A Capitã Marvel pode se tornar a maior heroína da Marvel Comics. E nem é somente por causa de seu filme solo, mas por um trabalho de construção e insistência editorial da Casa de Ideias para fazer de Carol Danvers um nome de significância no panteão dos super-heróis. Para mostrar isso, o HQRock apresenta seu Dossiê sobre a heroína que já foi a Miss Marvel, herdou o título (e os poderes?) de um herói anterior, o Capitão Marvel, e assumiu uma posição de liderança dentro dos Vingadores.

Antes de mais nada um informe aos marinheiros de primeira viagem sideral: Carol Danvers já teve outros nomes nas HQs, além de Miss Marvel, como Binária e Warbird (Pássaro de Guerra). E só adotou o título de Capitã Marvel muito recentemente, em 2012! Só para avisar, caso tope com esses nomes por aí em sua busca.

Miss Marvel, Warbird, Binária, Capitã Marvel = Carol Danvers.

O Primeiro Capitão Marvel (e não é da Marvel!)

Não tem como começar a falar da trajetória nos quadrinhos de Carol Danvers sem começar pelo Capitão Marvel. Mesmo que a própria editora tenha mudado isso depois, como veremos abaixo. Mas o começo é com ele: Mar-Vell. Mas para falar de Mar-Vell temos que falar do Shazam!

A capa de “Whiz Comics 02”, de 1939, pela Fawcett. Plágio do Superman?

O nome Capitão Marvel foi usado nas HQs várias vezes por personagens diferentes e o primeiro que fez isso foi aquele herói que hoje todos conhecem como Shazam!. Nas na verdade, e os leitores têm que lidar com isso, Shazam é o nome do mago que dá os poderes a Billy Batson, o menino de 10 (ou 12?) anos que ao gritar o nome do mago se transforma num ser super-poderoso. O nome do mágico era simplesmente uma sigla para Salomão (sabedoria), Hércules (força), Atlas (resistência), Zeus (comando dos raios), Aquiles (invulnerabilidade) e Mercúrio (velocidade), seres imortais de quem Batson herdava os poderes ao virar um adulto.

E olha que curioso, quando criado por Bill Parker e C.C. Beck para a editora Fawcett Comics, o Shazam ganhou primeiro o nome de Captain Thunder (Capitão Trovão) – afinal, ele tem um estilizado desenhado no peito, lembram? – mas já existia um personagem no mercado com esse título, então, a editora mudou seu nome, meio no improviso, para Capitão Marvel e sua estreia oficial (porque a anterior, com o nome velho, foi retirada das bancas) foi em Whiz Comics 02, de 1940.

O herói e seu alterego, Billy Batson, na capa de “Whiz Comics 22”.

O Capitão Marvel da Fawcett fez muito sucesso. Chegou até a bater o Superman em vendas: 2 milhões de revistas por mês no início dos anos 1940. E gerou toda uma Família Marvel, com heróis derivados com os mesmos poderes: o Capitão Marvel Jr., a Mary Marvel… dentre outros. Mas esse sucesso incomodou bastante e a DC Comics, proprietária do Superman, moveu um processo de plágio na Suprema Corte dos EUA. Os argumentos da DC faziam algum sentido, embora a prática de copiar (às vezes, descaradamente) é comum na indústria de quadrinhos.

Resumo da história: o processo judicial se arrastou por anos, mas a venda de super-heróis despencou após o fim da Segunda Guerra Mundial, e chegou ao momento em que era mais caro à Fawcett manter a defesa do que os lucros que recebia com o personagem. A DC Comics ganhou a causa em 1953 e o Capitão Marvel saiu de cena.

A história não termina aí, como veremos a seguir: a DC terminou por comprar o Capitão Marvel da falida Fawcett e iria republicar o personagem em 1973.

O Capitão Marvel da Marvel

A Marvel Comics foi fundada em 1939, ou seja, um ano antes da publicação do Capitão Marvel da Fawcett. Porém, a editora fundada por Martin Goodman era chamada inicialmente de Timely Comics, embora – premonição? – sua primeiríssima revista publicada chamava-se exatamente Marvel Comics, com histórias do Tocha Humana, de Namor, o príncipe submarino e O Anjo. Mais tarde (1941), o Capitão América se tornou o principal personagem da casa e um dos maiores sucessos da Era de Ouro dos quadrinhos, e fazia concorrência justamente ao Superman e ao Capitão Marvel, com os três disputando a tapa o título de revista mais vendida.

Com a crise do pós-guerra, a Timely mudou seu nome para Atlas Comics, em 1953, tentando se renovar e publicando mais histórias de outros gêneros e não de super-heróis. Porém, sem ir para lugar nenhum. O fim da Era de Ouro fez com que os heróis sumissem das bancas, tendo como exceção praticamente apenas a Trindade da DC Comics, Superman, Batman e Mulher-Maravilha, que aos trancos e barrancos, conseguiam se manter em vendas razoáveis pelos anos 1950.

Em 1956, a DC Comics decidiu renovar seus velhos heróis já cancelados, e começou com The Flash, que voltou a ter histórias publicadas em Showcase 04. Tecnicamente, era um novo personagem, pois mantinham-se o nome e os poderes, mas uniforme e identidade civil eram muito diferentes. Mas deu certo e foi um grande sucesso, o que deu origem à Era de Prata dos quadrinhos e o surgimento das novas versões de Lanterna Verde, Gavião Negro e a revitalização dos heróis.

A capa de “Fantastic Four 01”, de 1961, por Lee e Kirby: marco zero do Universo Marvel.

Na velha Timely-Atlas, as coisas iam mal e Martin Goodman encomendou ao seu editor-chefe, Stan Lee, à altura com quase 40 anos de idade (e que tinha sido um dos principais roteiristas do Capitão América lá atrás nos anos 1940), uma nova revista de heróis para surfar na onda da DC. Stan Lee se uniu a Jack Kirby e criou o Quarteto Fantástico, que não apenas fez um sucesso enorme, quando lançado em 1961, como revolucionou os quadrinhos com sua abordagem mais humana (e neste sentido, realista) dos super-heróis.

Para marcar o novo momento, Goodman e Lee rebatizaram (outra vez) a editora, agora com o nome Marvel Comics.

Porém, em termos de negócio, era muito incômodo para a Marvel ter um personagem de outra editora chamado de Capitão Marvel. E – pelo menos em inglês – o nome Marvel era atrativo como substantivo para batizar personagens, pois nos anos 1940 havia existido o Marvel Boy e a (hoje famosa) Jean Grey, geralmente (nos dias atuais) chamada de Fênix, tinha nos anos 1960 mesmo o nome de Marvel Girl (Garota Marvel, no Brasil).

O alerta tocou em 1966, quando uma minúscula editora chamada M.F. Enterprises lançou um herói chamado Capitão Marvel, que nada tinha a ver com o antigo, apenas usava o nome. Já uma editora poderosa no mercado – e ajudada pelas vendas fraquíssimas da concorrente – a Marvel comprou o os direitos desse personagem por US$ 4.500,00.

Escrutinando o mundo legal, Goodman e Lee descobriram que, como o Capitão Marvel da Fawcett tinha sido impedido de ser publicado por um processo de plágio, aquela editora tinha perdido o copyright do nome e a Marvel Comics, então, o registrou. Mas as leis dos EUA diziam que se o nome não foi usado, o copyright seria perdido, então, meio a toque de caixa, Stan Lee criou um novo herói com o nome Capitão Marvel, que, claro, não tinha nada, absolutamente nada, a ver com o velho Shazam.

Mar-Vell, o Capitão Marvel

Capitão Marvel: Arte de Gil Kane.

Para usar o nome, Stan Lee criou o Capitão Marvel. Não é certo quem criou o visual do personagem, contudo. Pode ter sido Jack Kirby, sem pensar muito no assunto e fazendo um “favor”, rabiscando em cinco minutos o visual mais ordinário que pudesse encontrar. É possível que tenha sido também John Romita, nas mesmas condições. O fato é que quem levou o crédito foi Gene Colan, porque desenhou a capa e sua primeira história, mas o próprio artista negou a autoria em entrevistas posteriores. E ainda criticou o visual, como feio e repetitivo.

O Capitão Marvel da Marvel estreou em Marvel Super-Heroes 12, de dezembro de 1967, numa história de Lee e Colan. A revista era uma antologia, que trazia uma história inédita como carro-chefe e republicações da era Timely-Atlas (anos 1940 e 50). Esta edição em particular, por exemplo, trazia histórias do Capitão América dos anos 1950, de Namor dos anos 1940 e do Cavaleiro Negro de novo na década de 50, além de contos de guerra.

A história do Capitão Marvel, o destaque, inclusive na capa, trazia uma trama simples, na qual os Kree, alienígenas que haviam surgido nas histórias do Quarteto Fantástico, introduzem uma missão de espionagem na Terra. Mar-Vell é designado para se infiltrar entre humanos, mas desperta o ciúmes e a inveja de seu superior, Yon-Rogg, que prefere Una, por quem é apaixonado.

Stan Lee deu apenas o start da coisa toda: Marvel Super-Heroes 13, publicada em janeiro de 1968, já tem Roy Thomas como escritor, enquanto Gene Colan permanece nos desenhos. Dá continuidade à trama, em que Yon-Rogg tenta sabotar a missão de Mar-Vell e termina por derrubar um avião. Mar-Vell vai investigar o acidente e encontra entre os mortos o Dr. Walter Lawson, que iria trabalhar como cientista na base da NASA, em Cabo Canaveral, (hoje Centro Espacial Kennedy) na Flórida. Dando seguimento à sua missão de espionagem, Mar-Vell decide assumir a identidade de Lawson e aparece na base, onde conhece o general Bridges, que lhe apresenta a nova Chefe de Segurança da base, a major Carol Danvers, sendo esta a estreia da futura heroína.

A primeira aparição de Carol Danvers, ao lado de “Walt Lawson”, o Capitão Marvel.

Lawson é convocado a estudar o Sentinela, um avançado robô Kree que foi entregue à NASA pelo Quarteto Fantástico, que o derrotou, mas Yon-Rogg o reativa e o Capitão Marvel faz sua estreia também, como salvador dos humanos.

Essas duas histórias foram suficientemente bem recebidas pelo público, de modo que o herói ganhou sua revista própria logo em seguida, e a trama continuou, então, em Captain Marvel 01, de 1968, ainda com Thomas e Colan, e trazendo a continuação da luta de Mar-Vell contra o Sentinela. Chamado de Capitão Mar-Vell, os terráqueos pensam que ele é o Capitão Marvel, um novo herói, e o Kree deixa isso no ar para preservar sua missão. Yon-Rogg tenta complicar as coisas para Mar-Vell contactando Ronan, o Acusador, a maior autoridade jurídica Kree – e que já tinha aparecido em histórias do Quarteto Fantástico – dizendo que o herói derrubou um robô Kree, mas Ronan não fez acusações, pois tais ações não comprometiam a missão.

Carol Danvers e o Capitão Marvel.

A história cria um interesse entre Mar-Vell e Carol Danvers, que ajuda o herói a vencer o Sentinela. Ela é retratada como uma mulher moderna e ousada, chegando a roubar um beijo do herói.

O Capitão Marvel à mercê de Yon-Rogg.

Captain Marvel 02 tem uma importância histórica porque foi a primeira história a trazer a informação de que os Kree e os Skrulls (a raça transmorfa que também apareceu nas revistas do Quarteto Fantástico) são dois impérios inimigos que combatem há séculos. Essa trama seria desenvolvida a seguir, pelo próprio Roy Thomas na revista dos Vingadores, com a saga A Guerra Kree-Skrull, em 1971, uma das mais importantes da equipe de heróis e que contaria com a participação do Capitão Marvel.

