Para o bem e para o mal, o rock cada vez mais se torna um gênero musical de repertório, ou seja, um tipo de música calcada em standarts bem definidos que são (pelo conjunto da obra) o que chama a atenção do grande público. O lado ruim é que as novidades do gênero – artistas e discos novos ou inéditos – não são capazes de mobilizar o grande público e isso encosta o rock em um nicho de mercado muito específico. E a coisa tende a piorar, já que nem esse público específico é capaz de se relacionar com tais novidades e elas vão ficando cada vez mais distantes das chamadas “paradas de sucesso”. Mesmo daquelas fragmentadas como paradas específicas de rock, dominadas pelos clássicos do gênero.

E mais um capítulo dessa saga se completou esta semana: o relançamento do álbum All Things Must Pass do ex-Beatles George Harrison, que faleceu em 2001. Lançado originalmente em 1970, chamou a atenção de toda a mídia, da crítica e do público, ao ponto da velha bolacha chegar ao Top 10 das paradas da revista norteamericana Billboard (o ranking oficial de vendas daquele país) e também tomar o primeiro lugar das paradas de rock.

O Box Set de All Things Must Pass celebra o 50º aniversário de lançamento do disco (atrasado, por causa da pandemia), que é considerado o melhor dentre todos os lançados pelos ex-membros dos Beatles, e em seu contexto original, já era uma obra extensa: um álbum triplo! Dois deles dedicados às canções inéditas que o guitarrista queria mostrar ao mundo e um terceiro disco, de bônus, chamado Apple Jam, composto de temas instrumentais e improvisados criados por Harrison e a inacreditável banda de all stars que reuniu para as sessões.

Nesta semana começada no dia 15 de agosto, o relançamento recheado de material extra (falaremos sobre eles abaixo) chegou ao 7º lugar da parada Billboard 200, que coleta os duzentos discos mais vendidos nos EUA em qualquer gênero musical. É a primeira vez que o disco regressa ao Top 10 desde seu lançamento, quando atingiu ao 1º lugar da Billboard 200 em janeiro de 1971 e permaneceu dentro do Top 10 até março daquele ano.

Como a Billboard percebeu, quinze anos atrás, que o rock começava a ter dificuldades de aparecer nos extratos mais altos das paradas de sucesso gerais – tomadas pela música pop e pelo RAP – , a revista criou o Top Rock Albums e é a primeira vez que Harrison chega ao número 1 nesta parada. O compositor só tinha aparecido no Top 10 dos discos de rock uma única vez, em 2012, no 7º lugar com Early Takes: Volume 1, uma compilação de sobras de estúdio lançada como extra da remasterização de seus álbuns individuais.

Contudo, como membro dos Beatles, Harrison já esteve quatro vezes no número 1 da Top Rock Albums, sendo a mais recente com o relançamento do álbum Abbey Road, em 2019, que manteve a posição por 4 semanas. E o curioso é que Harrison é o segundo ex-beatle a chegar ao topo dessa parada este ano: seu companheiro Paul McCartney atingiu a posição duas vezes (!) este ano, com o álbum McCartney III, em janeiro, e com a releitura desse disco por meio de outros artistas consagrados, com McCartney III Imagined, em agosto.

A própria Billboard fez um retrospecto e contabilizou que os outros dois ex-membros dos Beatles, John Lennon e Ringo Starr, também apareceram na parada de rock, desde 2006. Lennon (que morreu em 1980) já apareceu quatro vezes, incluindo dois Top 10s, e o número 5 com a coletânea de canções remixadas e remasterizadas Gimme Some Truth, lançada no ano passado. E o ainda vivo e ativo Ringo Starr já entrou seis vezes na parada, chegando mais ao topo com o número 16 de Y Not, em 2010.

Os Beatles em 1965: McCartney, Harrison, Starr e Lennon.

All Things Must Pass é a celebração do talento de George Harrison como compositor e serviu como um tipo de mostra de desperdício em relação aos Beatles. Explicamos: o quarteto de Liverpool foi a banda de rock de maior sucesso da explosiva década de 1960, impulsionada pelas composições da dupla John Lennon & Paul McCartney. Harrison era o responsável por fazer os solos de guitarra dentro do grupo, e quando a banda começou sua carreira fonográfica em 1962, ele sequer era um compositor, embora os dois líderes garantissem que Harrison (o caçula da banda) tivesse uma cota fixa de dois solos vocais em cada álbum . (O baterista Ringo Starr também não compunha e cantava uma canção por disco).

Mas Harrison emplacou sua primeira composição solo já no segundo álbum da banda, With The Beatles (1963), embora a faixa não fosse grande coisa. Após outros dois álbuns cantando covers ou composições de Lennon & McCartney, Harrison regressou como compositor (já em boa forma) apresentando duas canções interessantes no quinto disco do grupo (Help!, de 1965), com I need you e You like me too much. Daí para frente, Harrison sempre cantou suas próprias canções nos 8 discos seguintes dos Beatles, quase sempre duas por álbum, exceto no Revolver (1966), onde canta três faixas; e no The Beatles (ou The White Album, de 1968), que por ser um álbum duplo traz quatro composições de Harrison.

Mais interessante ainda é que, apesar de Harrison ser considerado da segunda divisão dos Beatles no início, ainda mais em termos de composições – sem poder fazer frente às maravilhosas canções de Lennon & McCartney – gradualmente, a qualidade das canções de Harrison foi crescendo e ele começou a apresentar faixas que eram tão clássicas ao repertório da banda quanto aquelas de seus companheiros, especialmente no fim da carreira do grupo, com While my guitar gently weeps, Something e Here comes the sun, estas duas últimas, os maiores destaques de Abbey Road.

