01 estreou em julho de 1994, com uma proposta mais agressiva, com histórias mais violentas, desenhos mais exuberantes e temas mais ligados à magia, misticismo e terror, dentro da pegada que se convencionou chamar de Estilo Muscular, uma estética popularizada pela editora Image Comics, que emergiu como a principal concorrente da Marvel e da DC Comics.

O novo uniforme da Feiticeira Escarlate.

A Feiticeira Escarlate, por exemplo, ganhou um uniforme novo, mantendo o padrão de cores, mas com novos detalhes e adereços na vestimenta, Apesar de ser mais “coberto” do que o uniforme clássico – que sempre passou a imagem de um maiô (mesmo sobreposto a calças e blusas) – o desenho, seguindo à risca a linha do Efeito Muscular, sempre exalava sensualidade, ou seja, a partir de uma abordagem sexista, explorava a sexualidade das personagens femininas em poses sensuais ou sexuais mesmo.

A grande herança narrativa que a Força Tarefa deixou para Wanda foi que Simon Williams, o Magnum, com quem ela passara a se relacionar após a transformação do Visão, terminou por morrer na primeira missão do novo grupo na edição 01.

Embora sem causar grande impressão, Force Works durou 22 edições até ser cancelada em abril de 1996.

A arte de Mike Deodato a serviço dos Vingadores: Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate.

O Fim e o Recomeço

Com o fim da Força Tarefa, Feiticeira Escarlate voltou aos Vingadores (time principal) pela primeira vez desde 1982 (!!!!) – descontadas as participações especiais, é claro – a partir de Avengers 397, de abril de 1994, na etapa final da longuíssima fase do escritor Bob Harras e com desenhos do brasileiro Mike Deodato Jr.

Era um péssimo momento para a Marvel, com vendas em declínio e fortes críticas pelos exageros do Efeito Muscular. Então, em um movimento “inteligente”, o que a Marvel fez? Ampliou o Efeito Muscular! Usando como desculpa a saga Massacre – na qual um poderosíssimo novo vilão mata praticamente todo o Universo Marvel – a editora cancelou alguns de seus títulos mais tradicionais (mas que não iam muito bem das vendas) e lançou a empreitada Heróis Renascem, na qual os dois principais artistas da Image Comics, Jim Lee e Rob Liefeld, assumiam o controle editorial e criavam um reboot radical de parte dos personagens da Marvel, com novas revistas para Avengers (vol. 2), Captain America, Iron-Man e Fantastic Four. Foi ousado, mas o resultado foi o esperado: uma tragédia total. Após 12 edições de cada, o arco Heróis Retornam trouxe todos de volta ao normal, sob a desculpa que os heróis haviam sido transferidos para uma realidade alternativa e agora voltavam.

Os Vingadores no universo tradicional…

Os Vingadores, portanto, ganharam o Volume 3 de sua revista, com um novo Número 01 e dando início a uma aclamada fase com o escritor Kurt Busiek (de Marvels) e o clássico desenhista George Perez, na qual tinham a missão de resgatar os elementos clássicos da equipe, se livrar dos excessos do Efeito Muscular e dialogar com os novos tempos e a proximidade do século XXI. Deu super-certo!

A heroína recuperada na fase de Busiek e Perez.

Feiticeira Escarlate e o Visão retornariam aos Vingadores após a grande reformulação. Nessas tramas, o Visão permanecia fantasmagórico, e Wanda usaria seus poderes para trazer Magnum de volta à vida em Avengers (vol. 3) 11, com este também assumindo um aspecto espectral. Apesar da estranheza da situação, Wanda e Simon desenvolveram um romance nessa época.

O estilo cigano dos anos 1990.

Outro detalhe interessante é que Perez criou um novo uniforme para Wanda, remetendo aos elementos clássicos, mas incorporando uma estética cigana de verdade pela primeira vez.

A Mansão dos Vingadores é definitivamente destruída em “Avengers Disassambled” de Bendis e Finch.

Vingadores: A Queda

Após 84 números do Volume 3 da revista Avengers, a Marvel retomou a numeração original, lançando Avengers 500 em setembro de 2004, inaugurando a fase de Brian Michael Bendis no texto e David Finch na arte, dando início ao arco Vingadores: A Queda, na qual a equipe recebe um ataque violento e repentino, que resulta na explosão da Mansão dos Vingadores e nas mortes do Visão, Homem-Formiga II (Scott Lang) e Gavião Arqueiro. Um grande time de heróis se reúne para revidar e vários vilões parecem envolvidos até… que eles descobrem que é tudo obra da Feiticeira Escarlate.