Uma atrevida Carol Danvers rouba um beijo do Capitão Marvel.

As histórias do Capitão Marvel não fizeram sucesso e as vendas declinaram. Mas é nelas em que Carol Danvers deu seus primeiros passos nos quadrinhos. Embora fosse um interesse amoroso de Mar-Vell, a abordagem à futura heroína era interessante, pois ela era retratada como a Chefe de Segurança de uma base de alta tecnologia e estratégia militar, o que colocava uma mulher em uma posição de destaque e mais empoderada.

Com a queda nas vendas, Stan Lee – o editor-chefe da Marvel – encomendou uma mudança drástica para o personagem e em Captain Marvel 17, de 1970, ela chegou: Gene Colan foi trocado por Gil Kane (artista que trabalharam com o Lanterna Verde e o Batman na DC Comics e, na Marvel, com Homem-Aranha, Hulk e Namor) que criou um novo uniforme e visual – bem mais arrebatador – para Mar-Vell, enquanto Roy Thomas permaneceu no texto, mas mudou completamente o status quo do herói: Mar-Vell é obrigado a usar um par de braceletes de energia quântica que, por um lado, lhe enchem de novos poderes, e por outro, o fazem mesclar suas moléculas com o jovem Rick Jones (coadjuvante adolescente de histórias do Hulk, Vingadores e Capitão América), de modo que apenas um deles pode estar no espaço físico por vez. Enquanto um aparece, o outro é enviado a uma dimensão negativa e a dupla fica trocando de lugar, enquanto conseguem se comunicar um com o outro.

Claro, a troca de lugar com um adolescente (embora não com uma criança) era uma homenagem ao Capitão Marvel (Shazam) original. O uso da cor vermelha por Mar-Vell a partir daí talvez também.

A nova abordagem Mar-Vell x Rick Jones deu mais dinâmica à revista, particularmente, por que Jones era retratado como um jovem músico roqueiro em busca de uma carreira como compositor, o que pegava muito bem naquele início dos anos 1970, mas Captain Marvel ainda assim não emplacou nas vendas.

Carol Danvers, coadjuvante

De qualquer modo, logo no início dessa nova fase, houve algo muito importante para Carol Danvers. Prosseguindo às mudanças da edição 17, Captain Marvel 18 trazia a continuidade do confronto com Yon-Rogg, e agora, o vilão Kree trazia consigo uma arma poderosíssima para matar Mar-Vell e dominar a Terra: o Psycomagnitron!

Mar-Vell consegue destruir a máquina, o que resulta na morte de Yon-Rogg, mas Carol Danvers é atingida pela explosão e fica gravemente ferida. Na verdade, era uma estratégia para tirar a personagem da revista e ela não voltou a Captain Marvel por alguns anos.

Jim Starlin fez sucesso com o Capitão Marvel.

Enquanto isso, como a renovada do herói não deu certo, a partir de Captain Marvel 22, de 1972, a revista passou ao comando do escritor e desenhista Jim Starlin, que criou toda uma nova fase de histórias muito cultuadas, e que colocaram Thanos como o principal vilão cósmico da Marvel.

Carol Danvers, por sua vez, só foi reintroduzida em Captain Marvel 34, de 1974, justamente a última edição da fase de Starlin, numa trama em que o Capitão Marvel é quase morto por Nitro. Ela voltou na edição 35 e na 40, em pequenas participações.

Feminismo

O feminismo foi um movimento de muito impacto político e social nos anos 1970 e os quadrinhos não ficaram imunes. Pelo contrário, foram partícipes importantes de todo o agito. Passando pela luta das sufragistas à queima dos sutiãs, o movimento feminista fez presença no cenário político mundial do século XX e naquela década em particular ganhou ainda mais força e visibilidade.

Nos quadrinhos, a Mulher-Maravilha era um ícone feminista, inclusive, porque seu criador William Moulton Marston era um voraz apoiador do movimento feminista e produziu as revistas da princesa amazona ladeado por equipe de mulheres escritoras e desenhistas, o que dá um ar diferencial aos primeiros anos de publicação da personagem.

Gloria Steinem: ícone feminista que inspirou Miss Marvel.

Mesmo assim, a Mulher-Maravilha continuou como um símbolo do empoderamento feminino, tanto que em 1971, quando a escritora Gloria Steinen lançou a revista Ms., a edição da estreia trouxe justamente a princesa amazona da DC Comics na capa e a legenda: “Mulher-Maravilha para Presidente!”.

A reação foi tanta que Diana ganhou uma revamp nos quadrinhos na época e a Liga da Justiça incorporou várias outras personagens femininas, como Mulher-Gavião, Zatanna e Canário Negro.

A Marvel Comics era ainda mais antenada com os novos tempos, com uma redação formada por jovens de 25 anos em média no início dos anos 1970, e as questões políticas de seu tempo foram abordadas diretamente nas revistas, além de questões filosóficas (Roy Thomas) e reflexões espirituais e críticas religiosas (a própria fase de Jim Starlin em Capitão Marvel, e mais ainda em Adam Warlock).

Por isso, no fim dos anos 1970, Stan Lee, então Publisher da Marvel, deu a ordem: “criem heroínas!”. O editor-chefe da Marvel na época era Archie Goodwin, um escritor, e a editora vivia um tempo um pouco turbulento. A ousadia dos jovens escritores da Marvel fizeram a editora se tornar a de maior sucesso no mercado, ultrapassando a DC, e criaram histórias sensacionais de seus heróis; mas ao mesmo tempo, transformaram artistas em celebridades nerds e a redação virou uma batalha de egos, insuflada pelo uso de drogas (eram os anos 1970, gente!).

Como resultado, a cadeira de editor-chefe nunca esquentava. Stan Lee foi o editor-chefe da Marvel por 30 anos, entre 1942 e 1972, mas quando passou para Publisher, deixou seu pupilo Roy Thomas em seu lugar. O mandado de Thomas foi curto e, dois anos depois, passou a bola para Len Wen, que também só aguentou um ano e passou para Marv Wolfman (1975-1976), que passou para Gerry Conway (escritor sensação da época), que ficou só três meses, e passou para Archie Goodwin (1976-1978). A estabilidade só viria com Jim Shooter que foi editor-chefe por 10 anos (1978-1987).

Mas naquela hora, a bola estava com Goodwin que se encarregou que criar novas heroínas para a Marvel e dessa empreitada nasceram Miss Marvel, Mulher-Aranha e Mulher-Hulk, dentre outras.

A nova Miss Marvel era uma releitura típica para o feminismo. Contudo, há um “porém” enorme na versão ao português. Nos EUA é escrito Ms. Marvel, sendo o “Ms.” uma abreviação de Miss (senhorita), porém, já que o inglês também usa Miss por extenso, o Ms. ganhou conotação feminista, porque se colocava como algo à parte do Miss ou do Misses (senhora), o que na prática significava não rotular a mulher pelo fato dela ser casada ou não. Aqui no Brasil, sempre se usou Miss e este elemento se perdeu.

Miss Marvel

De qualquer modo, a nova Miss Marvel veio para arregaçar os elementos feministas na Marvel. O visual da heroína foi criado por John Romita, o editor de arte da Marvel, que bolou uma versão feminina e sexualizada do segundo uniforme do Capitão Marvel, aquele criado por Gil Kane.

A escrita da nova revista foi entregue a Gerry Conway, um prolífico escritor que iniciou aos 16 anos na Marvel e ganhou a confiança de Stan Lee, tanto que colocou o garoto para escrever o Capitão América um ano depois e, aos 18 anos já assumia o Homem-Aranha, a revista de maior sucesso da editora. Foi para Conway quem Lee passou o bastão após escrever o aracnídeo por 10 anos. E o garoto não decepcionou.

Além do Homem-Aranha, Conway escreveu várias revistas na Marvel (Quarteto Fantástico, Hulk etc.) e foi para a DC Comics, onde também escreveu Batman, Superman, Lanterna Verde e Liga da Justiça com sucesso.

Carol Danvers com J.J. Jameson.

Em 1976, Conway tinha ainda 22 anos (!) e era um experiente escritor, sendo chamado por Archie Goodwin para criar uma heroína. Como mistura de jogada política e estratégia de negócios, Conway e Goodwin decidiram revitalizar Carol Danvers num novo contexto: ela deixava seu emprego como Chefe de Segurança da NASA para ser editora de uma revista feminina (inspirando-se em Gloria Steinem, inclusive no visual!), mas essa revista, Woman, seria publicada pelo Clarim Diário de J.J. Jameson, o que era a deixa perfeita para instalar a personagem em um universo bastante conhecido, o do Homem-Aranha, ou melhor, de Peter Parker. Tendo escrito Amazing Spider-Man (1972-1975) e Peter Parker: The Spectacular Spider-Man (1976-1977), Conway estava em casa.

Peter Parker e companhia na capa de Ms. Marvel 01, por John Romita. A arte interna (da história) era de John Buscema.

Não à toda, Peter Parker, sua namorada Mary Jane Watson, J.J. Jameson e o vilão aracnídeo Escorpião aparecem não discretamente na capa de Ms. Marvel 01, de janeiro de 1977, desenhada por John Romita. A história, contudo, teve arte de John Buscema, um dos maiores ilustradores da Marvel, o que denota a importância do lançamento.

Na trama, Carol recebe o convite para ser editora da Woman e aceita, mudando o rumo de sua vida, mas ao mesmo tempo, está tendo lapsos de memória. Portanto, ela não sabe que é a Miss Marvel. De quebra, Jameson é colocado como um velho machista para quem a revista não é nada, apenas um lance comercial, e Danvers bate de frente com ele. Na primeira edição, o Escorpião tenta matar o editor – Jameson foi um dos responsáveis por transformar o ex-detetive particular Mac Gargan no vilão – e é salvo pela Miss Marvel. Depois, Carol provoca o editor por ter sido salvo por uma mulher, mas ele quer que a revista persiga a heroína assim como o Clarim faz com o Homem-Aranha.

A revista também explora como Carol Danvers se tornou tão poderosa: agora, ela voa, tem superforça e é invulnerável. É explicado, em Ms. Marvel 02, que na batalha contra Yon-Rogg, em Captain Marvel 18, a explosão do psycomagnitron fez com que o DNA humano de Carol se fundisse com o DNA Kree de Mar-Vell, lhe dando seus poderes. A personagem ter ciência desses eventos ocupa grande parte da subtrama das primeiras edições.

A revelação de como Carol ganhou seus poderes. Por Conway e Buscema.

Na edição 01 também estreia o psiquiatra Dr. Mike Barnett, que tenta tratar dos episódios de amnésia de Carol e ela termina se transformando em Miss Marvel na frente dele, revelando sua identidade secreta. O personagem será recorrente dali em diante.

Um elemento interessante nessa primeira versão da heroína é que Carol Danvers se transformava em Miss Marvel, com um tipo de assinatura energética, e a transformação se dava meio sem controle. Tal qual o Homem-Aranha, ela tinha um “senso de perigo” e isso a fazia se transformar na heroína, sempre a colocando em situações constrangedoras, como a do Dr. Barnett, ou ter que sair correndo para não revelar sua identidade secreta. Tal característica vai se manter até a edição 12. Por algumas vezes, esse “senso de perigo” se transforma em premonição direta, com cenas do futuro passando em sua mente.

Chris Claremont: o principal escritor da Miss Marvel.

Ms. Marvel 02 continua a história, com a heroína lutando contra o Escorpião, o Destruidor e a IMA, depois de ter uma conversa com Mary Jane Watson sobre o tempo em que conviveu com o Capitão Marvel. E aqui se encerra a participação de Gerry Conway: tendo ambientado a nova heroína, passou o bastão para um escritor mais novato, Chris Claremont, que apenas começava a ganhar notoriedade com seu trabalho nos X-Men (pelos quais ficaria 18 anos à frente, sendo o grande responsável pelo sucesso dos mutantes na Marvel).

