Com algum alarde, foi anunciado meses atrás a realização do Woodstock 50 um festival comemorativo dos 50 anos do Festival de Woodstock, os três dias de paz, amor e música que mudaram a história cultural do século XX. Promovido pelo mesmo Michael Lang, se levantou a expectativa de um grande festival que reúne a nata da música atual ao lado de grandes nomes do passado, clássicos, que reincorporassem o espírito do show original. Ontem, Lang divulgou o line-up e o cartaz da festa e o resultado é… decepcionante.

Em essência, não há nada demais além da prévia que já havia vazado à imprensa.

O Woodstock 50 carece de nomes de peso de grande amplitude e falha ao conseguir reunir muitos nomes clássicos relevantes.

Vamos aos nomes:

  • Dia 16 de agosto: The Killers, Miley Cyrus, Santana, The Lumineers, The Racounteurs, Robert Plant & the Sensacional Space Schifters, John Forgety, John Sebastian; dentre outros.
  • Dia 17 de agosto: Dead & Company, Chance the Rapper, Black Keys, Sturgill Simpson, Greta Van Fleet, Portugal the Man, Leon Bridges, Gary Clark Jr., David Crosby & Friends; dentre outros.
  • Dia 18 de agosto: Jay Z, Image Dragons, Halsey, Cage the Elephant, Brandi Carlie, Common; dentre outros.

Lista mistura alguns “queridinhos” do momento, umas bandas indies interessantes, astros pop e um ou outro artista clássico perdido. É pouco para um festival com a envergadura de Woodstock. Até o line-up da edição de 1999 é muito melhor do que esta!

Talvez, o maior problema do Woodstock 50 seja qual foco lhe dar. Se é para atrair o público da música pop, Miley Cyrus, Jay Z e Chance the Rapper é muito pouco. Se é para levar o público jovem que gosta de bandas como Image Dragons ou Halsey tá desmilinguido. Se é para forçar o vínculo com o evento de 50 anos atrás, nomes como David Crosby (que tocou com o Crosby, Stills, Nash & Young), Santana (sua estreia para o grande público), John Sebastian (que tinha feito sucesso no Lovin’ Spoonfull, mas tocou solo no Woodstock de improviso, para dar uma força à organização quando a chuva deu uma pane elétrica e somente apresentações acústicas era suficientemente seguras, no segundo dia) e John Forgety (que tocou com o Creedence Clearwater Revival) não dá sustância o suficiente. E se é – como disse Lang certa vez – para convidar artistas clássicos que não tocaram no festival original, mas estão relacionados ao clima ou à época, só o Robert Plant (que na época estava no vocal do Led Zeppelin) sozinho não faz milagre.

John Sebastian se apresenta no Woodstock 1969.

Claro, ninguém esperava que o line-up de 2019 se aproximasse do de 1969, quando Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who, Joe Cocker, Crosby, Stills, Nash & Young, The Band, Sly & the Family Stone, Grateful Dead, Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, Joan Baez, Santana, criaram um fenômeno cultural sem precedentes: 500 mil pessoas para um festival que esperava 30 mil, que mesmo sem qualquer infraestrutura de apoio conseguiu se manter na base da amizade, da solidariedade (que incluiu a cidade de Bethel se mobilizando para alimentá-los) e da paz e amor, numa festa que, apesar da superlotação, da ausência de infraestrutura, do caos do trânsito que deixou as estradas da região inutilizadas, da chuva torrencial que criou um mar de lama e o risco de pane elétrica, não causou violência nem mortes nem tragédias. Ao contrário, um clima de solidariedade, de criar um mundo melhor.

Jimi Hendrix encerrou o Woodstock.

Óbvio que tudo isso teria sido pouco se o disco – um álbum triplo sensacional – e (mais ainda) o filme não tivessem divulgado esse fenômeno e essa mensagem ao mundo inteiro. Porém, foi feito e Woodstock virou um marco maior do que o festival em si.

Joe Cocker foi uma das revelações do Woodstock 1969.

Talvez, falte ao Woodstock 50 mais nomes de peso do rock clássico se a ideia era “reforçar o espírito do original”. Não se trata de repetir o festival de 1969 – The Who ainda está por aí fazendo shows, mas Hendrix, Joplin e Cocker estão mortos. Porém, há mais outros que podiam ocupar essas vagas.

Nesse sentido, o Dessert Trip Festival talvez tenha sido mais bem sucedido ao não ter tido medo de se assumir como “saudosista” e construir três dias de música com nomes como Rolling Stones, Paul McCartney (dos Beatles), Bob Dylan, Neil Young, The Who e Roger Waters (do Pink Floyd). Sem sombra de dúvidas esses artistas celebram o espírito de Woodstock, embora somente Who e Young (como parte do Crosby, Stills, Nash & Young) realmente tocaram no festival original.

Ao equilibrar seus artistas visando seu público – ou melhor dizendo, o maior público possível – o Woodstock 50 termina realmente sendo um retrato do que é o mercado musical em 2019.

Em 2019, o mundo é deveras diferente de 1969. Sai a Guerra Fria e do Vietnã e entra o terrorismo. Sai a luta pelos direitos civis e entra o avanço da extrema direita. Sai a lógica de uma revolução cultural e entra a negação da ciência e teorias conspiratórias, de como a Terra é plana e o passado foi construído por ETs.

É já dá para entender o Woodstock 50…