Há muito esperado, o Marvel Studios entrega seu primeiro longametragem protagonizado por uma super-heroína: Capitã Marvel chega aos cinemas com a promessa de apresentar o mais poderoso personagem do universo ficcional dos Vingadores! Esta é a Resenha do HQRock, livre de spoilers!

Dá para ver que Capitã Marvel foi gestado com muito cuidado. A Marvel estava complemente ciente da importância do gesto, de apresentar uma heroína significativa para a geração atual, assim como sabiam o que estavam entregando com Pantera Negra no ano passado, que virou um fenômeno cultural, atingiu uma bilheteria estrondosa e ainda foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, não tendo ganhado, mas levando outros 4 prêmios.

E o resultado?

O resultado é bom! Capitã Marvel entrega um filme divertido, com uma história surpreendente e uma heroína carismática e poderosa. Tem os ingredientes certos para agradar ao público e se alinha às outras obras tão bem recebidas do Marvel Studios.

Mas não senti um filme excepcional. Algo na execução das cenas ou na edição impede de ser espetacular, embora, o roteiro é um achado em muitos momentos.

Contudo, tal qual no mundo acadêmico, vamos aos elogios primeiro!

A força maior de Capitã Marvel é sua protagonista! A Carol Danvers de Brie Larson carrega o filme nas costas – no bom sentido – centro o foco de tudo, mas construindo uma personagem interessante por meio de seus dilemas: primeiro pela ausência de memórias; depois, pelo impasse entre ser humana (terráquea) ou Kree.

Tanto pela interpretação e talvez mais ainda pela simpatia, Carol Danvers, apesar de sisuda, faz graça com o mundo ao seu redor e torna sua árdua jornada pessoal mais leve e agradável ao espectador. O curioso é que, ainda assim, este filme não reprisa o típico humor do Marvel Studios, mas encontra uma forma de fazê-lo ainda mais fluído dentro do roteiro e menos “momento vergonha alheia” e intromisso como aparece em outros longas do estúdio. O texto também evita desfazer o drama ou a tensão com piadinhas (o que é ótimo), um recurso irritante que muitos filmes da Marvel têm – lembro claramente do exemplo de Doutor Estranho, que a despeito de ser um bom filme, insulta o espectador em cada momento de grande tensão: morre um personagem importante, vem uma piadinha para aliviar; acontece uma coisa impactante, vem outra piadinha para aliviar, negando ao público desenvolver uma maturidade emocional com o filme. Capitã Marvel não sofre desse mal, ainda bem.

Todavia, não há apenas Brie Larson. Outros nomes do elenco merecem destaque, em particular Samuel L. Jackson, com sua versão jovial de Nick Fury. É muito curioso e interessante ver o cara durão e impassível que comandava a SHIELD em um momento anterior de sua carreira: mais jovem, mais leve, mais despreocupado e como sua interação com a Capitã Marvel irá contribuir para ele se tornar o homem que nos acostumamos a ver.

Jude Law é outro bom acerto, com o ator britânico mostrando porque foi tão celebrado no início da sua carreira, e mesmo se tratando de um blockbuster (e daí?) entrega nuances incríveis, o que nos faz desejar que tivesse ainda mais tempo de tela.

Annete Benning é outra que surpreende em um papel que é bem mais do que parece.

E, por último, mas não menos importante: não podemos deixar de falar de Ben Mendelsohn. O ator inglês vem se especializando em vilões de Hollywood, arrasando por onde passa, como em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (numa participação pequena, mas fundamental) ou Rogue One – Uma História Star Wars; mas em Captain Marvel, mesmo enterrado quase o tempo todo por meio de quilos de maquiagem como o Skrull Talos, entrega de novo uma ótima performance. E ainda surpreende o público, que pode captá-lo por meio de movimento do supercílio e dos olhos.