Claremont estreia como roteirista em Ms. Marvel 03, ainda com arte de John Buscema, mas de imediato, acaba com a trama de Carol Danvers não saber que é a heroína, quando, em meio à luta contra o Escorpião, Destruidor, IMA e um novo vilão, o Doomsday Man, um robô avançado, cai de uma grande altura e recobra a plena consciência; para a batalha prosseguir na edição 04, agora, com a estreia do novo desenhista Jim Mooney, na qual Miss Marvel e o Destruidor lutam na caverna do psycomagnitron, que é inteiramente destruída.

Na edição 05, Carol Danvers tem um primeiro contato com os Vingadores, quando vai à Stark Industries (do Tony Stark, secretamente o Homem de Ferro, mas ninguém sabia disso) fazer uma reportagem sobre empregadas femininas e termina parando um ataque da IMA e de MODOK, ao lado do Visão, membro dos Vingadores – no típico estilo Marvel: lutam primeiro, se ajudam depois.

A Miss Marvel encontra um oponente superior fisicamente em Grotesk ao mesmo tempo em que começa um envolvimento amoroso com o Dr. Mike Barnett (edições 06, 07 e 08); mas as vendas da revista – que de início foram muito boas – começavam a cair.

Um reflexo disso é a troca de desenhista, com Ms. Marvel 09 tendo arte de Keith Pollard (e uma bela capa de Dave Crockum) e a edição 10 com arte de Sal Buscema (também na capa), numa trama em que a heroína luta contra Death-Bird e MODOK, que são revelados como de uma facção dissidente da IMA, e Carol tem seu apartamento misteriosamente explodido, o que é a desculpa para a introdução da personagem Jean DeWolff, capitã de polícia, e também advinda das histórias do Homem-Aranha (mas da revista secundária Spectacular, não da principal Amazing), que apareceria vez ou outra dali em diante.

Sal Buscema, o irmão caçula de John, se torna o desenhista regular e Ms. Marvel embarca em uma saga na qual Carol Danvers regressa ao Cabo Canaveral para uma reportagem e reencontra parte do elenco de suporte das histórias do Capitão Marvel, como sua amiga Salia Petrie. Ela combate a deusa Hecate e os Elementais, nas edições 11 e 12; nesta última, Miss Marvel descobre que Hecate não é a vilã, mas está tentando parar os Elementais que querem se apossar do Escaravelho Escarlate, um cristal místico e extremamente poderoso, mas suas ações levam à morte de Petrie em um acidente com sua nave espacial.

Ms. Marvel 13 traz uma pequena reviravolta de Chris Claremont, trazendo os pais de Carol Danvers, um tipo de tema que o autor explorou bastante com alguns personagens nos X-Men. De novo com desenhos de Jim Mooney, a edição mostra Carol e Mike Barnett indo até Boston visitar os pais dela, viagem na qual ela revela que, por ter segurado o Escaravelho Escarlate, agora podia mudar para Miss Marvel na hora em que quisesse.

Esta edição traz a introdução dos pais de Carol, Joe e Marie Danvers, retratados como uma família de classe média baixa, ele sendo pedreiro e machista. A trama das edições 13 e 14 mostram a Miss Marvel salvando a vida de Joe Danvers duas vezes na mesma noite, mas enquanto a heroína tenta fazer seu pai ficar grato por ter sido salvo por uma mulher, ele não demonstra nenhum tipo de mudança de atitude.

Ms. Marvel 15 e 16 trazem a heroína tentando impedir o Tubarão Tigre de efetuar uma vingança contra Namor (que não aparece na história) ao sequestrar sua prima, Namorita. Carol consegue interceptar o vilão, mas não consegue persegui-lo dentro d’água. Então, na edição 16 vai à Mansão dos Vingadores (seu segundo contato) e – após ser atacada por Feiticeira Escarlate e Fera – consegue deles um dispositivo para respirar debaixo d’água. Ela vence o Tubarão Tigre, mas seu oxigênio acaba, e se afoga, mas é salva por Namorita.

Um elemento importante nesta história (a edição 16) é que ela traz rapidamente a primeira aparição de Mística, a vilã transmorfa que, mais tarde, Claremont irá transportar para as histórias dos X-Men, e agora, é mundialmente famosa interpretada por Jennifer Lawrence nos filmes. Nas HQs, contudo, ela é mesmo uma vilã com V maiúsculo e, apesar da história desenhada por Jim Mooney, teve seu visual criado por Dave Crockum, o parceiro de Claremont nas histórias mutantes da época.

Mística aparece “de verdade” na edição 17, onde ela se une a Geoffrey Ballard – um “vilão de bastidores” que vem atuando na revista desde o início – e vão ao Aeroporta-aviões da SHIELD para roubar o projeto Prometeus, em que Mística usa seus poderes para se passar por Nick Fury. Enquanto isso, Carol recebe um beijo de Frank Gianelli, seu editor assistente na Woman, mas precisa sair e lutar contra os inimigos.

Uma Vingadora

Carol Danvers já tinha tido dois mini-encontros com os Vingadores (ou seus membros) e isso culminou em Avengers 171, de 1978, escrita por Jim Shooter e desenhada por George Perez. Os Vingadores estavam em uma boa fase, com ótimas vendas e, da parte da Marvel, foi uma estratégia para impulsionar a revista Ms. Marvel.

Primeira aparição da Miss Marvel na revista dos Vingadores, inclusive, na capa.

Assim, aquela edição fazia parte do arco A Noiva de Ultron, na qual a inteligência artificial que habita um corpo de adamantium tenta criar uma “mulher” para si, Jocasta, mas os Vingadores tentam impedir. Em meio à caça a Ultron, Carol Danvers vê os Vingadores e se junta a eles na luta, quando a formação era Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Feiticeira Escarlate, Visão, Fera, Vespa, Jaqueta Amarela e Magnum.

Miss Marvel não é oficializada como um membro, mas na edição 172, lá está ela de novo ao lado da equipe.

Mas voltando à sua revista, Ms. Marvel 17 prossegue na edição 18, onde Mística tem sua primeira atuação relevante ao lado de Prometeus, uma armadura poderosíssima. A batalha de Miss Marvel em plena Nova York leva à chegada dos Vingadores – e os eventos parecem se passar imediatamente após Avengers 172 – e a união de todos conseguindo derrotar Prometeus, que se revelou ser Geoffrey Ballard.

Novo Uniforme

Bela capa de Ms. Marvel 19, com o Capitão Marvel. Arte de John Romita.

Desde que Ms. Marvel foi lançada, a heroína lidava com sua herança Kree, mas suas histórias tinham sido quase que exclusivamente terráqueas. Isso mudou na edição 19, quando finalmente, Carol Danvers cruzou novamente o caminho do Capitão Marvel. Na história, ainda escrita por Chris Claremont, mas estreando Carmine Infantino (o lendário artista da DC Comics responsável por repaginar o Batman no início dos anos 1960 e principal desenhista do Flash) nos desenhos e uma bela capa de John Romita.

Na trama, Ronan, o acusador, o supremo juiz Kree, vem à Terra para matar membros dissidentes de sua raça, e após algumas vítimas no Texas, chega à Nova York e ataca Carol Danvers, que agora, tem seu DNA metade humano-metade Kree. A luta começa e o Capitão Marvel chega, se surpreendendo em ver sua antiga amiga (namorada?) com um uniforme similar ao seu. O choque do reencontro termina por permitir a vitória de Ronan, que os leva para Hala, a capital do Império Kree, para serem julgados pela Inteligência Suprema, o estranho ser (uma cabeça com tentáculos em um jarro gigante) que lidera os aliens. Mas Marv-Vell e Carol se unem e derrotam Ronan e escapam, fazendo um pacto de amizade.

Àquela altura, o Capitão Marvel continuava a ter suas aventuras publicadas (sua revista estava mais ou menos na edição 54), mas sem o alto valor artístico da fase de Jim Starlin.

Claro, o reencontro com Mar-Vell não foi gratuito: Chris Claremont trouxe em seguida, questões sobre identidade! Carol Danvers era apenas uma cópia feminina do Capitão Marvel? Para responder que não, a personagem ganha um novo uniforme: mais coberto, um pouco menos sexualizado e com outro esquema de cores – em vez do vermelho com toques de azul; este é azul escuro, com um símbolo (como um S) em amarelo e um tipo de lenço lateral, como um cinto, na cor vermelha. Adereço último que vai virar sua maior marca visual dali para frente.

Novamente, Claremont encomendou o visual a seu amigo e parceiro Dave Crockum, que àquela altura, não mais desenhava os X-Men (que estavam sob o lápis de John Byrne). Porém, diferente das outras vezes, Cockrum assumiu a arte da história (e a capa também). E não foi só a roupa: o cabelo da heroína passou a ser retratado mais longo e sem as pontas estaqueadas típicas dos anos 1970 que normalmente era retratada.

O novo visual estampa com destaque Ms. Marvel 20, ainda em 1978, numa trama lá sem grandes atrativos na qual Carol vai ao Arizona lutar contra o Povo-Lagarto, numa trama que parece mais servir, como é explícito na edição 21, a extensão do poder da heroína: feita prisioneira, Miss Marvel consegue se libertar e pede para que os prisioneiros humanos sejam soltos. Como o líder recusa, dizendo que o conhecimento da existência do Povo-Lagarto seria uma ameaça àquela sociedade, Carol (pensamento militar de volta?) simplesmente sai destruindo a cidade e mata o principal defensor daquele povo, O Guardião, no que o líder concorda em deixá-los ir. Ainda assim, a heroína promete que aqueles humanos irão guardar segredo da existência deles e ao chegar em seu apartamento, vê um presente: um lagarto em miniatura para lembrar de sua promessa.

Infelizmente, Crockum não se deteve na revista e os desenhos passaram a Mike Vosburg, e Ms. Marvel 22 trouxe uma trama que pretendia de novo uma pequena reviravolta. Com as vendas baixas, a Marvel demandava mudanças, então, Chris Claremont criou a trama na qual Carol Danvers é demitida da editoria da Woman, por J.J. Jameson, por causa de diferenças criativas. Triste, ela recebe dos amigos uma festa de despedida e nela conhece Sam Adams, com quem passa a paquerar. Mas isso desperta o ciúmes de Mike Barnett e de Frank Gianelli (ex e quase ex), situação que Carol não sabe lidar e decide fugir dali. Ao sair, se envolve em uma batalha com Death-Bird, que consegue escapar.

Na edição seguinte, Carol está namorando Sam Adams, mas termina sendo capturada e levada ao espaço, à nave dos Guardiões da Galáxia – o grupo original, de viajantes no tempo, não a versão mais famosa do cinema de desajustados espaciais – e combate o Faceless, que hipnotizou sua amiga Salia Petrie, que pensava que tinha morrido no acidente espacial, mas fora salvo por essa inteligência artificial que queria dominar a mente da heroína. Com a ajuda de Vance Astro, dos Guardiões, Carol vence a batalha e revela sua identidade à amiga.

Ms. Marvel 23, porém, foi a última revista publicada da heroína, em abril de 1979.

O cancelamento por vendas baixas frustrou bastante Chris Claremont, que já tinha a edição 24 pronta e a 25 já estava pela metade. Mas a Marvel não quis insistir. De qualquer modo, no mercado extremamente competitivo dos anos 1960 e 1970, uma revista ter mais de 20 números publicados era um feito e tanto para Carol Danvers.

