Apenas alguns anos após ter se fundido com a gigante de telefonia AT&T, o grupo Warner – antes oficialmente chamado WarnerMedia – está se fundindo novamente, agora com o grupo Discovery. A nova empresa, Warner Bros. Discovery quer um executivo único responsável pelas adaptações da DC Comics, que segundo a Variety carece de direcionamento e “marca” no modelo atual. A mudança deve alterar os planos de filmes futuros do DCU.

A revista diz que a nova empresa, fruto de uma transição de 43 bilhões de dólares (!), pensa que a exploração de Superman, Batman e cia. está aquém de seu potencial e que falta um direcionamento criativo e uma unidade de marca, por isso, procura alguém mais ou menos no perfil de Kevin Feige (o presidente do Marvel Studios) para tocar a produção da DC Entertainment (a holding da DC) de modo vertical e poder supervisionar tudo com melhores resultados.

As fontes ouvidas pela Variety se apressam em dizer que não querem mimetizar exatamente o modelo do Marvel Studios – que é uma produção centralizada e controlada diretamente por Feige em todos os aspectos – mas que se tenha alguém responsável diretamente por isso e possa dar um direcionamento único a essas adaptações, fazer produtos melhores e honrar melhor a rica herança da DC Comics.

David Zaslav, o novo chefão da Warner Discovery. E da DC.

A Variety também diz que o CEO da Warner Bros. Discovery, David Zaslav, quer verticalizar a produção da DC Entertainment, de modo que tenha seu próprio material sólido, em vez de ficar pulverizada nas subdivisões outras do grupo. Zaslav está procurando alguém com o perfil de experiência e capacidade para servir de chefe estratégico e criativo dessas produções. Inclusive, o nome de Emma Watts, ex-executiva de filmes da 20th Century Fox e da Paramount, é citado como um exemplo, ainda que a revista garanta que não é ela quem irá ocupar o cargo.

A iniciativa da Warner Discovery é uma ótima ideia e pode ser o elemento que faltava para o DCU encontrar um propósito e acertar a mão em suas adaptações ao cinema, TV e streaming.

DC Comics: parte do pacote da venda.

O fato é que, dentro da Warner, a DC Entertainment sempre serviu apenas como uma origem de conteúdo, mas quando das adaptações, termina servindo apenas de consultoria criativa, pois não tem pessoal para tocar os projetos em si, que são executados pela Warner Bros. Pictures, que é outra empresa, tem outro direcionamento e matriz comercial, ainda que ambas tenham a mesma “mãe”. O mesmo se deu com a DC Films que, sem poder de decisão final e apenas dando “pitaco” em produções as quais não controlava, aparentemente, mais atrapalhava do que ajudava.

A Origem da Justiça reuniu Superman, Mulher-Maravilha e Batman.

O momento em que a DC Entertainment/DC Films gozou de maior prestígio foi por volta de 2016 e 2017, quando a recepção relativamente boa de Batman vs. Superman e a melhor ainda de Mulher-Maravilha garantiu uma reestruturação com (o roteirista de HQs) Geoff Johns na presidência da DC Films e Walter Hamada na Warner. Mas em vez de capitalizar o sucesso, a dupla terminou envolvida no pastelão de Liga da Justiça (veja detalhes do que aconteceu aqui neste post do HQRock), o que gerou a total reestruturação da Warner e o esvaziamento da DC Films.

Mas ainda assim, a DC Films nunca foi uma empresa autônoma, produtora de conteúdo. Quem produz conteúdo – para os quadrinhos, exclusivamente – é a DC Comics. A DC Films (ou mesmo sua mãe, a DC Entertainment) apenas faz um tipo de consultoria das adaptações, produzidas pela Warner ou outras afiliadas. Como resultado, não há controle criativo, não há estratégia conjunta, não há unidade.

É na verdade surpreendente que a Warner em algum momento tenha acreditado que em um sistema descentralizado desses conseguiria ter um universo ficcional minimamente coerente, o que sempre esbarrou nos interesses conflitantes (e dominantes) de diretores, produtores, executivos e comercial. O resultado é bagunça em que o DCU se encontra, na qual há dois filmes contrastantes da Liga da Justiça, três versões cinematográficas diferentes do Batman em ação (e não integradas, mas conflitantes), produções com problemas, sofrendo de adiamentos infinitos (como The Flash e Aquaman 2, por exemplo) e um monte de produções novas sem que se tenha certeza do que é válido ou não para um universo ficcional. E achando que a maldição de um “universo expandido” com realidades alternativas vai salvar alguma coisa.

Isso é totalmente diferente do modelo de negócio da Marvel, sua maior concorrente, que apresenta – pelo menos até hoje – um universo cinematográfico ficcional coerente e interligado, que funcionou de modo azeitado por mais de uma década e agora se expande para a TV e outras plataformas de mídia.

Como isso foi possível?

Kevin Feige.

Muito simples: é um modelo centralizado. O comando do Marvel Studios, por Kevin Feige, é a voz final em todas as decisões e garante a coerência. Ainda que ao preço da liberdade criativa. O modelo Marvel gerou uma série de problemas com diretores e atores no passado (antigo e recente), mas para aqueles que aceitam que há um chefe que toma as decisões finais e que sua visão criativa precisa do crivo dele, o negócio funciona bem.

Não é provável que a Warner Discovery simplesmente imite o modelo Marvel. Contudo, ter a coragem de deixar a própria DC produzir seus materiais e ter a decisão final pode ser o caminho acertar mais na qualidade do material, que hora é de má qualidade (veja Esquadrão Suicida ou Mulher-Maravilha 1984, por exemplo), hora carece do sucesso esperado (como O Esquadrão Suicida, Arlequina e as Aves de Rapina; e tudo mais exceto Aquaman).

As fontes da Variety na Discovery, por exemplo, acham que, apesar da DC ter conseguido sucesso em produtos como Aquaman (que fez mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias) e The Batman (que fez menos, no pós-pandemia, mas foi muito bem recebido por público e crítica); falta coerência criativa e estratégia de marca. Eles também pensam que personagem centrais como Superman foram deixados à míngua e precisam ser revitalizados.

E as fontes ainda pensam que projetos como Coringa (que também fez 1 bilhão, mesmo sendo para maiores de 18 anos!) mostram o incrível potencial dos personagens DC e que é preciso investir nessa livraria de personagens, como é o caso da Arlequina de Margot Robbie. (Neste caso, todos amam a interpretação da atriz, mas nenhum de seus três projetos cinematográficos – Esquadrão Suicida, O Esquadrão Suicida e Aves de Rapina – atingiu todo o potencial. Ou sucesso).

A diversificação da DC na direção da bem recebida série de TV Peacemaker, que funcionou como um spin-off de O Esquadrão Suicida; ou das prometidas séries do Pinguim e do Asilo de Arkham, derivadas de Batman mostram que a empresa pode ter achado um caminho mais viável, ainda que se beneficiaria das dicas coletadas pela Variety e mencionadas acima.

De fato, se essa visão apresentada prevalecer, podemos ver um DCU – ainda que explorando um Multiverso, que afinal é o que a editora sempre fez nos quadrinhos também – mais coerente, mais interessante e, principalmente, no mundo capitalista, de maior sucesso.