Após uma imensa expectativa após o gancho final de Vingadores – Guerra Infinita, chega aos cinemas Vingadores – Ultimato, com a difícil missão de encerrar de modo satisfatório os 11 anos e 22 filmes do Universo Marvel nos Cinemas, criado pelo Marvel Studios por meio das chamadas Fase 1, 2 e 3 e, agora, oficialmente nomeadas A Saga do Infinito.

Endgame (que é o título original e podia ter sido traduzido como Fim de Jogo, que teria sido melhor) realmente é um final sensacional à saga dos Vingadores no cinema, pelo menos, de um final relacionado aos seus 22 filmes e isto em si já é um grande feito se não cinematográfico, pelo menos industrial. É um filme emocional particularmente para aqueles que acompanharam essa jornada de perto e se conectaram a esses personagens e suas jornadas.

Claro, vem em uma embalagem absurda, com 3 horas de duração e uma grande quantidade de personagens em uma trama mirabolante, mas os irmãos Joe e Anthony Russo fazem um esforço hercúleo para amarrar as pontas e deixar as coisas em um nível satisfatório. Então, Ultimato se torna uma grande jornada emocional para o fã da Marvel. Aventura, emoção, muitos risos e, claro, muito choro, muito choro mesmo. Na sessão em que assisti, os momentos finais foram carregados por soluços do público, uma coisa impressionante de assistir.

Mais do que Guerra Infinita ou mesmo seu antecessor, Ultimato é encimado no trio Capitão América, Homem de Ferro e Thor, com um aporte significativo da Viúva Negra, que é mais humanizada neste longa do que em todos os outros das quais participou.

Ela representa a dor e o desespero daqueles que perderam os amores e amigos no estalar de dedos de Thanos, a chamada Dizimação, e também o espírito da missão rotulada pelo Capitão América (e está no trailer): custe o que custar! Para alguém que foi uma espiã e assassina em boa parte de sua vida, Natasha Romanoff tem as qualificações certas para isso.

E Scarlet Johansson recorda ao público porque era aquela atriz celebrada no início da carreira, fazendo filmes com grandes diretores como Woody Allen. Mostra que Natasha tem coração, apesar da frieza que prefere demonstrar, encarnando muito bem essa dualidade da personagem.

Thor, para mim, é um dos maiores problemas de Ultimato, não por seu arco dramático, nem pela interpretação de Chris Hemsworth, mas pela abordagem. Por sua natureza, o deus do trovão é um dos personagens mais difíceis do campo dos Vingadores, ao lado do Hulk. Thor – Ragnarok oxigenou a carreira do herói ao apostar na comédia, algo que agradou imensamente seu intérprete e fez um grande sucesso; mas Guerra Infinita mostrou que o filho de Odin se sai melhor em ambientes dramáticos e pesados. Ao desprover Thor de humor, Guerra Infinita o tornou um dos personagens mais interessantes daquele filme: alguém corroído pela raiva, tristeza e a sensação, como ele próprio verbaliza, de que alguém que perdeu tudo não tem nada a temer.

Ultimato acrescenta um elemento a este caldeirão: o remorso! Afinal, Thor quase matou Thanos ao atingi-lo com o Rompe-Tormentas (Stormbreaker), a arma que precisou fabricar para a luta, mas falhou. O próprio titã louco lhe disse que devia ter acertado a cabeça e ao não fazê-lo, não pôde impedir o vilão de estalar os dedos e dizimar metade da vida no universo.

Mas em vez de apostar nesse direcionamento, logo no segundo ato, filme muda a abordagem de volta ao tom cômico e quase histérico de Ragnarok quando se trata de exclusivamente de Thor. Isso diminui o poder e a importância do personagem e ainda o torna algo anômalo dentro do filme, pois sua caracterização exagerada, cômica e “sem noção” o faz destoar do restante do filme e dos demais personagens. Isso não ficou legal. Embora Thor sofra de uma pequena adesão que é até interessante do ponto de vista da representatividade, seu humor à lá Taika Watiti (o diretor de Ragnarok) o transforma nos momentos “vergonha alheia do filme” e isso não era necessário.