A heroína ficou abrigada na revista dos Vingadores, mas sua história com Chris Claremont não terminaria aí. Não mesmo!

Miss Marvel, vingadora

Pela cronologia da Marvel, aparentemente, após o encontro entre Capitão Marvel e Miss Marvel em Ms. Marvel 19, a dupla se uniu aos Vingadores para lutar contra o poderoso Korvac, pois lá estão os dois personagens unidos e com Carol ainda usando a roupa vermelha.

Korvac: uma das melhores aventuras da equipe.

Após ter se unido aos Vingadores em Avengers 171 e 172, a Miss Marvel reforça o time para derrotar Korvac em Avengers 176, de outubro de 1978, e participando da batalha final da Saga de Korvac, uma das melhores histórias da equipe em todos os tempos, em Avengers 177.

Avengers 181 traz 16 Vingadores e os Guardiões da Galáxia: Arte de John Byrne.

Quando os Vingadores convocam todos aqueles que atuaram junto ao time naquela aventura, em Avengers 181 de março de 1979, a Miss Marvel está entre eles, mas o assistente da presidência dos EUA, Peter Henry Gyrich impõe um novo time e Carol não está entre eles.

Mas ela continua rondando o time e – em vista que àquela época Ms. Marvel foi cancelada – Carol Danvers se torna oficialmente uma Vingadora (no lugar da Feiticeira Escarlate) combatendo o Homem-Absorvente, em Avengers 183, de maio de 1979, com textos de David Michelinie e a arte maravilhosa de John Byrne. A formação dos Vingadores era: Capitão América, Homem de Ferro, Visão, Miss Marvel, Falcão, Fera e Vespa.

Estar nos Vingadores mantinha a Miss Marvel em evidência, mas ao mesmo tempo, uma revista com dezenas de personagens não dava espaço para desenvolvê-la. As tramas estavam ocupadas demais com a paternidade da Feiticeira Escarlate e do Visão – foco de Noites de Wundagore, publicada entre Avengers 185 a 189, por David Michelinie e John Byrne – ou da tensão sobre o Falcão, colocado na equipe como uma cota racial, sua relação com o Capitão América, e a exigência de Clint Barton, o Gavião Arqueiro, em ser admitido no time, que mantiveram as tramas rodando, com desenhos de Byrne e roteiros de Bill Mantlo e Steven Grant.

Ainda assim, Carol Danvers é retratada como uma mulher mais ativa, que diz o que pensa, nos poucos quadros que lhes dão atenção, como em Avengers 195, de Michelinie e George Perez, em que a Vespa é sequestrada pelo Treinador, que faz sua estreia, numa aventura que traz participação especial do novo Homem-Formiga, Scott Lang, ao lado de seu inspirador, Hank Pym, sob a identidade de Jaqueta Amarela.

A Maior das Controvérsias

O capítulo mais sombrio de Miss Marvel começou logo em seguida. Uma revista de tom quase inofensivo criaria uma das maiores controvérsias da história dos Vingadores. Vamos por partes!

Os Vingadores e Miss Marvel na maravilhosa arte de John Byrne.

Em Avengers 197, de julho de 1980, David Michelinie e Carmine Infantino mostram “um dia de folga” dos Vingadores. Enquanto Fera e Magnum vão tentar namorar em um “encontro às cegas”, Carol Danvers – mais uma vez mostrada como um forte elemento humano na equipe – vai visitar Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, que deixou a equipe para viver uma vida “normal” com o marido, o Visão, no interior de Nova York. As duas caminhando no bosque até aparecem na capa da revista, feita por George Perez.

Carol dá uma ajuda a Wanda na capa de Avengers 197.

Mas Carol passa mal e é levada ao hospital por Wanda, e lá as duas descobrem que Carol está grávida de três meses! Na edição 198, ela não aparece, enquanto os Vingadores combate o Ronin Vermelho, um robô gigante provavelmente criado para afanar os fãs de seriados japoneses. Mas em Avengers 199, após a equipe derrotar o gigante, chegam à Mansão dos Vingadores e encontram Carol Danvers com uma gravidez completa, sendo atendida pelo Dr. Donald Blake – a identidade secreta de Thor – e está prestes a dar à luz! Ela teve uma gravidez completa em apenas dois dias!

A polêmica Avengers 200.

Então, vem a nefasta Avengers 200, que tem uma capa comemorativa de numeração tão alta. Mas não para a Miss Marvel! Como se ninguém quisesse levar a culpa, os roteiros da edição são creditados a Jim Shooter (o ex-escritor da revista e então editor-chefe da Marvel), George Perez (longevo desenhista da revista, que logo se mudaria para a DC Comics e faria sucesso desenhando os Novos Titãs – a revista de maior sucesso da DC nos anos 1980 – mas também passaria aos roteiros, conduzindo uma aclamada passagem pela Mulher-Maravilha), Bob Layton (arte-finalista que também escrevia e fora parceiro de Michelinie em uma famosa passagem pelo Homem de Ferro) e David Michelinie, que era o escritor corrente do time. A arte é de Perez.

Os Vingadores descobrem Miss Marvel grávida!

O Título ” O Filho que Pai Era…” já dá maus indícios. Na trama, Carol Danvers dá à luz a um bebê, um menino, e ele cresce e vira um adulto em apenas algumas horas, começando a construir uma enorme máquina na Mansão dos Vingadores. Temendo ser uma ameaça, o time destrói a máquina e, então, o misterioso “filho” revela sua história: ele é Marcus, filho de Immortus, o senhor do tempo, um meio vilão, meio aliado com quem os Vingadores tinham lidado várias vezes no passado (ele surgiu em Avengers 11) e que, como um antigo viajante no tempo, era uma versão mais velha (e bondosa, dentro do possível) do terrível Kang, o conquistador, um dos principais inimigos da equipe.

O parto preocupa os Vingadores…
Mas não é um parto comum!

Naquela época, os Vingadores ainda mantinham as identidades secretas um para os outros, e é só nessa ocasião em que a equipe descobre que a Miss Marvel é Carol Danvers. A heroína rejeita o filho, porque ele não foi gerado – no sentido de que não houve um pai! Há uma cena terrível em que o Magnum dá um fora horrível, dando-lhe os parabéns pela criança.

Magnum otário e a rejeição de Miss Marvel.

Marcus disse que vivia no Limbo, um lugar que não tem tempo, e precisava fugir e vir à Terra, por isso, usou o corpo da Miss Marvel para “nascer”. Mas com a máquina destruída, não resta nada a ele senão voltar ao Limbo.

A polêmica história de Avengers 200, com Miss Marvel e e Marcus: revolta de fãs e escritores.

Aí está o problema: Carol, que revela ter sentimentos fortes por Marcus – e eles não parecem de maternidade – decide acompanhar o jovem em sua viagem e simplesmente vai embora.

A publicação de Avengers 200 causou uma grande comoção no mercado dos quadrinhos e chegou até à mídia, com muita gente incomodada com as questões que a revista levantava: uma mulher é estuprada e depois se enamora do próprio filho. Haja Mitologia Grega! E o pior, os Vingadores não fizeram nada: quando soube que estava grávida – sem ter se deitado com um “pai” – ouve “parabéns!” dos colegas!

Estupro e incesto não são coisas que edificam a carreira de uma super-heroína.

Muitas artistas da Marvel se ergueram contra isso, colocando uma questão delicada para Jim Shooter, o editor-chefe, afinal, ele era um dos autores creditados. A culpa no fim das contas caiu sobre George Perez – e não sabemos se justa ou não – e o desenhista terminou se desligando da Marvel e indo para a DC, fazer a Liga da Justiça e, depois, os Novos Titãs e Mulher-Maravilha.

Uma das vozes mais ativas na crítica ferrenha a tudo isso foi Chris Claremont, o antigo escritor de Ms. Marvel, mas agora, ele não era mais um tapa-buracos, mas um dos mais destacados artistas da Marvel, tendo tornado os X-Men um fenômeno de vendas de igual para com o Homem-Aranha.

A Retomada

A capa de Avengers Annual 200: tentativa de reparar o estrago.

A Miss Marvel passou um ano inteiro fora das bancas, mas voltou de modo bombástico em Avengers Annual 10, publicada no verão de 1981.

Esta revista é escrita por Chris Claremont, com desenhos de Michael Golden e tem o explícito propósito de desfazer a lambança daquela história nefasta. Na trama, a Mulher-Aranha salva a vida de uma mulher não identificada que caía da Ponte Goldengate, em San Francisco. Planando sob a chuva, Jessica Drew consegue impedir a queda, mas termina caindo na baía, tendo que nadar até a margem e levar a mulher ao hospital. Sem identificação, a mulher é analisada e se percebe que está em ótimas condições físicas, mas sem mente alguma.

Carol Danvers é identificada.

Uma médica consegue identificar a paciente por meio das impressões digitais: Carol Susan Jane Danvers, 29 anos, ex-major do exército dos Estados Unidos, ex-chefe de segurança do Centro Espacial Kennedy (note o nome atualizado pelo tempo), piloto de caça de alta capacidade, treinada em combate armado e desarmado, fluente em três línguas, ex-editora da revista Woman. Último endereço conhecido em Greenwich Village, em Nova York. Desaparecida há seis meses.

Por seu estado mental, não poderia ter pulado da ponte e tentado suicídio. Suas roupas estão sem etiquetas, o que denota que alguém tentou matá-la e queria que seu corpo não fosse identificado!

Carol é invulnerável, então, os médicos não consegue furar seu crânio para examinar seu cérebro. Jessica Drew, a Mulher-Maranha, recomenda que procurem o professor Charles Xavier, dos X-Men, para ler sua mente.

Vampira derrota Thor e o Visão.

Ah, mas essa é uma história dos Vingadores, não é? Pois bem: a Mansão é misteriosamente atacada por uma mulher que absorve os poderes de quem toca e, com isso, vai derrotando os membros do time, um a um – Capitão América, Thor… Quem sobra, precisa enfrentar a Irmandade de Mutantes, o velho grupo de vilões fundado por Magneto, mas agora, com novos membros, sob a liderança de Mística – sim aquela mesmo – e outros como Pyro, Blob, Avalanche, Sina e Vampira (Rogue), a tal sugadora de poderes. A equipe, à exceção da última, tinha estreado há não muito tempo, na saga Dias de Um Futuro Esquecido, em Uncanny X-Men 139 e 140, de 1981, por Chris Claremont e John Byrne.

Os Vingadores partem para combater a Irmandade de Mutantes.

Vampira era uma mutante, criada por Mística e Sina – histórias futuras iam retratá-las não tão discretamente como um casal – com o poder de absorver memórias e habilidades das pessoas que toca e usufruir disso por alguns instantes. Mas ao tocar uma superpoderosa como Carol Danvers, algo aconteceu, e Vampira tomou para si de modo permanente tais habilidades: voo, superforça e invulnerabilidade. Em contrapartida, Carol ficou sem nada. Apenas a memória, que Xavier conseguiu resgatar.

Na verdade, a trama de Vampira atacar a Miss Marvel ia aparecer em Ms. Marvel 25, que Claremont havia escrito pela metade, quando do cancelamento, e ele adaptou à nova realidade.

Miss Marvel e Feiticeira Escarlate discutem os feitos polêmicos de Marcus.

No fim de Avengers Annual, os Vingadores derrotam a Irmandade, e vão visitar Carol na Mansão X. E lá, a heroína diz tudo o que Claremont queria dizer aos editores da Marvel: que ela foi usada por um inimigo e abandonada pelos amigos que não fizeram nada. Diz que foi mentalmente dominada por Marcus e que os Vingadores sequer desconfiaram que sua companheira de batalhas simplesmente decidiu partir rumo ao nada com um homem que a estuprou.