Wanda recuperara suas memórias, enlouquecera e orquestrou o ataque.

Em Avengers 504, Os Vingadores precisam da ajuda do Doutor Estranho para derrotá-la. O Mago Supremo percebe que Wanda está acessando a Magia Caótica, o que pode ter gravíssimas consequências ao continuum espaço-tempo, mas consegue neutralizá-la, usando o Olho de Aganotto. Inconsciente, Wanda é levada embora por seu pai, Magneto, para um destino ignorado.

A capa de Disnatia M: população reduzida.

House of M

Não bastasse quase ter matado os Vingadores, a Feiticeira Escarlate deu outro passo errado logo depois. E foi muito pior! Tudo saiu na minissérie Dinastia M (House of M), publicada em 8 edições a partir de agosto de 2005, com roteiro de Brian Michael Bendis e arte de Oliver Coipel.

Na trama, Wanda está em Genosha – a ilha na costa da África habitada apenas por mutantes, governada por Magneto – sendo tratada pelo professor Charles Xavier, mas sem grandes avanços: Wanda altera a realidade e dá à luz a dois bebês, mas Xavier a confronta, dizendo que eles não existem. Ela chora. Magneto se sente culpado por não ter dado atenção aos filhos. Após algum tempo, Xavier convoca uma reunião em Nova York com os Vingadores e os X-Men e propõe que Wanda seja morta, pois ela é uma ameaça sem precedentes ao mundo. Os heróis se dividem.

Por sugestão da Vespa, eles vão a Genosha para ouvir Wanda, mas então, a realidade se distorce e todos migram para uma outra realidade na qual têm seus sonhos realizados. Mas nessa nova realidade, muitos começam a perceber que vivem uma farsa e terminam conseguindo reverter tudo ao normal. Zangada pelo o que foi feito, Wanda pronuncia a frase “chega de mutantes!” e 90% da população de mutantes do planeta deixa de existir!

Wanda desaparece.

Sem Memória e Sem Poderes

Clint Barton, o Gavião Arqueiro, foi ressuscitado após morrer n’A Queda, e termina em uma vila na Transia, próxima a Wundagore e encontra Wanda vivendo sem memórias com sua “tia Agatha” e achando que sempre viveu ali, em New Avengers 25, de 2006, por Brian Michael Bendis e Oliver Coipel. Ele a salva de um ladrão e em retribuição, eles passam a noite juntos. Clint tenta investigar o que está acontecendo, mas não encontra nada e vai embora. O Fera dos X-Men também encontra Wanda na mesma vila, em uma história secundária de X-Men (vol. 2) 204, de 2007, por Mike Carey e Scott Eaton, querendo que ela o ajude a lidar com a Eliminação dos mutantes pós-House of M, mas ela continua sem nenhuma memória de sua vida anterior.

Depois, o deus asgardiano Loki – na época habitando um corpo feminino – incorporou a Feiticeira Escarlate para reunir um time de Vingadores liderado por Hank Pym (O Vespa) para enfrentar a ameaça do demônio Chton, o que deixou os heróis intrigados, em Mighty Avengers 23, de 2009, por Dan Slot e Koi Pham. Doutor Estranho e Mercúrio saíram depois em busca dela, mas não a encontraram.

Em New Avengers 54, de 2009, por Brian Michael Bendis e Billy Tan, quando o Doutor Estranho deixa o posto de Mago Supremo da Terra, o Olho de Agamotto vai em busca de um novo titular do cargo e Wanda é uma das candidatas, mas o artefato julga ela e seus poderes muito instáveis e escolhe o Irmão Voodoo.

Os Jovens Vingadores na arte de Jim Cheung.

Wiccan e Speed, os novos filhos

Quando os Vingadores encerraram as atividades após A Queda, surgiu um novo time de jovens “substitutos”, os Jovens Vingadores. Na trama apresentada por Allan Heinberg e Jim Cheung, em Young Avengers 01, de abril de 2005, o Ironlad vem do futuro para reunir um grupo de jovens heróis para deter a ameaça de Kang, o conquistador, reunindo o Asgardiano (mais tarde Wiccan), que mimetiza os poderes de Thor; Hulking, que mimetiza o Hulk; o Patriota, que mimetiza o Capitão América; e o próprio Ironlad, mimetiza o Homem de Ferro. O grupo é bem sucedido e logo depois ganhou outros membros, como Kate Bishop, mimetizando o Gavião Arqueiro; Cassie Lang, a filha do Homem-Formiga II (Scott Lang), mas mimetizando o Gigante/Golias de Hank Pym; e Speed, mimetizando Mercúrio.

