Paul McCartney One On One tour 2016

O ex-membro dos Beatles, Paul McCartney, tem agora um novo ponto de vista sobre o filme da banda, Let it Be, que foi um marco sobre seus últimos momentos. Em uma entrevista à revista americana Billboard, o músico falou como o trabalho de relançamento do documentário – previsto para o ano que vem – mudou sua perspectiva sobre a obra.

Falando à Billboard, McCartney disse:

Porque era tão próximo da ruptura dos Beatles, minha impressão do filme era de um momento triste. O diretor [Peter Jackson] me disse que a impressão geral é de amigos trabalhando juntos.

Peter Jackson, diretor de O Senhor dos Anéis, é o responsável por montar um novo filme sobre a experiência do Let it Be, a partir das 58 horas de filmagens originais realizadas em 1969 por Michael Lindsay-Hogg. O diretor já tinha falado sobre sua surpresa ao assistir o material e perceber que a lenda do “clima pesado” sobre as gravações não ser exatamente verdadeira, e que as imagens mostravam uma banda se divertindo junta.

Os Beatles em Twickenham, onde as sessões começaram.

O filme Let it Be original, de Lindsay-Hogg, lançado em 1970, de fato, tem uma atmosfera mais escura e soturna em sua metade inicial, enquanto os Beatles estão ensaiando no estúdio cinematográfico de Twickenham; mas na parte final, (sem explicações na trama) a banda se muda para o Apple Studios, que pertenciam a eles próprios, onde o clima fica bem melhor, ainda mais com a adesão do tecladista Billy Preston, como músico acompanhante. O clima em geral é sério, uma banda trabalhando em canções novas, mas tem vários momentos amenos.

O ponto mais baixo do filme é uma ácida discussão entre Paul McCartney e George Harrison, na qual este último diz cheio de mágoa e ressentimento: “eu toco o que você quiser. Ou não toco nada, se você quiser, também. O que você quiser que eu faça, eu faço. Apenas decida o que quer”.

Harrison e Lennon nas sessões de Let it Be.

Este é um elemento histórico importante dentro dos Beatles, porque a insatisfação de Harrison com o pequeno espaço para suas composições dentro do repertório da banda foi um dos principais motivos para a ruptura definitiva. No álbum seguinte, Abbey Road, Harrison entregou duas das melhores canções do grupo: Something e Here comes the sun. Depois das gravações, em uma reunião da banda registrada em fita e revelada pelo historiador Mark Lewisohn, John Lennon sugere que o álbum seguinte tenha mais composições de Harrison, distribuindo igualmente quatro faixas para ele, Lennon e McCartney; algo que este último se opõe.

Os Beatles no clipe de Let it Be.

Porém, enquanto filme, Let it Be é muito frágil. Com apenas 90 minutos, o documentário é mal resolvido, pois sem uma narração em off, consiste apenas em um amontoado de cenas desconexas exibindo a banda ensaiando e com poucos momentos de diálogo entre os membros. As mudanças de Atos, marcados pelas sessões no Twickenham Studios, no primeiro; as sessões na Apple no segundo; e o famoso show no telhado no terceiro; portanto, são bruscas e não têm explicação, com o filme ficando sem um roteiro bem definido.

O projeto Let it Be foi idealizado pelos Beatles como um tipo de retorno às raízes. A ideia seria ter um filme para a TV com os ensaios para um show da banda e lançar o concerto como um disco ao vivo e inédito. Porém, desde o início, em 02 de janeiro de 1969, o projeto foi cercado de problemas, com a atmosfera fria de Twickenham e o horário das filmagens (que seguiam as regras do sindicato dos trabalhadores exigindo a realização em horário comercial, enquanto os Beatles estavam acostumados a gravar seus álbuns de noite e de madrugada), além dos grandes problemas internos dentro da banda. Além da discussão com McCartney registrada no filme, uma briga com John Lennon fez Harrison decidir sair da banda, no dia 10.

Billy Preston toca com os Beatles.

O projeto foi suspenso por alguns dias, com as tentativas de reingressar Harrison, que impôs como condição ao seu retorno a mudança de local (e foi preciso, assim, improvisar um estúdio na Apple, projeto já existente, mas até então ainda não realizado) e ainda trouxe Billy Preston como músico acompanhante, o que serviu para aliviar a tensão.

A banda mais animada já no Apple Studios.