O melancólico fim de Avengers Annual 10: os Vingadores falharam.

Os Vingadores ouvem e calam. Carol decide permanecer com os X-Men e o time vai embora.

A Morte do Capitão Marvel

Enquanto Miss Marvel seguia sua carreira e esse nefasto destino, o Capitão Marvel Mar-Vell também continuava suas histórias. Apesar de não terem sido sucesso na época, as histórias de Jim Starlin no início da década de 1970 se tornaram muito apreciadas e viraram cults, o que ajudou ao escritor e desenhista se tornar um dos mais prestigiados da época. Tanto que, quando a revista de Adam Warlock foi cancelada em 1977, a Marvel permitiu que o artista usasse Avengers Annual 07 e Marvel Two in One Annual 02 como veículo para encerrar a saga daquele personagem e sua guerra contra o vilanesco Thanos, contando, claro, com a participação do Capitão Marvel, além dos Vingadores, Coisa e Homem-Aranha.

Por isso, não foi surpresa quando, em 1982, a Marvel Comics escolheu Starlin para iniciar uma nova e ousada empreitada: a linha de graphic novels – revistas variando entre 48 e 100 páginas, com roteiro e desenhos ainda mais caprichados e destinadas ao grande público, como forma de fazer frente aos belos álbuns de quadrinhos europeus que se popularizavam na época.

O Capitão Marvel versus Thanos por Jim Starlin.

Assim, Marvel’s Graphic Novel 01 trouxe A Morte do Capitão Marvel, como uma maneira de encerrar em grande nota a trajetória desse grande herói. Até então, Mar-Vell tinha continuado sua trajetória, mas sem o brilho do passado.

O escritor Doug Moench e o desenhista Pat Broderick ainda conseguiram fazer uma boa fase do Capitão Marvel em sua própria revista, mas as vendas levaram ao cancelamento, em Captain Marvel 62, de 1979. Como a história ainda ficou inacabada, a Marvel publicou as últimas histórias em Marvel Spotlight, uma antologia de várias histórias, em alguns capítulos em 1980. Daí, Mar-Vell só fez algumas participações especiais em outras revistas, como na do Incrível Hulk.

Então, sem uma casa para publicar suas histórias, a Marvel achou que era uma boa ideia matá-lo. E o fez bem: A Morte do Capitão Marvel, de 1982, com texto e arte de Jim Starlin, é uma grande história, em que se destaca o lado humano e nobre de Mar-Vell, mas principalmente, pelo aspecto não usual: o herói descobre que está com câncer, contraído quando se expôs ao Composto 13, um gás dos nervos, lá atrás, numa luta contra Nitro, em Captain Marvel 34. Seus braceletes quânticos impediam o câncer de se alastrar, mas também impediam o tratamento. E não era possível acessar a tecnologia Kree para curá-lo, pois era considerado um traidor de seu povo.

No fim das contas, Mar-Vell morre em um hospital, cercado de seus amigos Vingadores, como uma pessoa comum. No fim, tem uma alucinação com Thanos, que o conduz à luz, e ele morre.

Mas Carol Danvers não está entre as pessoas que estão ao seu lado.

Binária

Chris Claremont tomou Carol Danvers para si. Agora, sem poderes, ela passa a servir como uma assistente aos X-Men, incorporando o extenso universo de coadjuvantes ao redor da equipe. Sua estreia se dá imediatamente: em Uncanny X-Men 150, uma edição especial comemorativa, com o dobro de páginas, trazendo um dos maiores e mais importantes embates dos mutantes contra Magneto, desenhado por Dave Crockum.

Os X-Men se aliam aos Piratas Siderais. Ela não está na capa, mas Carol Danvers vira uma coadjuvante das histórias.

Claro que a chegada de Carol em meio aos mutantes teria consequências… cósmicas. Os X-Men já tinham vivido várias aventuras espaciais, e iriam voltar, agora. Começa em Uncanny X-Men 154, com o retorno dos Piratas Siderais, liderado por um terráqueo, o Corsário, que já tinha sido revelado como Chris Summers, o pai de Scott Summers, o Ciclope. Mas o líder dos mutantes não sabia disso até essa história, que dá início à Saga da Ninhada.

De novo sem estar na capa, Carol Danvers ajuda os X-Men contra Vampira.

Em algumas edições, Carol assume até um tipo de protagonismo sobre os X-Men, mostrando como Claremont gostava da personagem. É o caso de UXM 158, de 1982, em que a ex-heroína é mostrada treinando com os Piratas Siderais e examinada por Peter Corbeau, um cientista que tinha aparecido em uma de suas aventuras, mas era coadjuvante dos mutantes. A análise mostra que Carol perdeu os poderes, mas continua com o DNA metade humano, metade Kree.

Carol desabafa sobre a ausência de sentimentos relacionados às suas lembranças para Wolverine.

Depois, ela, Wolverine e Tempestade invadem o Pentágono em busca de uma informação secreta e são atacadas por Vampira e Mística.

Em UXM 162, A Saga da Ninhada começa para valer e os X-Men vão ao espaço combater uma raça de aliens, a Ninhada, que bota ovos em hospedeiros e domina seus corpos e mentes, algo similar ao Alien de Ridley Scott. Carol vai com eles.

Carol Danvers se torna a Binária.

Então, em Uncanny X-Men 164, por Claremont e Crockum, Carol sofre um experimento científico pela Ninhada, que quer investigar seus DNA misto, e a bombardeia com a radiação de um Buraco Branco. Mais tarde, o resultado se apresenta: Carol apresenta uma série de novos poderes, podendo voar pelo espaço e disparar rajadas de energia (e absorvê-las).

Adotando o nome de Binária, ela é convidada a ingressar nos X-Men, mesmo não sendo mutante, mas declina, e decide ficar no espaço e explorar o cosmos. Mas Binária fica com os mutantes até o fim da luta, em UXM 166, em 1983, que finaliza a Saga da Ninhada, e também a temporada de Crockum na revista.

De novo sem estar na capa, Carol Danvers encerra um capítulo da vida e abre outro.

Por fim, em Uncanny X-Men 171, de 1983, o drama de Carol Danvers de certo modo chega ao fim. De volta à Terra, ela vai visitar os pais, Joe e Marie, e percebe que embora seja querida por eles, não tem mais em si os sentimentos de antes, que foram “roubados” por Vampira. Então, decide ir embora da Terra junto aos Piratas Siderais.

Charles Xavier, por sua vez, é procurado por Vampira, que diz que está ficando louca, porque as memórias e os poderes de Carol estão com ela o tempo todo, o que não era para acontecer: quando ela absorve poderes, eles ficam com ela apenas alguns minutos. Xavier aceita tratá-la, a desgosto dos mutantes, e ela terminará ingressando no grupo. Com o passar dos anos, Vampira se tornou uma das personagens mais queridas dos X-Men, permanecendo para sempre com os poderes da Miss Marvel.

Binária ainda apareceria algumas vezes nas revistas dos X-Men, como coadjuvante e junto aos Piratas Siderais, por exemplo, em Uncanny X-Men 200, 201 e 203, de 1986, e participações nas revistas derivadas de Novos Mutantes e Excalibur, um time de heróis britânicos.

Chris Claremont ainda escreveu um tipo de canto de cisne de Carol Danvers, que foi publicada em Marvel Fanfare 24, de 1986, uma revista de histórias variadas da Marvel publicada semanalmente. A história é tocante e se chama Elegia, se passando no mesmo momento em que ela se tornou a Binária.

Carol Danvers descobre a morte de Mar-Vell.

Logan (Wolverine) convida Carol para ir jogar poker com alguns Vingadores e amigos, como Nick Fury e o Coisa. Ela vai e também comparece Monica Rambeau, a nova Capitã Marvel. Carol pergunta por Mar-Vell e somente agora descobre que ele morreu!

Binária chora no túmulo de Mar-Vell.

Como Binária, sai voando e vai atrás da sepultura do antigo amigo e relembra de sua trajetória, sendo uma oportunidade de recontar sua origem e principal momentos em uma única história. No fim, Logan se aproxima dela e, tal qual falara sobre os pais, diz a Wolverine que não tem mais os sentimentos que tinha por Mar-Vell, também roubados pela Vampira. E decide que precisa mesmo deixar a Terra.

Uma nova Capitã Marvel

Em inglês Captain Marvel não tem distinção de gênero, mas em português, sim. Então, depois da morte de Mar-Vell logo surgiu a primeira Capitã Marvel, fazendo uso feminino do termo. Como o herói original estava morto, a Marvel Comics precisava continuar usando o nome, senão, a DC Comics poderia reivindicá-lo para si – via os copyrights que tinha do Shazam, que continuava a ser publicado pela casa de Superman e Batman desde 1973, mas usando o nome Capitão Marvel apenas nas histórias, com o home Shazam aparecendo nas capas.

Monica Rambeau, a Capitã Marvel e seus poderes.

Então, o escritor Roger Stern e o desenhista John Romita Jr. (o filho daquele que criou o visual de Miss Marvel) criaram uma nova Capitã Marvel, em Amazing Spider-Man Annual 16, de 1982, ou seja, logo em seguida à morte de Mar-Vell. Na trama, a ex-guarda costeira Monica Rambeau, de Nova Orleans, ganha poderes relacionados à luz – pode se transformar em feixes de luz e viajar à velocidade da luz, disparar rajadas de energia e formar feixes de luz sólida – e encontra o Homem-Aranha. Ela adota o nome de Capitã Marvel meio que por acidente, já que nem sabia que existia um Capitão Marvel. Portanto, do ponto de vista narrativo, ela não tem nada a ver com a herança de Mar-Vell.

Pouco depois, a Capitã Marvel ingressou nos Vingadores – ela estava lá na ocasião em que Carol Danvers descobriu a morte de Mar-Vell (lembram?) – e ficou como membro importante durante toda a estada de Roger Stern como escritor de Avengers em meio aos anos 1980, quase sempre com o desenhista John Buscema (o mesmo que inaugurou a revista Ms. Marvel).

Monica Rambeau usou o nome Capitã Marvel até 1996, quando o trocou por Fótom, adotando Pulsar em 2005 e Spectrum em 2013. Com o passar dos anos, virou uma das grandes amigas de Carol Danvers.

Vampira

A velha Miss Marvel de algum modo continuou vivendo dentro de Vampira e isso foi uma coisa que Claremont explorou nas histórias dos X-Men entre 1984 e 1989. Para dar o fim dessa história, a partir de Uncanny X-Men 236, de 1988, a personalidade de Carol Danvers começa a se sobrepor a de Vampira até que Vampira atravessa o Portal do Destino – um portal mítico que criava uma nova vida para quem o passasse – e é separada da entidade Miss Marvel dentro de si. Essa “contraparte” voltaria a assombrá-la em UXM 269, de 1990, quando as duas lutam e esta é morta por Magneto, que estava envolvido amorosamente com Vampira na época.

Esporádica

Carol Danvers como Binária.

Com apenas algumas aparições após 1983, Carol Danvers/ Binária passou a maior parte dos anos seguinte sumida. Isso mudou com a saga Operação Tempestade Galática, capitaneada por Bob Harras e Steve Epting, à frente da revista dos Vingadores, em 1992, em Avengers 345, 346 e 347, mas se espalhando por várias outras, chegando a 19 histórias. A trama traz uma guerra entre os impérios S’hiar e Kree e fazia alusão à Operação Tempestade no Deserto, da Guerra do Iraque.