O roteiro de Capitã Marvel é interessante e vale uma nota, pois sai da “história de origem” convencional (vamos falar mais disso abaixo) e entrega uma trama que mostra a que veio logo no início, avança sem grandes atropelos (ou atalhos de roteiro) e consegue surpreender o espectador – mesmo aquele escaldado do Marvel Studios – em boas sacadas e, no que é mais importante, na busca de – quando possível – evitar soluções fáceis seja para a trama, seja para a ação (também falaremos um pouco mais disso abaixo).

A ideia de apresentar uma super-heroína, como todo o peso dessa importância é algo interessante de ver.

Claro, que é preciso fazer uma dura crítica: seja por covardia ou timidez, a Marvel perdeu a oportunidade de fazer o primeiro filme de super-heroína dessa nova leva pós-2000 (Mulher-Gato, de 2004, e Elektra, de 2005, não contam, porque estamos falando de filmes bons!) com a Viúva Negra. A heroína/ espiã russa vivida por Scarlet Johannson causou uma grande sensação já quando estreou nos cinemas, como uma coadjuvante em Homem de Ferro 2 (no distante 2010) e numa época em que a celebrada atriz já era uma das queridinhas de Hollywood e vinha de uma sequência arrebatadora de filmes, incluindo, alguns com Woody Allen. O frisson por ela ainda aumentou quando ela apareceu com bem mais destaque em Os Vingadores (2012).

Esse era o ponto! Era ali que a Marvel devia ter entregue seu primeiro filme solo de uma heroína, ali, na Fase 2. Não no fim da Fase 3, como agora.

Ao não fazê-lo, entregou o ouro à concorrente DC Comics, que fez bonito com Mulher-Maravilha (2017), que fez sucesso e foi muito bem recebido, com sua sequência já filmada e sendo preparada para o lançamento no ano que vem. Tudo bem que há certa justiça poética no fato de que a Mulher-Maravilha é a primeira de todas as heroínas, tendo surgido em 1941 – enquanto que, sob o nome de Miss Marvel, Carol Danvers virou uma heroína apenas em 1977 (a Viúva Negra é de 1964 e teve aventuras solo em 1970) – mas a Marvel perdeu a oportunidade.

Isto dito, é preciso recordar, por outro lado, que o Marvel Studios sempre deu um tratamento diferenciado às mulheres desde o início. Já falamos disso outras vezes aqui no HQRock. Apesar de não ter ainda um filme solo, os filmes traziam heroínas uniformizadas, como Viúva Negra, Feiticeira Escarlate, Gamora, Mantis (Nebulosa?) e Vespa, e outras não uniformizadas, como Pepper Potts, Peggy Carter, Sharon Carter, Maria Hill etc. Sempre recordo do caso de Peggy Carter, cuja primeira aparição nas telas, praticamente aparece disparando uma arma num carro em velocidade a um quarteirão de distância e esbagaçando a cabeça do motorista. É deste tipo de mulher que a Marvel trata em seus filmes, não de donzelas em perigo, que são um mal terrível em particular nos filmes da Distinta Concorrente.

Mas tudo isso não tira o mérito de Carol Danvers em carregar a tocha sozinha pela primeira vez. A personagem já é importante e crucial em sua mídia de origem, os quadrinhos (leia aqui o Dossiê Especial do HQRock sobre a Capitã Marvel), e sabe disso quando chega ao cinema.

Então, o empoderamento feminino permeia o filme inteiro e não somente na protagonista – há a personagem de Annete Benning e a Maria Rambeau de Lashana Lynch (e sua filha Monica, vivida pela pequena Akira Akbar) – que fortalecem a visão feminina e tornam isso parte da trama.

E melhor ainda, o roteiro opta por uma abordagem incisiva, mas sem ser panfletária e que se desenvolve em vários flancos, desde à posição de Vers (o nome Kree de Carol) na Starforce ou no Império Kree, passando por sua vida na Força Aérea.