Em meio às suas aventuras, Wiccan e Speed terminaram por descobrir que eles eram a reencarnação dos filhos de Wanda, Tommy e Billy. Isso os pôs em busca de sua mãe em Young Avengers Presents 03: Wiccan e Speed, de 2008, por Roberto Aguire-Sacasa e Alina Urisov. Eles rodam o mundo inteiro em busca da mãe, mas no fim, são convencidos a não o fazerem pelo Mestre Pandemônio, em risco de trazerem de volta os poderes absolutos e perigosos da Magia do Caos da Feiticeira Escarlate.

Mas a busca é retomada em Avengers: The Children’s Cruzade, uma minissérie em 9 episódios, publicada a partir de setembro de 2011, por Allen Heinberg e JIm Cheung. Na trama, os Jovens Vingadores descobrem que Wanda está na Latvéria, no Leste Europeu, vivendo ao lado do rei do lugar, Victor Von Doom, o Doutor Destino, um dos maiores vilões do Universo Marvel. Doom finge ajudá-la a trazer seus filhos de volta enquanto trama para roubar seus poderes, é claro.

Uma grande batalha contra Destino é travada com a aliança dos Vingadores e dos Jovens Vingadores. De início, os Vingadores ficam aterrorizados com Wanda, ainda mais quando Wiccan e Speed dizem que são seus filhos renascidos, mas no fim, a heroína consegue lidar com a informação, as memórias, enquanto tem seus poderes restituídos por causas das artimanhas de Doom, que é derrotado. Em vista disso, o Capitão América oferece um lugar para a Feiticeira Escarlate no time, mas ela recusa e prefere ficar um tempo com Pietro e Magneto, com o trio vivendo como uma família.

Heroína De Novo

Mas não demorou muito para que os poderes de Wanda – e sua nobreza – fosse novamente necessários aos maiores heróis da Terra. Na saga Avengers vs. X-Men, publicada como uma maxissérie em 12 episódios (mais uma série de revistas complementares), a partir de junho de 2012, com roteiro de Brian Michael Bendis e vários desenhistas, como John Romita Jr., Oliver Coipel, Adam Kubert, Frank Choi etc. Na trama, quando a Força Fênix – aquela mesmo que incorporou Jean Grey no passado – retorna à Terra, os heróis da Marvel se dividem, pois a facção dos X-Men liderada por Ciclope acredita que o evento é benéfico aos mutantes; enquanto os Vingadores a enxergam como a maior ameaça que a Terra já viu. Então, um conflito acirrado entre os dois grupos se alastra.

Wanda ficou no meio do fogo cruzado – por estar ligada tanto aos X-Men quanto aos Vingadores – e termina tendo uma visão do futuro no qual a Terra foi consumida pelas chamas da Fênix e vai ajudar os Vingadores a detê-la. Mas isso a coloca em rota de colisão contra Hope Summers, a messias mutante. No fim, Wanda e Hope se unem e dizem juntas a frase “chega de Fênix” e a entidade desaparece.

Esse retorno heroico e a necessidade de uma aliança entre os Vingadores e os X-Men após o conflito fazem a Feiticeira Escarlate ganhar um novo papel nos Vingadores dali em diante.

Os Fabulosos Vingadores

Como uma forma de conciliação entre os Vingadores e os X-Men, o Capitão América decide criar o Esquadrão Unitário dos Vingadores, um time misto entre membros das duas equipes para missões que exigem alto nível de poder. O time é formado pelo próprio Capitão América mais Feiticeira Escarlate, Wolverine, Thor, Vampira e Destrutor, ganhando a Vespa, Solaris e Magnum pouco depois, estreando em Uncanny Avengers 01, de outubro de 2012, por Rick Remender e John Cassaday.

Wanda chegou a ser morta pela Vampira, em Uncanny Avengers 14, de 2013, por Rick Remender e Steve McNiven, quando esta pensou que aquela tinha traído o time, mas o evento foi desfeito quando versões do futuro de Destrutor e Vespa são enviados ao presente por Kang, para impedir a ameaça destrutora dos Gêmeos do Apocalipse. Na batalha final, na edição 21, Vampira precisa absorver os poderes de toda a equipe para usá-los contra os vilões quase ao custo de sua sanidade. Embora Wanda use um feitiço para que os poderes regressem aos seus donos, Vampira termina mantendo parte dos poderes e da essência do Magnum.