O escritor Bob Harras (ao lado de Mark Gruenwald e Tom DeFalco) criaram uma ideia interessante, na qual em vez da tradicional guerra Kree-Skrull, eclode uma guerra entre os Kree e os S’hiar, a raça alien aliada dos X-Men usadas até então quase exclusivamente nas revistas mutantes e interagindo pouco com o restante do Universo Marvel. Carol Danvers ocupa uma posição privilegiada criativamente falando, pois tem sua origem ligada aos Kree (seu DNA) e era aliada dos S’hiar via Piratas Siderais.

Em Avengers 345, os Vingadores formam três times para atuar na guerra: uma que vai ao Império Kree, outra ao Império S’hiar e uma fica na Terra para protegê-la. Curiosamente, a Viúva Negra – que era líder dos Vingadores na época – simplesmente desaparece da história.

Em Avengers 346 aparece pela primeira vez a Starforce, uma equipe tática especial dos Kree, formada por Capitão Atlas, Korath, Doutora Minerva, Supremor, Ultimus e Shatterax, a mesma equipe que também aparece no filme Capitã Marvel.

Como Binária e ao lado dos Piratas Siderais, aliados dos S’hiar, Carol apareceu bastante na saga, e no fim, perdeu a conexão com o Buraco Branco que lhe deu seus poderes de Binária. Assim, Carol voltou apenas a ter seus poderes de Miss Marvel (voo, força e invulnerabilidade), embora tenha mantido a capacidade de absorver e disparar energia.

Como Binária, Carol volta às capas dos Vingadores depois de 10 anos!

Carol ainda apareceu em Avengers 348, e de novo em 350 e 351, numa trama em que os Vingadores entram em rota de colisão contra os Piratas Siderais, e conta com a participação dos X-Men. Inclusive, a heroína volta a estampar uma capa dos Vingadores depois de 10 anos, em Avengers 351, de 1992. No fim das contas, as pazes são feitas e os Piratas vão embora, mas a Binária decide permanecer na Terra.

Fora das bancas

Se a Marvel tinha planos para Carol Danvers/ Binária, eles simplesmente não foram executados. Apesar de ter permanecido na Terra, a personagem só teve um par de aparições após ter decidido ficar na Terra: na primeira edição de Starblast, de 1994 (dois anos depois!), uma revista estrelada por Adam Warlock; e em Silver Surfer (Vol. 3) 123, de 1996 (quatro anos depois!), antes de realmente voltar à tona.

Warbird

A heroína recuperada na fase de Busiek e Perez.

A Marvel Comics passou por maus bocados nos anos 1990, saindo de um número recorde de vendas de revistas à implosão do mercado e a empresa ser obrigada a declarar concordata para não falir, em 1997. Como resultado, a editora reorganizou sua linha editorial em busca de melhorar as histórias e se reconectar com o público. Assim, a revista Avengers (vol. 3) foi lançada com um tipo de recomeço da equipe dos maiores heróis da Terra, em 1998 (ou seja, seis anos após a última aparição de Carol Danvers na revista).

A nova Avengers 01 foi escrita por Kurt Busiek (da aclamada série Marvels) e desenhos de George Perez (de volta aos Vingadores após 25 anos!). Nos três primeiros números da nova revista, simplesmente todos os membros dos Vingadores existentes (ainda vivos) são convocados para derrotar o ataque da feiticeira Morgana Le Fay e Carol Danvers está aqui, ainda como Binária.

Após a vitória, os cinco membros originais dos Vingadores (com o Hulk trocado pelo Capitão América, que foi mais relevante à história da equipe) se reúnem para decidir quem será membro oficial do time dali em diante. No fim, é escolhida uma nova formação com Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Feiticeira Escarlate, Gavião Arqueiro, Warbird e o Visão (sem corpo, apenas como holograma), tendo Justiça e Flama como membros reserva em treinamento (dois ex-membros dos Novos Guerreiros).

Warbird (Pássaro de Guerra) era a nova identidade assumida por Carol Danvers, abandonando definitivamente a designação de Binária, mas sem retomar à Miss Marvel.

A nova fase de Busiek e Perez é uma das melhores dos Vingadores nas últimas décadas e tem muitos atrativos. Um deles é o de resgatar os elementos clássicos da equipe – dos anos 1960 e, principalmente, 70 – e dar-lhes feições mais modernas, com grande êxito. Assim, há algo de nostálgico nessas histórias, mas num bom sentido.

Warbird cai na bebida.

A dupla ainda deu um olhar atencioso a Carol Danvers, tratando especialmente de sua busca por identidade: depois de ter sido major do exército, editora de revista feminista, Miss Marvel e Binária, quem era ela? O peso nefasto do “caso Marcus” ainda a persegue também, bem como o trauma de Vampira e seu rancor dos Vingadores, o que faz com que ela desconte seus problemas no alcoolismo, transferindo para ela uma abordagem que foi bastante relevante com Tony Stark/ Homem de Ferro lá atrás nos anos 1980.

Com seus poderes, Warbird pode ser uma das mais poderosas heroínas dos Vingadores e do próprio Universo Marvel, mas essa sensação de não pertencimento faz parecer que nunca atinge seu potencial, o que é transformado em trama das histórias.

Contra o Esquadrão Supremo.

Os Vingadores combatem o Esquadrão Supremo – uma versão da Liga da Justiça da DC Comics, que vem de uma outra dimensão, criada nos anos 1960 – em Avengers 5 e 6, mas o arco Viva e Morra como Kree, que se desenvolveu também na revista de Mercúrio (Quicksilver) e do Capitão América (ambas no número 03), na qual Carol sucumbe aos efeitos do alcoolismo e é submetida a uma Corte Marcial pelos Vingadores.

Mas antes de ser julgada, em Avengers 07, um ataque da Legião Lunática a põe em ação novamente, mas no fim, decide ir embora.

Volta casual.

De novo, Carol passa um tempo afastada das bancas. aparecendo apenas ocasionalmente, na revista do Homem de Ferro (Iron-Man vol. 03 12) e de Wolverine (números 133 e 134), todas em 1999, antes de regressar aos Vingadores outra vez em Avengers 17 e 18, também de 1999, e escritas e desenhadas por Jerry Ordway, na qual Warbird se une casualmente ao time para ajudá-los a derrotar um de seus velhos inimigos, o Doomsday Man. A curiosidade dessa aparição é que Carol usa seu velho uniforme vermelho.

Mas o mesmo Kurt Busiek também escrevia Iron-Man (com desenhos de Sean Chen) e levou Carol para lá como coadjuvante por um tempo. De novo com seu uniforme azul, Warbird aparece em Iron-Man 18, de 1999, e continuará aparecendo nas edições, por exemplo, combatendo Ultimus na edição 25, que encerra essa participação.

De volta aos Vingadores.

Warbird é readmitida nos Vingadores não muito tempo depois, em Avengers 26, de 2000, por Kurt Busiek e Stuart Immonen, quando o Capitão América monta uma nova equipe para uma única missão, com Carol, Homem-Formiga (Scott Lang), SilverClaw e o novo Capitão Marvel (Gengis-Vell, o filho perdido de Mar-Vell).

Coincidência ou não, Avengers 27, de Busiek e Perez, traz uma reorganização dos Vingadores, com a saída de Capitão América, Thor, Justiça, Flama e Magnum, surgindo um novo time liderado por Hank Pym (Golias) e tendo Vespa, Homem de Ferro, Warbird, Feiticeira Escarlate, Mulher-Hulk e Triatlo.

A temporada de Busiek-Perez continuava firme e forte, continuando a colocar os Vingadores contra oponentes clássicos, como o Ceifador, Madame Máscara e Conde Nefária, ao mesmo tempo em que a abordagem de Carol Danvers como uma mulher atormentada pelos traumas de sua vida permanecia como exemplo de superação diária.

Busiek permaneceu nos roteiros, mas o desenho passou ao grande Alan Davis, em Avengers 38, de 2001, houve uma “pequena” mudança na formação, com Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Warbird, Golias, Vespa, Visão, Feiticeira Escarlate, Mercúrio, Magnum e Triatlo.

Era só a abertura para a saga Dinastia Kang (também chamada de Guerra Kang), que transcorreu por 15 edições de Avengers, entre Avengers 41 e 55 e o Avengers Annual 2001, publicadas entre 2001 e 2002, ainda com textos de Busiek e começando com desenhos Alan DAvis, mas passando a Kieron Dwyer, o brasileiro Ivan Reis e do argentino Manuel Garcia.

Na trama, Kang, o conquistador, um dos maiores inimigos da história dos Vingadores, retorna do século 30, onde vive, para dominar o planeta no início do séxulo XXI. Ao lado do Centurião Escarlate, Kang aparece defronte o prédio da ONU e o destrói sem matar ninguém, dizendo que não quer guerra, mas salvar a Terra de si mesma, exibindo vários futuros terríveis que envolvem nossa história e que ele quer impedir. Mas isso significa se submeter a ele e os Vingadores não aceitam.

Ao longo da longa trama, Kang consegue que vários outros grupos de vilões se unam a ele em sua empreitada e consegue, realmente, dominar o mundo. Isso é importante, porque é a primeira vez na história da Marvel que um vilão realmente consegue dominar o mundo, apesar de todas as tentativas existentes desde 1961! (Vale lembrar que a maior história de Busiek até então, Ultron Definitivo, a terrível inteligência artificial havia dominado um país. Mas com a resistência dos Vingadores, os maiores heróis da Terra conseguem derrotá-lo.

Um novo Marcus!

Em meio à aventura, os Vingadores descobrem que o Centurião Escarlate é Marcus, o filho de Kang, o que de certo modo o conecta diretamente ao Marcus que estuprou e aliciou Carol Danvers lá atrás, em Avengers 200. Na linha do tempo da Marvel, Kang e Immortus – o pai daquele outro Marcus – são a mesma pessoa: um homem do século 30 que descobre como viajar no tempo e vai para o Egito Antigo e se torna um faraó, depois, assume a identidade de Centurião Escarlate, antes de se tornar, Kang, o conquistador, um dos maiores (senão o maior) inimigo dos Vingadores. Mas quando envelhece, mais maduro, ele se torna menos vilanesco, apenas meio manipulador, e se torna Immortus, quando abandona a tecnologia e assume poderes místicos.

Mesmo não sendo exatamente a mesma pessoa, a presença de Marcus dá asco à Carol, mas mesmo assim, Marcus se apaixona por ela (de novo?) e resolve ajudá-la na luta contra o Mestre do Mundo, outro vilão de tecnologia alienígena cujo equipamento poderia ajudar os Vingadores a vencer. Warbird termina matando o Mestre do Mundo na luta, em Avengers 48.

Após uma grande batalha global, os Vingadores vencem Kang (no fim, ele realiza um duelo contra o Capitão América e é derrotado) e o prendem para ser julgado por seus crimes, mesmo com ele pedindo para morrer em combate. Mas Marcus aparece e resgata o pai. De volta à sua base, Kang diz que sabe que o filho o traiu, ajudando Warbird e o mata.

Tendo em vista o antecedente de Viver e Morrer Kree (e também Operação Tempestade Galáctica) Carol pede que os Vingadores organizem uma Corte Marcial para ela por ter matado o Mestre do Mundo, mas sua ação é considerada um ato de guerra e ela é inocentada.

Intermédio

Enquanto Dinastia Kang era publicada, Carol Danvers ganhou outra abordagem completamente diferente na revista Alias, criada pelo escritor Brian Michael Bendis e pelo desenhista Michael Gaydos, com a personagem Jessica Jones. Vindo dos quadrinhos independentes, Bendis se tornaria o principal escritor da Marvel na primeira década do século XX e as histórias de Jessica Jones seriam um de seus primeiros grandes pontos na editora.

A capa da nova Jessica Jones, por David Mack.