Além disso, Harrison viu canções de sua autoria fazerem sucesso na voz de outros artistas: ele e o amigo Eric Clapton compuseram Badge, que foi o sucesso final do supergrupo Cream, em 1969, outra das bandas de maior sucesso da década; Jackie Lomax fez um pequeno hit na Inglaterra com Sour milk sea, em 1968; e Joe Cocker fez sucesso mundial com uma versão de Something.

Todavia, dentro dos Beatles, Harrison tinha dificuldade de emplacar suas canções e sentia que Lennon & McCartney recebiam suas contribuições com indiferença e desinteresse. Por causa disso, ele foi acumulando um grande número de composições de alta qualidade que ficaram fora dos discos dos Beatles. São essas faixas que compõem o material explosivo de All Things Must Pass.

Os Beatles cederam às tensões internas e se desfizeram logo no início de 1970, e todos os seus membros saíram correndo para gravar álbuns individuais (todos chegaram às paradas). Starr gravou um disco de covers de canções dos anos 1950; McCartney lançou um disco caseiro, onde toca todos os instrumentos, e embora até bem recebido pelo público e querido pela crítica, o álbum McCartney é mesmo é constrangedor em sua ruindade; e Lennon lançou um álbum muito bom e forte, Plastic Ono Band (que também ganhou uma edição comemorativa); mas o troféu de ouro foi mesmo para o disco triplo de Harrison.

Harrison e Clapton tocam juntos no Concert for Bangladesh, em 1971.

Com uma mala cheia de composições incríveis, Harrison chamou o badalado produtor norteamericano Phil Spector e reuniu um time de músicos que em seu núcleo tinha ele mesmo nos vocais e guitarras, Klaus Voorman no baixo e amigo Ringo Starr na bateria; mas continha muito mais: Eric Clapton (Cream), David Manson (Traffic), Peter Frampton (Humble Pie) nas guitarras; Carl Randle no baixo; Nick Hopkins, Billy Preston, Gary Brooker nos pianos e teclados; Alan White (Yes), Jim Gordon, Jim Keltner na bateria; um naipe de metais com Bobby Keys (saxofone) e Jim Pride (trompete); contando com participações especiais de Ginger Baker (Cream) na bateria; e John Lennon e Bob Dylan nas guitarras.

Phil Spector ficou famoso por ter criado um estilo de produção chamado de wall of sound, na qual reunia literalmente uma dezenas de músicos em uma gravação para dar mais força à execução das faixas, incrementados com várias camadas de efeitos, como eco e reverb. No álbum de Harrison, a técnica foi usada ao extremo: era comum num faixa haver dois bateristas, um percussionista, dois baixistas, dois pianos, dois órgãos, três guitarras, quatro violões, um naipe de sopros, backing vocals e os vocais principais. O resultado é uma instrumentação potente e agressiva, mas sem sobrepor a beleza das composições, ainda que muito carregadas de efeitos. Essa última característica, inclusive, foi algo que desagradou Harrison.

As canções eram sensacionais: My sweet Lord é a mais conhecida, chegou ao primeiro lugar do Hot 100 da Billboard (a parada geral de compactos) e levou sua mistura de gospel com Hare Khristna à grande massa; Isn’t it a pitty era seu estrelado Lado B; What’s life chegou ao 10º lugar da Billboard; e mais outras joias, como Beware of darkness, If not for you, Wah-wah, Behind that lock door, Run for the mills, Let it down, e muito mais.

George Harrison no Concert For Bangladesh, em 1971.

O álbum foi um marco na carreira de Harrison e de todos os ex-Beatles, por causa de sua qualidade e de seu sucesso, mas o próprio compositor sempre ficou infeliz pelo excesso de eco e reverb nas faixas. Daí, que seu último projeto antes de morrer foi justamente uma remasterização do álbum em que tentava suavizar os efeitos. Mas a tecnologia de 20 anos atrás não era o suficiente, então, agora, o filho do compositor, Dahi Harrison, se uniu ao produtor Paul HIcks (que trabalhou nas remasterizações dos álbuns dos Beatles) e produziu a nova versão.

A edição de 50 anos de All Things Must Pass contém uma quantidade enorme de extras, incluindo dois discos com gravações demo realizadas antes das gravações principais; um disco de sobras de estúdio (outtakes); dois discos com o álbum original remasterizado; e um Blu-ray de áudio 5.1. O box set é lançado em várias versões, em CD, LP e até a Uber Collection, que custa mais de mil dólares, com livros, fotos inéditas, uma caixa de madeira, um marcador de livros feito de uma árvore caída do jardim de Harrison (o músico era apaixonado por jardinagem e esse era o seu maior passatempo) e até uma versão tridimencional dos gnomos da capa.

George Harrison nasceu em Liverpool, na Inglaterra, em 1943, filho de uma família operária, e ingressou no grupo que daria origem aos Beatles, em 1958, como guitarrista solista. Os Beatles se profissionalizaram em 1960 e estrearam sua carreira fonográfica em 1962, se tornando um dos maiores fenômenos culturais do século XX. A banda se separou em 1970, e cada um dos membros saiu em carreiras solo de sucesso. Harrison lançou 11 álbuns individuais e morreu vítima de um câncer em 2001.