Retomadas no dia 22 de janeiro, os ensaios prosseguiram por um pouco mais de uma semana, mas neste ponto, a banda já tinha desistido de realizar o concerto e simplesmente não sabia mais para quê serviam aqueles ensaios e filmagens. Por fim, no dia 29, o grupo decidiu simplesmente subir no telhado do prédio da Apple, no centro de Londres, e fazer um concerto lá mesmo, ao ar livre como uma forma de criar um final para o filme.

Os Beatles no Show do Telhado.

A banda subiu no telhado no dia 30 de janeiro e realizou o Rooftop Concert, que foi a última aparição pública dos Beatles. Eles tocaram por 45 minutos, repetiram algumas canções para fins cinematográficos, mas foram barrados pela polícia, que proibiu aquele volume tão alto em plena hora do almoço no alto do inverno londrino.

As filmagens foram encerradas no dia 31, com a banda promovendo execuções definitivas das canções que vinham ensaiando e não puderam tocar no concerto.

Com isso, Let it Be, o filme, ficou restrito aos ensaios da banda e ao concerto no telhado como encerramento; mas como não haveria o disco ao vivo, a banda decidiu entregar o áudio das gravações ao engenheiro de som e produtor Glyn Johns (um dos mais famosos dos anos 1960) para montar um álbum. Johns trabalhou no material por oito meses e entregou várias versões-testes à banda, mas os Beatles nunca ficavam satisfeitos, porque não gostava do clima das gravações. Nas versões iniciais, era um álbum duplo, que trazia as canções e alguns improvisos e até covers, mas foi sendo reduzido gradativamente.

Ao mesmo tempo, os Beatles voltaram ao tradicional estúdio Abbey Road e gravaram o álbum que teria esse nome, com um repertório totalmente novo. Abbey Road terminou sendo lançado em setembro de 1969, bem antes de Let it Be chegar às lojas.

No fim das contas, Lennon e Harrison decidiram contratar o produtor norteamericano Phil Spector para produzir sua versão das sessões de janeiro. Spector modificou o som das gravações, remixou e até adicionou sons de orquestra e coro em algumas canções (indo contra o espírito original de ser um produto simples para ser tocado ao vivo). A dupla ficou satisfeita e McCartney deu de ombros.

A primeira edição de “Let it Be” veio em um box com um livro de fotografias.

Mas antes de Let it Be , o álbum,chegar às lojas, McCartney lançou seu primeiro álbum solo, em abril de 1970, e aproveitou o lançamento para anunciar o fim dos Beatles. Assim, quando o álbum da banda chegou às lojas, em maio de 1970, já era um material póstumo.

O filme foi lançado concomitante, dirigido por Michael Lindsay-Hogg e exibido nos cinemas (e não na TV como inicialmente pensado), chegando a ganhar o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original.

John Lennon aparece alienado e distante nas filmagens.

Contudo, talvez pelos motivos comentados acima sob a falta de “linha narrativa” ou pelo mal estar que causava na própria banda, o filme Let it Be raramente foi relançado depois disso. Nos anos 1980, chegou a ser lançado em VHS em uma tiragem limitada e no início dos anos 1990 ganhou uma versão em Vídeo-Laser (aqueles CDs de vídeo pais dos DVDs), mas apenas no Japão. O filme jamais foi lançado em DVD ou Blu-ray e hoje é uma raridade.

Nos últimos anos, os Beatles têm relançado seus principais álbuns em caixas especiais, cheias de material bônus, com livros e fotos, na medida em que completam 50 anos de lançamento, como Sgt. Peppers (2017), White Album (2018) e Abbey Road (2019). É esperado que Let it Be sofra o mesmo tratamento no primeiro semestre do próximo ano.

Nada foi falado ainda sobre o álbum Let it Be, mas já foi confirmado a nova versão do filme – ou seja, um novo filme – sobre o material dos ensaios, dirigido por Peter Jackson. Também já se comentou que o longa original de Michel Lindsay-Hogg será relançado remasterizado (sendo a primeira vez que ganha tratamento digital para o mundo todo).

Os fãs têm esperança de que o box de Let it Be, o álbum, venha recheado de material novo, pois os Beatles improvisaram muito nas sessões e tocaram vários covers ou canções antigas do repertório da banda (nem todas com seriedade, infelizmente), algo que é conhecido na pirataria pelos fãs hardcore da banda, mas nunca foi mostrado ao grande público com poucas exceções lançadas em The Beatles Anthology III, na série de discos de raridades dos anos 1990.

Relançamento de Abbey Road leva os Beatles de volta às paradas!

Conheça a Discografia Completa dos Beatles.