A editora DC Comics continua sistematicamente aumentando a diversidade em seus quadrinhos e revelou recentemente que Jon Kent, o filho de Clark Kent e Lois Lane, é bissexual. O fato é revelado em Superman: Son of Kal-El n. 05, revista que foca nas aventuras do filho do homem de aço original. Apesar de alguma surpresa, a revelação vem sendo bem recebida no mundo, MAS no Brasil, causou uma grande polêmica ao ser questionada por um jogador.

A diversidade nos quadrinhos é muito bem-vinda e, sem dúvidas, termos um Superman – ainda que ainda é “um” Superman, já que não é Clark Kent ou Kal-El, que todos conhecem e amam, mas um personagem novo, Jon Kent, seu filho com Lois Lane – gay. Mas é um avanço sem dúvidas.

No Brasil, o jogador de vôlei da seleção brasileira, Maurício Souza, se manifestou nas redes criticando a medida, o que levou a questão ao holofotes no país. Enquanto o jogador ganhou mais 800 mil seguidores no Twitter (diz o Brasil 247), ele foi demitido do clube Minas por suas declarações homofóbicas. Num Brasil assolado por uma onda conservadora, com ideias fascistas circulando livremente, não é de surpreender.

O curioso é que no mundo dos quadrinhos – e da cultura pop como um todo – o comum é vermos a representação do bem contra o mal. É por isso que Luke Skywalker, um jovem e pobre fazendeiro com pouca instrução e que sonhava em ser piloto, é obrigado a se juntar a uma guerrilha de luta armada contra o Império opressor e fascista que domina a sua galáxia. Ele vence no final, inclusive, com um grande custo pessoal. No Brasil de hoje, as pessoas torcem pelo Imperador Palpatine e não mais por Luke. Que coisa!

A saída do armário do Superman Jr. não é um ato isolado. A DC Comics vem se esforçando seriamente em aumentar a diversidade em seu universo ficcional e faz só alguns poucos meses que o terceiro Robin (Tim Drake) também se descobriu bissexual, como você pode ver neste post do HQRock. Outros heróis povoam o universo DC, como a Batwoman, que tem inclusive uma série de TV com a mesma pegada. A versão televisiva da Supergirl, por exemplo, também tem um pequeno subtexto lésbico.

Ah, e não custa lembrar: quer você queira ou não, a Mulher-Maravilha SEMPRE foi uma personagem lésbica ou bissexual, pois ela vem da Ilha Paraíso, no qual só existem mulheres e, acredite, nenhuma sociedade conhecida (mesmo de semideuses) aboliu a sexualidade. E como elas não podem se reproduzir – já que só há mulheres – também temos que aceitar que o sexo em Themiscíria é apenas para o prazer mesmo. E, não, não é um subtexto: a questão é até abordada diretamente no filme Mulher-Maravilha, de 2017, para citar uma mídia com mais impacto do que as HQs de papel.

E o Diário do Nordeste ainda lembrou que Superman, Mulher-Maravilha e Batman são acusados de desvirtuar a juventude desde os anos 1940, o que é verdade. De início, a crítica era que as histórias eram muito violentas, mas nos anos 1950, o psicólogo Fredric Werthan publicou o livro A Sedução do Inocente, em que acusava as HQs de serem as responsáveis pela delinquência juvenil nos EUA, que a Mulher-Maravilha era lésbica e que o Batman era gay. Acertou só na princesa amazona, mas o resto era paranoia.

Já fizemos uma reflexão mais profunda sobre a questão da diversidade no citado post sobre o Robin, então, cabe apenas sintetizar que a diversidade é bem-vinda e que uma mídia como os quadrinhos não pode ignorar que uma parcela significativa da população é afrodescendente, asiática, LGBT e mais outras diversificações que não brancos, héteros, cristãos ou qualquer coisa do tipo. Para este último grupo há um número enorme de representantes, desde Batman até Homem-Aranha (o Superman não conta, pois ele nem é terráqueo, mas um ET vindo de Krypton, lembram, né?). Portanto, não faz mal nenhum – muito pelo contrário – termos mais heróis negros, asiáticos e LGBT. Por que não?

Como disse Tom Taylor, o escritor de Superman: Son of Kal-El (em conversa com a Reuters):

Quando me ofereceram o trabalho, eu pensei “Bem, se vamos ter um novo Superman para o universo da DC, me parece uma oportunidade perdida ter um outro salvador branco e hétero”. Nós não queríamos que isso fosse “DC Comics cria novo Superman queer”. Queremos que isso seja “Superman se encontra, se torna o Superman e depois se revela bissexual’ e eu acho que há uma distinção importante aqui. (…)

Estou vendo tuítes de pessoas dizendo que caíram em lágrimas quando leram a notícia, que queriam que o Superman fosse assim quando eles estavam crescendo, que eles pudessem se enxergar nele. As pessoas estão dizendo pela primeira vez que se enxergam no Superman – algo que nunca pensaram que fosse possível.

É simplesmente isso: poder se inspirar em um herói que representa você.

E como o mundo é um lugar enorme (e diverso), para aqueles que não são gays, ainda há o Superman Kal-El Clark Kent, aquele dos filmes e das séries de TV, que ainda é hétero e casado com a repórter Lois Lane. E mais: um pai de família que veio do interior (tá, ele nasceu em Krypton, mas foi criado no Kansas, no interior dos EUA), que precisou se mudar para a cidade grande para trabalhar e tem um filho que, na adolescência, se percebe bissexual. Mais vida real impossível.