Na trama de Alias, Jessica Jones é uma detetive particular vivendo no mesmo mundo de Homem-Aranha, X-Men e Vingadores. Mas mais do que isso, num recurso chamado de retcon (inserção tardia), Jones é apresentada como uma mulher com super-poderes, tendo superforça e sendo capaz de voar, e uma ex-heroína, inclusive, que tinha participado como membro dos Vingadores sob o nome Safira, antes de um trauma lhe tirar dessa vida.

Na edição 03 de Alias, em 2002, ficamos sabendo que Carol Danvers é uma das principais amigas de Jessica e esta visita a amiga quando está gripada, usa os recursos dos Vingadores para localizar um telefone e as duas almoçam juntas na edição 04. Alias mostra o lado mais humano da Marvel, com uma abordagem mais mundana dos personagens, como dá para notar, e isso cativou os leitores, de modo que, em breve, Bendis iria tomar conta da Mansão dos Vingadores.

Ainda Vingadora

Dinastia Kang encerrou a longa e maravilhosa fase de Kurt Busiek à frente dos Vingadores e Avengers 57, de 2002, deu origem à temporada de Geoff Johns (mais tarde mais famoso como um dos maiores nomes da DC Comics na década de 2010), contando inicialmente com desenhos de Kieron Dwyer. Essa edição dá origem ao arco Confiança Global e inaugura uma formação ligeiramente diferente de heróis, com Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hank Pym (agora, de novo como Jaqueta Amarela), Vespa, Warbird, Mulher-Hulk, Feiticeira Escarlate, Jack of Hearts, e participações constantes de Falcão, Pantera Negra e Homem-Formiga (Scott Lang).

Mas Warbird ficou apenas mais um tempo nos Vingadores nessa fase. Em Avengers 70, de 2003, ela é escalada para comandar uma parte da Segurança Nacional dos EUA, após uma indicação do Capitão América, devido ao seu passado militar, e ela aceita.

Quando à revista dos Vingadores, aquela foi uma relativamente longa, mas sem grandes atrativos. O Vol. 3 de Avengers é encerrado no número 84, de 2004, quando a Marvel decide retomar a numeração original do Vol. 1; de modo que o que seria o número 85 se tornou a edição 500.

Enquanto isso, Carol migrou de novo para Alias, onde a partir da edição 24, de 2003, ela passa a ter um papel ainda mais proeminente, porque são as histórias que exploram o fato de Jessica Jones ter sido abusada pelo Homem-Púrpura, Killgrave, o plot que foi adaptado na 1ª temporada da série da heroína na Netflix. Carol entende o sofrimento da amiga, porque viveu algo parecido com Marcus.

Vingadores: A Queda

A Mansão dos Vingadores é definitivamente destruída em “Avengers Disassambled” de Bendis e Finch.

Quando Avengers voltou à numeração antiga, com a edição 500, deu-se início à longuíssima fase escrita por Brian Michael Bendis (de Alias) dos Vingadores, que duraria de 2004 até 2012. O primeiro arco, bombástico, foi Dissassambled ou Vingadores: A Queda, com desenhos de David Finch, na qual a equipe sofre um ataca mortal, com a destruição da Mansão e a morte de vários membros, como Visão, Jack of Hearts, Homem-Formiga (Scott Lang) e Gavião Arqueiro.

O ataque foi da Feiticeira Escarlate que sofreu um surto psicótico e se voltou contra a equipe. Warbird estava entre aqueles que lutaram contra a ex-amiga e a derrotaram. Wanda Maximoff é entregue ao professor Charles Xavier e Magneto (o pai dela) para que seja curada, e os Vingadores são extintos.

Bem, pelo menos por um tempo.

Novos Vingadores

Pouco tempo depois, uma fuga de vários supercriminosos da Gruta, uma prisão especial, reúne o Capitão América e o Homem de Ferro com vários outros heróis e a dupla decide que os Vingadores continuam necessários. Mas decidem montar uma versão realmente nova da equipe.

Nasce então, os Novos Vingadores, em New Avengers 01, de 2004, dando prosseguimento às histórias de Bendis e Finch, e uma equipe que mistura heróis tradicionais da equipe com outros totalmente novos: Capitão América, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Wolverine, Luke Cage, Mulher-Aranha e Sentinela.

Carol Danvers ficou de fora. Pelo menos por enquanto.

Dinastia M

A primeira megassaga de Bendis nos Novos Vingadores foi Dinastia M: Wanda Maximoff “acorda” de seu transe e, ainda mais poderosa do que antes, simplesmente cria uma “nova realidade” em que os mutantes não são perseguidos.

Nessa nova realidade, Carol Danvers usa o nome de Capitã Marvel e é a maior heroína do planeta. Quando os Vingadores (e os X-Men) conseguem fazer tudo voltar ao normal, Carol mantém as memórias daquela outra realidade e a frustração de saber que poderia ser muito mais.

E decide mudar de atitude!

A Maior Heroína da Terra

Era a “desculpa” da Marvel para que Carol Danvers voltasse a ter suas aventuras solo, pela primeira vez, desde o longícuo 1978! Sob a orientação distante de Brian Michael Bendis, foi lançada a revista Ms. Marvel (vol. 2) 01, em maio de 2006, com roteiro de Brian Reed, desenhos de Roberto De La Torre e capas de Frank Cho (um artista que, no futuro, se especializaria em desenhos de cunho semi-erótico e causaria bastante controvérsia).

O impulso da revista era semelhante ao drama da heroína: a Marvel tinha a explícita missão de tornar Carol Danvers sua maior heroína. E podemos dizer que foram bem-sucedidos em médio prazo.

Saindo da Dinastia M, Carol Danvers abandona o nome Warbird e decide voltar a se chamar Miss Marvel, contratando Sarah Day como sua publicitária para reconstruir sua imagem perante o público e tem como primeira ameaça a Ninhada, que ela combateu lá atrás junto aos X-Men.

As novas aventuras solo de Brian Reed foram bastante bem recebidas e a Miss Marvel foi gradativamente se tornando, realmente, a mais popular heroína da Marvel.

Em suas aventuras solo, lutou contra alguns de seus antigos vilões, como a IMA, MODOK e a Rainha da Ninhada, em Ms. Marvel 24, de 2008, ainda escrita por Brian Reed, mas agora com desenhos de Aaron Lopresti.

Guerra Civil

Capitão América versus Homem de Ferro em Guerra Civil.

Durante esse tempo, o envolvimento de Carol com os Vingadores foi só casual, mas a partir de New Avengers 15, de 2006, por Brian Bendis e Frank Cho, a Miss Marvel foi gradativamente fazendo parte da equipe. Mas isso não durou muito.

A saga Guerra Civil foi publicada como uma minissérie escrita por Mark Millar e desenhos de Steve McNiven, e publicada em 7 edições entre 2006 e 2007, mas também se espalhando por diversas outras revistas mensais, e já adaptada aos cinemas em Capitão América – Guerra Civil, trouxe uma ruptura decisiva no interior dos Vingadores. A ação desastrosa dos Novos Guerreiros causa a morte de 600 pessoas, a maioria crianças, em uma pequena cidade, e o Governo dos EUA decide baixar a Lei de Registro de Superseres, que obriga todos aqueles que têm superpoderes a revelar suas identidades secretas e agir sob a tutela do Governo.

Outra formação dos Novos Vingadores: Homem-Aranha(de preto, embaixo),

O Homem de Ferro e a Miss Marvel apoiam de imediato a medida, mas o Capitão América não, por entender que ela fere os Direitos Civis. Então, o Capitão termina liderando uma facção de heróis que vira fora da lei. Assim, enquanto os “Novos” Vingadores basicamente viram procurados da justiça (Capitão América, Luke Cage, Wolverine, Ronin – a nova identidade do Gavião Arqueiro [isso, ele não tinha morrido mesmo]), enquanto o Homem de Ferro forma uma equipe “oficial” de Vingadores – os Poderosos Vingadores – que passa a ser liderada pela Miss Marvel. Tony Stark se torna o novo diretor da SHIELD e tem a dura missão de perseguir seus velhos amigos que não aderiram à Lei de Registro.

Claro, se divivem as revistas e New Avengers continua sendo publicada, agora ao lado de The Mighty Avengers, com Homem de Ferro, Miss Marvel, Vespa, VEspa, Sentinela, Magnum e Ares, o deus da guerra.

Uma das principais consequências da Guerra Civil é que a facção “legalista” do Homem de Ferro e de Miss Marvel venceu a “guerra”. Como resultado, o Capitão América decide se entregar às autoridades e é levado a julgamento apenas para ser morto a tiros na entrada do tribunal, em Captain America 25, de 2007, por Ed Brubaker e Steve Epting, num plano do Caveira Vermelha e Ossos Cruzados.

Como ninguém “morre mesmo” nos quadrinhos, Steve Rogers voltaria anos depois – numa explicação de que a arma que lhe “matou”, na verdade, lhe tirou do tempo – mas até lá, seu lugar foi assumido por seu antigo parceiro Bucky Barnes, o Soldado Invernal.

Invasão Secreta

Invasão Secreta: em quem confiar?

A situação fica assim até que os Novos Vingadores (foragidos) descobrem uma enorme invasão Skrull na Terra: os aliens transmorfos se infiltraram no planeta e substituíram vários personagens chave. Quem é autêntico quem é um Skrull disfarçado? Esse era o clima de paranoia que marcou Invasão Secreta, outra minissérie em 7 partes, publicadas entre 2008 e 2009, agora, escrita por Brian Bendis e desenhada por Leinil Francis Yu.

Os Novos Vingadores fugitivos pós-Guerra Civil e Invasão Secreta.

As duas equipes de Vingadores saem por aí tentando descobrir quem é quem – Mulher-Aranha e Jaqueta Amarela eram Skrulls infiltrados – mas na batalha, Norman Osborn, o vilão Duende Verde, inimigo do Homem-Aranha, que então, comandava o programa Thunderbolts (que usava criminosos para missões suicidas igual o Esquadrão Suicida da DC Comics), terminou matando a Rainha Skrull e virando um herói nacional.

Reinado Sombrio

Os Vingadores Sombrios de Norman Osborn. Arte de Mike Deodato Jr.

Como resultado, Osborn se torna o novo diretor da SHIELD, que desgastada por não ter previsto a invasão Skrull, é desativada e substituída pelo MARTELO. É o Reinado Sombrio que se desenvolveu nas revistas da Marvel entre 2008 e 2010. Osborn também se torna o responsável pelos Vingadores e, na medida em que nenhum herói aceita ser liderado por um criminoso psicótico, todos os heróis abandonam o grupo. Mas não é problema: o vilão seleciona os mais eficientes nomes dos Thunderbolts e os faz se passar por Vingadores, nascendo os Vingadores Sombrios (The Dark Avengers, outra nova revista): o próprio Norman Osborn se apossa de uma armadura do Homem de Ferro e se torna o Patriota de Ferro; Rocha Luna vira a nova Miss Marvel (usando o velho uniforme vermelho); Darkken, o filho maligno de Wolverine assume a identidade do pai (com o uniforme marrom e bronze); o Mercenário se torna o Gavião Arqueiro; o antigo Escorpião, agora junto ao simbionte Venom se passa pelo Homem-Aranha, com o uniforme negro; juntos a Sentinela e Ares, o deus da guerra. A revista The Dark Avengers se transforma em um grande sucesso de vendas, e foi criada por Brian Bendis e o desenhista brasileiro Mike Deodato Jr.

Carol se reuniu aos Novos Vingadores, que permaneciam como foras da lei, mas agora, perseguidos por Osborn, em New Avengers 48, de 2009, com o time assumindo uma feição nova, com Homem-Aranha, Wolverine, Luke Cage, Ronin, Harpia, Mulher-Aranha, Miss Marvel e o novo Capitão América (Bucky Barnes, o Soldado Invernal).

