Três notícias para agitar o mundo dos Beatles essa semana. Primeiro, o álbum Revolver, clássico lançado em 1966 e que frequentemente ocupa a posição número 1 entre os “melhores álbuns de todos os tempos” irá ganhar uma versão remixada, seguindo a lista que já resultou nos maravilhosos relançamentos de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (2017), The White Album (2018), Abbey Road (2019) e Let it Be (2022).

Segundo a Variety, o relançamento de Revolver foi confirmado pela Apple Corps., a empresa da banda, em parceria com a Universal Music (atual detentora dos direitos das gravações) em um box set que contará, como de costume, uma remixagem comandada por Giles Martin, e que a data de lançamento deve ocorrer entre setembro e dezembro.
Giles Martin – que é filho do produtor das gravações originais dos Beatles, George Martin, já falecido – chegou a comentar o trabalho com Revolver em 2021, dizendo que queria fazer algo diferente do que foi feito com os outros quatro lançamentos já conhecidos:
Queria fazer algo inovativo de verdade [com Revolver] (…) em vez de apenas um trabalho de remasterização. Não faz sentido apenas fazer dinheiro ou aumentar vendas ou porque já fizemos com os outros [discos]. É mais importante que façamos pelo motivo certo.

Em outras ocasiões, Martin já havia comentado que não era muito favorável à remasterização dos álbuns da primeira fase dos Beatles, lançados entre 1963 e 1966, porque como foram gravados apenas em 2 ou 4 canais não se beneficiariam de verdade do trabalho de uma remixagem e remasterização tal qual o material posterior que já compôs o conjunto de relançamentos.
Todavia, em um álbum repleto de efeitos sonoros como Revolver, o produtor poderia fazer um uso mais criativo da remixagem, como já fez no longínquo Love (2006), que era a trilha sonora do espetáculo homônimo do Cirque du Soilé com canções do quarteto de Liverpool. Na obra, Martin combinou sem pudor trechos de canções distintas dos Beatles, misturando instrumentais de músicas diferentes para criar versões completamente diferentes das clássicas faixas da banda. Foi um resultado surpreendente.
Giles Martin poderia fazer algo similar com Revolver e seria bem-vindo. Afinal, o álbum já foi remasterizado com a mais alta tecnologia disponível em 2009 com todo o catálogo do grupo.

Aliás, somos totalmente favoráveis que Martin faça isso inclusive nos outros álbuns. Afinal, a tecnologia digital poderia possibilitar que se criasse versões novas de algumas faixas dos Beatles, como já foi feito em uma ou outra ocasião. Por exemplo, durante as sessões do projeto Get Back/Let it Be – que foram o objeto do aclamado documentário The Beatles: Get Back lançado este ano – a banda tocou uma versão primitiva da faixa She comes in through the bathroom window, que terminaria no álbum seguinte, Abbey Road. Enquanto a versão oficial é um rockão rápido, aquela primeira versão – apenas um ensaio – é lenta e elegante e ficou muito interessante.
Aparentemente, o grupo nunca chegou a finalizar ou organizar aquela versão, afinal, era apenas um ensaio. Um trecho dela aparece no documentário e a vemos incompleta (a banda para no meio sem terminar, enquanto discutem o arranjo) no box set remasterizado do álbum Let it Be. Contudo, anos atrás, no Vol. 3 da série The Beatles: Anthology (1996), o produtor George Martin fez o que devia: juntou os melhores trechos de takes diferentes e montou uma versão completa da canção em sua versão lenta. E ficou maravilhoso!

Gostaríamos que isso fosse feito com outras faixas, em especial, com a versão dos Beatles para All things must pass, canção de George Harrison que também ensaiaram várias vezes no mesmo projeto Get back, mas não chegaram a finalizá-la em uma versão definitiva, ficando inédita, e terminando por fim por compor a faixa-título do primeiro álbum solo de George Harrison em 1970, após o fim do grupo. No box set de Let it Be há uma versão também inacabada e incompleta da faixa em mono (ou seja, todos instrumentos e vozes em um único canal). Mas sabemos que há gravações em multicanais da canção e que, com o uso da tecnologia, poderia se compor uma versão alternativa unindo takes diferentes tal qual foi feita com aquela outra.
O que poderia vir dessa tática no material de Revolver?

Lançado em agosto de 1966, Revolver foi o mais importante e revolucionário álbum que os Beatles lançaram até aquela época. A banda expandiu não apenas as estruturas de suas canções, como incorporou um uso inventivo e revolucionário das técnicas de estúdio, criando um som novo e cheio de efeitos sonoros em faixas imortais, como Taxman, Eleanor Rigby, I’m only sleeping, Yellow submarine, She said, she said, Got to get you into my life, And your bird can sing, Tomorrow never knows e mais, além do single derivado, com Paperback writer e Rain.
O disco marcou também o fim das excursões dos Beatles, que não viam condições tecnológicas de reproduzir sua nova sonoridade nos palcos da época e, cansados da loucura da beatlemania, fizeram sua última turnê em agosto de 1966, na época do lançamento do álbum, sem nenhuma faixa do disco no repertório e realizando seu último show oficial no Candlestick Park, em San Francisco, em 29 de agosto de 1966.