Nova Paternidade?

Em Uncanny Avengers 23, o Esquadrão Unitário encontra de novo seu primeiro inimigo, o Caveira Vermelha, e um acirrado confronto inicia, que leva ao evento AXIS, publicado na maxissérie Avengers & X-Men: AXIS, publicada em 9 edições a partir de outubro de 2014, por Rick Remender e Adam Kubert, na qual Wanda e Vampira são sequestradas pelo Caveira Vermelha e aprisionadas num campo de concentração em Genosha, onde Magneto também está aprisionado. Eles conseguem se libertar, mas na ânsia de matar o vilão, Magneto termina sem querer libertando uma versão ainda mais poderosa do vilão: o Onsglaught Red Skull (Caveira Vermelha Massacre – uma releitura do vilão dos anos 1990).

Numa tentativa frustrada de tentar deter o poderosíssimo ser, Wanda e o Doutor Estranho conjuram um feitiço inverso para mudar a moral do Caveira Vermelha. E dá certo, mas o feitiço afeta a todos em Genosha, incluindo a própria Wanda, o que gera um risco tão grande quanto. Wanda tenta matar o Doutor Destino em vingança aos eventos do passado recente e quando Mercúrio e Magneto tentam impedi-la, ela lança um feitiço para matar seus próprios parentes! Para sua surpresa, Mercúrio é morto, mas Magneto não! Então, ele não pode ser o seu pai!

No fim, com a ajuda do Irmão Voodoo, o feitiço inverso é desfeito e com a derrota do Onsglaught, Mercúrio é trazido de volta à vida.

Mas a dúvida continua: se Magneto não é o pai deles, quem é?

Mercúrio e Feiticeira Escarlate em Era de Ultron.

Disputas Legais

Aqui cabe um longo e triste parêntese sobre os motivos da Marvel Comics fazer um retcon nesta altura do campeonato para desfiliar os Maximoff de Magneto…

Estamos em 2014 e o Marvel Studios revolucionou a maneira de fazer cinema de massas com seus filmes interligados dos Vingadores, enquanto outros estúdios correm atrás de imitar a abordagem e terem seu próprio quinhão. Fruto de uma crise econômica gravíssima na Marvel Comics em meados dos anos 1990, sua divisão de cinema havia vendido os direitos de adaptação de seus personagens por valores abaixo do mercado para vários estúdios diferentes. A 20th Century Fox, por exemplo, comprou um pacote que incluía as franquias de X-Men, Quarteto Fantástico, Demolidor, Motoqueiro Fantasma, dentre outros. A Sony Pictures, por sua vez, adquiriu o universo do Homem-Aranha; e vários outros compraram personagens esparsos, como Universal Pictures, Paramount etc. A Sony fez bastante sucesso com os filmes do Homem-Aranha no início dos anos 2000, mas depois, uma série de escolhas criativas equivocadas fez a franquia naufragar. A Universal tentou o Hulk e não deu certo também. A Fox lançou versões mal recebidas do Quarteto Fantástico, do Motoqueiro Fantasma, do Demolidor e até de Elektra.

Primeira Classe.

Então, para além dos filmes da DC Comics feitos pela Warner Brothers, a única real concorrente do Marvel Studios dentro do campo da própria Marvel era a Fox e a franquia dos X-Men. Os mutantes, inclusive, deram a largada nessa nova fase dos filmes de super-heróis com X-Men – O Filme, em 2000, e fizeram sucesso no começo da década, antes de também afundar tudo em más escolhas criativas. Wolverine ganhou um filme solo em 2009 e a crítica e o público nem gostaram muito, mas pelo chamou bastante a atenção. Mas as coisas mudaram mesmo em 2011, quando saiu X-Men – Primeira Classe, mistura de reboot e continuação situado no passado dos heróis. Um filmaço elogiado por todos!

A Fox se animou a reconstruir a franquia dos mutantes e lançar múltiplos filmes de personagens famosos e outros menos conhecidos. Até o Quarteto Fantástico ganhou uma nova chance – daria totalmente errado, quando lançado em 2015, uma pena, mas ninguém sabia disso antes – e o movimento empolgou até a Sony que começou a pensar em fazer o mesmo com o Homem-Aranha e lançar filmes de personagens coadjuvantes.

Mercúrio em Dias de Um Futuro Esquecido.