Em sua revista solo, ainda escrita por Brian Reed, mas agora, com desenhos dos brasileiros Paulo Siqueira e Adriana Melo, Carol precisa lidar com Karla Sofen, a Rocha Lunar, usurpando seu lugar como Miss Marvel e tendo Norman Osborn particularmente interessado em sua cabeça, especialmente entre Ms. Marvel 34 e 37. Além disso, as histórias desenvolvem um namorico entre Carol e o Homem-Aranha.

Karla Sofen como Miss Marvel, na bela arte de Mike Deodato Jr.

Em Ms. Marvel 38, o lugar de Carol na revista é ocupado por Karla Sofen, num curto período em que a heroína é dada como morta, até que regressa na edição 41, o que dá início a War of the Marvels, na edição 42, ainda por Reed, mas com desenhos de Sara Takeda. O curioso é que as histórias mostram que, apesar de má, Karla Sofen realmente gostou de encarnar a Miss Marvel e, em alguns aspectos, terminou também sendo um tipo de heroína.

No último capítulo de War of Marvels, em Ms. Marvel 46, Carol consegue vencer a Rocha Lunar e, usando sua herança Kree, é capaz de retirar a pedra Kree mística que dá os poderes a Karla Sofen. Sem poderes, no chão, Karla pede que Carol a mate e a heroína apenas diz: “querida, eu já fiz isso”.

Mais tarde, Carol diz à (ex?) criminosa que ela deveria ir atrás de tentar ser uma mulher melhor, alguém de quem sua mãe iria se orgulhar. Karla diz a Norman Osborn que, sem a pedra Kree, irá morrer em 72 horas e parte. Seguindo o conselho de Carol, a vilã vai até o túmulo da mãe e encontra a pedra em cima de sua tumba, deixada lá por Carol. Karla chora e esmaga a pedra, indo embora.

Após uma pausa para respirar – com um encontro com Peter Parker/ Homem-Aranha em Ms. Marvel 47 – o último arco de histórias desse volume de sua revista transcorre entre as edições 48 e 50, já em 2010, na qual Carol precisa enfrentar sua maior inimiga: Mística, numa trama em que a transmorfa manipula um Skrull “disfarçado” como Capitão Marvel para matar a Miss Marvel, mas no fim, ele tenta se redimir.

Um Skrull tocado pelo Capitão Marvel.

Ao longo de 50 edições, Brian Reed conseguira não somente colocar Carol Danvers no mapa, mas realmente, se tornar a principal heroína da Marvel.

Capa com homenagem a Mar-Vell.

A Herança de Mar-Vell

Depois de uma grande saga com os Vingadores em O Cerco (2010-2011), a Miss Marvel precisou lidar com a herança de Mar-Vell na megassaga Vingadores vs. X-Men, que transcorreu entre 2011 e 2012. Na trama, a Força Fênix (a entidade cósmica que tomou controle de Jean Grey no passado distante) regressa à Terra, mas enquanto os Vingadores a enxergam como uma ameaça ao planeta, alguns membros dos mutantes (em particular o líder Ciclope) acham que ela pode salvar os mutantes da extinção eminente.

Além da saga principal, publicada em uma maxissérie de 12 partes, dezenas outras revistas publicaram histórias relacionadas, e a Miss Marvel teve destaque na revista Secret Avengers (Vingadores Secretos), um time que fora criado pelo Capitão América quando ele retornou da morte, para missões mais sigilosas.

Mar-Vell de volta na arte de Alan Davis.

Em Secrets Avengers 26 a 28, de 2012, por Rick Rememeder nos textos e o desenhista brasileiro Renato Guedes, esse time descobre que, para se proteger da Força Fênix, sacerdotes Kree usaram o Cristal M’Kraan (uma joia cósmica de enorme poder, surgida nas histórias dos X-Men de Chris Claremont, em 1975) para ressuscitar Mar-Vell, o Capitão Marvel, para protegê-los.

A Força Fênix pretende destruir Hala – a sede do Império Kree — antes de ir à Terra e os Vingadores lutam bravamente para impedi-la, mas ela é poderosa demais. Em algum momento, a Inteligência Suprema que comanda os Kree chega a pensar que a Força Fênix os vai fazer evoluir e chega a dominar a mente de todos os Kree – o que inclui Mar-Vell ressuscitado, Carol e Noh-Varr (o Kree que sob o nome de Protetor agora também era membro do time) – para impedir os Vingadores, mas o Visão e Thor conseguem reverter o processo.

No fim, Miss Marvel incorpora de novo todo o poder de Binária para lutar contra a Força Fênix e até consegue algum avanço, mas a entidade cósmica quer o poder do Capitão Marvel, e ao perceber isso, Mar-Vell decide se sacrificar de novo para salvar seu planeta e seu povo. E dá certo, saciada, a Força Fênix desvia de Hala e vai para a Terra.

Emocionada por ter tido essa oportunidade de estar novamente, mesmo que de modo breve, com Mar-Vell, Carol dá um discurso emocionante:

Ele era tudo o que eu lembrava. Até mais! Nenhum momento de hesitação. Uma vez que sabia que poderia salvar seu povo, ele fez sem pestanejar. Sua coragem e nobreza não têm rival. Como precisamos dele. Como precisamos daquele valor puro. Como as coisas seriam diferentes se ele estivesse aqui conosoco. E como eu sinto falta do meu querido amigo. A imagem de um homem solitário disposto a sacrificar sua oportunidade de viver… por um mundo, e pelas pessoas, isso o move! Ser inspirado pela simples noção dessa nobreza é possível. Capitão Marvel! O nome sempre definirá o melhor de nós. Talvez, o nome devesse viver.

Então, Carol decide assumir o manto do Capitão Marvel e usar seu nome. Agora, não haverá mais Miss Marvel, mas uma nova Capitã Marvel.

Capitã Marvel

A Marvel lançou Carol Danvers como a nova Capitã Marvel com grande alarde em 2012, estreando a revista Captain Marvel (em seu 7º volume, por causa das versões anteriores do nome) sob o comando da escritora Kelly Sue DeConnick e desenhos de Dexter Soy, mas o novo e belíssimo uniforme da heroína foi criado por Jaime McKelvie. A roupa evoca a herança de Mar-Vell, mas incorpora os elementos visuais próprios de Carol em um visual estotoante, um dos melhores uniformes contemporâneos de heróis.

Captain Marvel (vol. 7) 01 foi um grande sucesso de vendas e inaugurou uma fase muito elogiada pela crítica. Na trama, enquanto Carol relembra sua trajetória e se esforça para fazer jus à herança de Mar-Vell, vemos mais de seu passado nunca contado, como a existência de Helen Cobb, sua mentora. A edição 02 traz uma icônica capa de Ed Mcguinness que presta uma homenagem ao histórico poster feminista Rosie the Rivertier.

As tramas amarram uma série de pontas soltas do passado de Carol e desenvolvem principalmente seu background militar como piloto, uma abordagem que fora pouco usada além das histórias de Brian Reed. Também trouxe de volta o velho personagem coadjuvante Frank Gianelli e colocaram Carol para acertar as contas com Monica Rambeau, a Fotom, que no passado também usou o nome Capitã Marvel.

Chewie, o gatinho de Carol.

Essas histórias também trouxeram a estreia do gatinho de Carol, que ela batizou de Chewie, em homenagem a Chewbacca de Star Wars.

A partir de Captain Marvel 10, de 2013, Kelly Sue DeConnick e o desenhista português Filipe Andrade iniciaram um arco em que Carol precisa combater sua velha oponente Deathbird que está sendo manipulada por um mestre misterioso, essa história irá eclodir na saga Avengers: Enemy Within, que com roteiros de DeConnick e desenhos de Scott Hepburn (na edição especial homônima), e de Andrade nas edições 13 e 14 de Captain Marvel e de Matteo Bufagni em Avengers Assemble (vol. 2) 16 e 17.

Yon-Rogg de volta, como Magnitron.

Na trama, Carol descobre que o vilão que vem agindo nas sombras é ninguém menos do que Yon-Rogg, o velho oficial Kree que tentou matar Mar-Vell e, ao manipular o Psycomagnitron, foi o responsável por dar os poderes à heroína, quando a explosão da máquina alienígena resultou na fusão de seu DNA terráqueo ao DNA Kree do Capitão Marvel.

Com a ajuda dos Vingadores, a Capitã Marvel consegue derrotar Yon-Rogg, mas a grande explosão do novo Psycomagnitron resulta em Carol perdendo parte de suas memórias.

Mais Alto, Mais Forte e Mais Rápido

Querendo se reencontrar – de novo – Carol se une aos Guardiões da Galáxia e passa um tempo agindo com eles no espaço enquanto Captain Marvel (vol. 7) encerra sua temporada no número 17, em janeiro de 2014, atendendo à nova estratégia da Marvel Comics de renovar sua linha de revistas inteiramente a cada par de anos.

Assim, em março de 2014 já chega às comic shops Captain Marvel (vol. 8) 01, ainda com roteiros de Kelly Sue DeConnick e a arte de David Lopez, trazendo o início do arco Mais Alto, Mais Forte e Mais Rápido, uma frase que já foi usada em um dos trailers do filme da heroína.

Na trama, Carol começa a namorar o colega vingador Jim Rhodes, o Máquina de Combate, enquanto busca reorganizar suas memórias, e aceita o convite de se unir aos Guardiões da Galáxia e voltar a viver um tempo no espaço.

Quando está nos Guardiões da Galáxia, Rocket acusa o gato dela, Chewie de ser um alien da raça Flerken, o que Carol nega, dizendo ser só um gatinho, mas em Captain Marvel (vol. 8) 08, ela descobre que é verdade. Chewie deposita 117 ovos que são deixados com um cuidador no espaço e se teleporta de volta para a nave em que Carol está. Na edição 15, ele regressa à Terra.

Chewie revela sua verdadeira natureza.

Captain Marvel (vol. 8) teve 15 edições até ser substituída por Captain Marvel (vol. 9), em 2016, agora tendo como escritoras Michelle Fazekas e Sarah Butler e desenhos incríveis de Kris Anka, que criou algumas das mais belas capas dos últimos anos. Na trama, ela se une à SHIELD para caçar os Iluminatti e terá uma sequência ininterrupta de grandes aventuras, por meio das sagas Guerra Civil II, Império Secreto e Guerras Secretas.

Em 2019, chegou Captain Marvel (vol. 10), agora, com textos de Kelly Thompson e desenhos de Carmem Camero.

Nova Origem

Às vésperas do lançamento de Capitã Marvel nos cinemas, a Marvel Comics mudou algo radicalmente a origem de Carol Danvers. Na revista The Life of Captain Marvel, com roteiros de Margareth Stohl e desenhos de Carlos Pacheco, Carol descobre que sua mãe não se chamava Marie Danvers, como ela pensava: ela é Marie-Ell, uma guerreira Kree! Portanto, o verdadeiro nome de Carol é Car-Ell.

Dessa forma, o acidente com o psycomagnitron não “fundiu” o DNA humano de Carol com o DNA Kree de Mar-Vell, como mostrado em Ms. Marvel 02, de 1977: tendo mãe Kree, ela sempre teve DNA meio-Kree. O que a explosão fez foi apenas revelar seus poderes latentes.

A frase de sua mãe para ela é significativa das intenções da Marvel com essa mudança:

Seus poderes não são emprestados. Não foram um presente. Não foram um acidente!

Com isso, a Marvel pode desvincular a Capitã Marvel do Capitão Marvel em definitivo. Carol Danvers não é mais uma “versão” feminina de Mar-Vell, mas alguém com uma origem própria.

Empoderamento feminino!

O quanto disso estará no filme? Eu apostaria: tudo!