Na segunda notícia do pacote, o empresário dos Beatles, Brian Epstein, foi homenageado com uma estátua na cidade natal deles, Liverpool, noticiou a BBC. A escultura de bronze foi instalada próxima onde ficava a loja NEMS, pertencente à sua família, na Mathew Street, no bairro Whitechapel, no centro da cidade, mesma rua em que fica o The Cavern Club, em que a banda tocava antes da fama. A inauguração se deu no 55º aniversário de sua morte, em 27 de agosto de 1967 e foi presenciado por uma multidão que cantou canções dos Beatles e pelo prefeito de Liverpool, Steve Rotheram.
A estátua foi esculpida por um time de artistas liderados por Jane Robbins, que aliás, é prima do ex-Beatle Paul McCartney.

Advindo de uma próspera família judia, Brian Epstein expandiu os negócios do pai, transformando a loja NEMS, não apenas numa revendedora de móveis ou utensílios domésticos, mas na maior loja de discos do norte da Inglaterra anos antes de saber que os Beatles existiam. Epstein tinha uma queda pela vida artística, pois fizera teatro na juventude, antes de abandoná-lo para cuidar dos negócios.
Segundo a lenda, curioso com o grande número de fãs que vinham à sua loja comprar um disquinho de uma banda chamada The Beatles que fora lançado apenas na Alemanha, (não era comum um artista de Liverpool fazer sucesso naqueles tempos), Epstein terminou descobrindo que a tal banda tocava todo dia na hora do almoço no The Cavern Club, ali mesmo, há um quarteirão de sua loja. Ao assistir a um show da banda no outono de 1961, ficou impressionado com a música forte e a personalidade carismática do grupo liderado por John Lennon e Paul McCartney, que inclusive, compunham suas próprias canções, e decidiu empresariá-los.

Sob o comando de Epstein, os Beatles conseguiram o contrato com o selo Parlophone do produtor George Martin, da EMI Records, a maior gravadora do país, e lançaram sua carreira fonográfica em 1962. O sucesso permitiu a Epstein a lançar uma verdadeira trupe de artistas e bandas de Liverpool, como Gerry and the Peacemakers, Billy J. Kramer and the Dakotas, Cilla Black e The Fourmost, que fizeram sucesso no país inteiro, dando origem ao movimento chamado Mersey Beat e à beatlemania que se espalhou pelo planeta.
Epstein empresariou a carreira dos Beatles até sua morte por uma overdose acidental de um tranquilizante, em 1967. Ele foi enterrado no cemitério judaico de Liverpool, Kirkdale. Um filme sobre sua vida está sendo atualmente produzido. Chamado The Midas Man é estrelado por Eddie Marsan e Emily Watson.

Por fim, também em Liverpool, foi anunciado o leilão da casa em que viveu a mãe de John Lennon, em Bloofield Road. A casa de três quartos e dois andares é importante à história dos Beatles, porque foi o palco dos primeiros ensaios dos Beatles.
John Lennon nasceu em 09 de outubro de 1940, filho de Alfred Lennon e Julia Spencer, mas o casal se separou quando o rapaz tinha apenas dois anos de idade. Após uma série de incidentes familiares, a irmã mais velha de Julia, Mary Smith – conhecida por todos como Mimi – decidiu tomar a guarda do pequeno John para si e o criou até a idade adulta.

Julia, por sua vez, se casou com John “Bobby” Dykins e se mudou para Bloofield Road em 1950, onde criou as filhas Julia Baird e Jacqueline Dykins, meias-irmãs de Lennon. O pequeno John cresceu meio afastado da mãe, considerada uma “má influência” (a casa de Bloofield Road era chamada por Mimi de A Casa do Pecado/ The House of Sin, e o nome pegou), mas se reaproximou de Julia na adolescência, quando descobriu que ela gostava de música e de rock and roll. Além disso, apesar de John ter aprendido a tocar gaita sozinho e ter aulas de piano na escola, como a maioria das crianças da época, aprendeu a tocar banjo com aulas dadas por sua própria mãe, o que o levou a conseguir seu primeiro violão e tocá-lo usando a técnica do banjo, o que marcou seu estilo de interpretação na guitarra pelo resto da carreira.

No verão de 1956, Lennon montou sua primeira banda, The Quarrymen, e como Mimi não permitia que “fizessem barulheira em sua casa”, Lennon reunia seus companheiros na casa de Julia, em Bloofield Road e faziam seus ensaios lá. Paul McCartney entrou para o grupo em 1957 e George Harrison em 1958, e eles mudaram o nome para The Beatles em 1960. Mas mesmo antes disso, o grupo completo – com guitarras e bateria – ensaiava no banheiro da casa de Julia, porque a acústica era boa.
Julia Spencer Lennon Dykins morreu atropelada por um motorista bêbado na esquina da casa de Mimi e John em Menlove Ave (as duas irmãs se conciliaram por causa de John), em 15 de julho de 1958. Esta casa hoje é um museu que preserva a decoração que a casa tinha nos anos 1950 e é uma atração turística do roteiro dos Beatles em Liverpool. E a casa de Julia pode ter o mesmo destino ou algo similar.
O leilão de Bloofield Road se encerrará em 26 de setembro e a Omega Auctions espera um bom preço pelo imóvel e tem esperança de que ele se constitua como mais um endereço disputado dos fãs dos Beatles que visitam a cidade. A inspiração é a casa da infância de George Harrison, que foi recentemente vendida e transformada em um imóvel temático do ex-Beatle disponível para o aluguel no Airnb.