Isso não afetava somente o mercado dos filmes. O problema maior é que nos contratos dos anos 1990, os estúdios tinham garantido não somente os direitos cinematográficos, mas ganhos de royalties também das revistas. Ou seja, quando as vendas dos X-Men iam bem, a Marvel ganhava, mas a Fox também. E lembre: a Marvel fora comprada pela The Walt Disney Company em 2009, quando a empresa percebeu o potencial lançado pelo cinema. Então, agora, a Marvel tinha uma política de lucros mais agressiva do que antes. Para se ter uma ideia de como a coisa era séria, a Marvel Comics cancelou as revistas do Quarteto Fantástico como um tipo de represália à Fox. (Não fez o mesmo com os X-Men porque estes vendiam bem).

Mercúrio (ao lado de Mística): mais espaço.

O fato de estarem ligados às duas franquias de quadrinhos – X-Men e Vingadores – fazia os gêmeos Maximoff poderem ser usados no cinema tanto pela 20th Century Fox quanto pelo Marvel Studios. Por isso, uma versão adolescente de Mercúrio apareceu no filme X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido, em 2014, vivido por Evans Peter; enquanto outra versão (adulta) apareceu em Vingadores – Era de Ultron, em 2015, vivido por Aaron Johnson-Taylor, ao lado de sua irmã, Wanda, interpretada por Elizabeth Olson. Houve um acordo entre os dois estúdios, de modo que Wanda não apareceu em nenhum dos filmes subsequentes dos mutantes (Mercúrio virou membro), enquanto Pietro é morto no primeiro filme do Marvel Studios para que Wanda permaneça nos seguintes.

Contudo, a Marvel preferiu mudar as origens da dupla nas HQs, inclusive, de modo a desvincular os personagens do universo mutante, pois a trama (como veremos a seguir) diz que nem mutantes eles eram! Embora isso, aparentemente, não tivesse nenhum efeito legal no uso que a Fox podia fazer dos personagens, soava como outra represália. Ou uma tentativa de impedir que a Fox usasse histórias do personagens desenvolvidas dali em diante.

Mas voltemos às HQs…

O Alto Evolucionário

Uncanny Avengers (vol. 2) 01, de janeiro de 2015, ainda com roteiro de Rick Remender, mas desenhos de Daniel Acuña, dá início à nova saga do Esquadrão Unitário, agora, com uma formação com o novo Capitão América (Sam Wilson), Feiticeira Escarlate, Mercúrio, Visão, Vampira, Irmão Voodoo e Dentes de Sabre (sim, o arquinimigo do Wolverine não foi afetado pela desfeita do feitiço inverso e ficou bom). Na trama, Wanda e Pietro vão a Wundagore atrás de investigar suas origens de novo, já que agora sabem que Magneto não é seu pai.

Um cartaz já anunciava: não mais mutantes!

A busca os leva à Contra-Terra, uma réplica do planeta Terra ocupada pelo Alto Evolucionário para desenvolver seus experimentos, e uma confrontação dos Maximoff com ele, que se revela completamente implicado nas origens da dupla.

Uncanny X-men 04 traz a nova verdade.
Uncanny X-men 04 traz a nova verdade.

O mistério acabou em Uncanny Avengers (vol. 2) 04: o Alto Evolucionário lhes diz que eles são fruto de um experimento de engenharia genética que ele desenvolveu – portanto, não são mutantes, mas tiveram seus poderes criados artificialmente por meio de manipulação genética. Mas em termos de ancestralidade, Wanda e Pietro são simplesmente filhos dos ciganos Django e Marya Maximoff, os mesmos que os criaram. O Alto Evolucionário sequestrou os gêmeos de seus pais e fez experimentos com o DNA deles, mas ao não obter os resultados esperados, simplesmente devolveu as crianças aos seus pais.

Desde lá, a Marvel evitou tocar no assunto da paternidade dos personagens de novo, MAS a Disney comprou a 20th Century Fox em 2018 e deu fim aos contratos de direitos de cinema dos personagens Marvel, submetendo-os de volta à Marvel Entertainment, acabando com a franquia dos X-Men e se organizando para usá-los em seus próprios films.

Veio tudo no momento certo: Vingadores – Ultimato encerrou o primeiro grande ciclo de filmes do Marvel Studios em 2019 e agora uma nova fase totalmente se inicia. E os X-Men e o Quarteto Fantástico podem interagir livremente com os Vingadores.

Seria isso motivo para a Marvel devolver a paternidade de Wanda e Pietro Maximoff a Erik Lehnsherr? Talvez.