Talvez o “senão” de Capitã Marvel é a síndrome de história de origem, mas pensando bem, o roteiro costura isso muito bem ao fugir do tradicional. A Marvel acerta em cheio a iniciar o filme com Carol Danvers – então, conhecida apenas como Vers – já como uma soldado de elite Kree, atormentada pela ausência de memórias e realizando missões secretas e importantes na milenar guerra entre os Kree e os Skrulls, uma raça reptiloide de transmorfos que, diz o personagem misterioso de Jude Law, se infiltram disfarçados nas populações de planetas e os dominam.

Depois, a “origem” de Carol Danvers é contada na medida em que ela mesma vai descobrindo o seu passado e alguns segredos escusos, no que é um efeito muito bom, muito melhor do que uma história de origem tradicional, como as que já tivemos com Homem de Ferro, Capitão América, Homem-Formiga e Doutor Estranho.

Provavelmente, o que conta negativo contra Capitã Marvel é o excesso de história para o tempo curto, que obriga o filme a correr um pouco no 2º Ato. O longa cria um interessante interpretação da Inteligência Suprema Kree, uma Inteligência Artificial que comanda o império, mas não sei se isso fica claro para o grande público, não leitor dos quadrinhos, especialmente após uma reviravolta no final.

Por outra vez, (vamos voltar a falar bem) Capitã Marvel é um dos poucos filmes do Marvel Studios – e dos blockbusters em geral – que não sofre da síndrome do 3º Ato, quando para se tornar “mais emocionante” ou “mais impactante”, o terço final dos longas são bombardeados (muitas vezes explicitamente) para serem “grandiosos” e terminam se desumanizando, perdendo o foco e ficando chatos para quem curte uma boa história.

Mas não se preocupe: Capitã Marvel definitivamente não sofre com isso. Seu 3º Ato é fluído e embora carregue a ideia de clímax, não o estraga com excessos. Ao contrário, algumas boas revelações são dadas e vemos a eclosão de Carol Danvers em todo o seu potencial, o que é realmente bonito de se ver na telona.

Com a Capitã Marvel, o Marvel Studios entrega uma heroína firme, destemida, engraçada (que ri de si mesma e dos outros), simpática e que ainda quebra uma pilha de clichês ao longo do filme. Neste sentido é surpreendente a batalha final, um duelo, que vai no sentido contrário do que é esperado em um filme desse tipo em sua resolução e isso é ótimo e funciona muito bem dentro da proposta do roteiro e da personagem.

Resumindo, Capitã Marvel é um bom filme e lança na mesa uma heroína poderosíssima – a mais poderosa da Marvel, mais do que Hulk, mais do que Thor – o que é muito bem vindo para a discussão de gênero e de diversidade. Não é o melhor filme da Marvel e sofre da concorrência desleal de ser lançado entre os dois Vingadores (Guerra Infinita e Ultimato), mas cumpre um papel artístico e cultural importante e lança uma personagem interessante para a interação com o restante do tão amado elenco dos Vingadores.

E, claro, como é um filme da Marvel, o final não deixa de criar as conexões (incríveis) que ligam esse filme, passado em 1995, ao que ocorre nos dias de hoje nos Vingadores.

Captain Marvel é dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck; e tem roteiro de Ana Boden, Ryan Fleck e Geneva Robertson Dworet; a partir de história de Nichole Perlman, Meg LeFauve, Ana Boden, Ryan Fleck e Geneva Robertson Dworet; com consultoria de texto de Kelly Sue DeConnick; baseado na HQ da Marvel Comics criada por Stan Lee, Gene Colan, Roy Thomas, Gerry Conway, John Romita e John Buscema.

O elenco traz: Brie Larson (Carol Danvers/ Vers/ Capitã Marvel), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Jude Law (agente Kree), Ben Mendelsohn (Talos/ Kellen), Annete Bening (Inteligência Suprema), Lashana Lynch (Maria Rambeau), mais Clark Gregg (Agente Phil Coulson), Djimon Housou (Korath), Lee Pace (Ronan), Gemma Chan (Minn-Erva), Akira Akbar (Monica Rambeau), dentre outros.

O lançamento no Brasil foi em 07 de março de 2019.