O Capitão América ocupa – muito mais do que em Guerra Infinita, onde tem um papel menor – a posição de líder e, de novo, é quem toma a maior parte das decisões importantes. É um homem com uma missão e que sabe o que é necessário para cumpri-la, mesmo que não tenha os meios para tal, pois não é poderoso como Thor, Hulk ou a Capitã Marvel. Mais uma vez, Chris Evans entrega uma performance irrepreensível com o personagem, mostrando como sempre foi o homem certo para o papel.

E, claro, se Steve Rogers é o líder absoluto, Tony Stark é o protagonista máximo. Afinal, foi Robert Downey Jr. quem iniciou toda essa jornada do Marvel Studios ao vestir a armadura do Homem de Ferro com tanta sanha e dedicação que se transformou em um pequeno fenômeno lá atrás, em 2008, criando o hype necessário para permitir a união dos Vingadores em 2012 e a viabilidade (comercial) de se contar a saga que agora se encerra. Como “O Padrinho” de tudo isso, seu personagem constrói um eixo emocional que estrutura o filme, pois mesmo que tenha sobrevivido não somente à luta contra Thanos em Titãs, mas à Dizimação em si, a ele cabe a responsabilidade autoinfligida de tudo o que aconteceu.

O filme acerta ao lembrar que a paranoia de Stark o levou a tentar proteger a Terra de ameaças espaciais após Os Vingadores, o que resultou nos eventos catastróficos em Vingadores – Era de Ultron, que reverberaram também em Capitão América – Guerra Civil. O Homem de Ferro se ressente de que foi freado pelos colegas, em especial pelo Capitão América, no seu intuito, mesmo que tenha dado tudo errado. Mas Thanos não é motivo para tentar algo ainda mais arriscado?

E mesmo que relute em assumir esse papel e procure, tal qual em Homem de Ferro 3, se distanciar de suas armaduras, Stark se vê em circunstâncias das quais não pode escapar de sua missão. E, de novo, sem surpresa, Robert Downey Jr. entrega uma performance arrebatadora, mostrando o ator incrível que ele é. Um dos gigantes de seu tempo, ainda não foi suficientemente reconhecido.

As ligações entre esses personagens e o modo como se percebem e agem neste filme traz o grande tema de Ultimato: família. Esses heróis constituíram uma família e, ao fazer isso, terminaram também prejudicando ou se afastando de suas próprias famílias. Perder metade do universo em batalha é um ótimo incentivo para pensar essas questões e os heróis o fazem, cada qual tendo que encarar a questão por um viés diferente, como Stark, Rogers, Romanoff, Barton e, claro, Nebula.

Os irmãos Russo já tinham mostrado a capacidade de manipular vários personagens, ainda em Capitão América – O Soldado Invernal, aperfeiçoando a técnica em Capitão América – Guerra Civil, mas Ultimato leva tudo a outro nível. A maior parte dos personagens têm arcos específicos a desenvolver e isso é bom. Alguns você nem espera, como Nebula, que tem uma participação importantíssima a toda a trama. Outros eram esperados, como o Gavião Arqueiro que, tal qual em Vingadores – Era de Ultron, ganha um mini-arco dramático para compensar sua ausência nos outros filmes.

Mas a frota de personagens também é um calcanhar de Aquiles, pois uma parte considerável deles é mera figuração e isso tem um peso cinematográfico considerável.

Em termos de trama, é quase impossível falar de Ultimato sem revelar spoilers, então, só podemos dizer que apesar de entregar o que os fãs esperam em boa medida, também o faz de modo surpreendente em escolhas de roteiro inusitadas. Como aconteceu também com Guerra Infinita, a Marvel brinca com a expectativa do fã ao produzir cenas falsas nos trailers que dão dimensões errôneas do que realmente vai acontecer.

Embora tenha 3 horas de duração, o filme mantém nitidamente a estrutura de 3 Atos, adicionados de 2 pequenos prólogos e dois pequenos epílogos. No geral, a trama é bem amarrada de modo que os 180 minutos passam bem, pelo menos na mesma sensação de um filme de 2h30; mas sem sombra de dúvidas, o 1º Ato é bem mais arrastado, focado na melancolia das perdas de Guerra Infinita e, talvez, pudesse ter sido enxugado um pouco. O 2º Ato traz o impulso da trama, a estratégia para vencer Thanos, o que serve, também, como uma grande autohomenagem ao universo construído até ali, e funciona até melhor do que eu esperava enquanto trama.

E o 3º Ato é a espetacular batalha final, sem dúvida, a melhor de todos os filmes dos Vingadores. Não apenas pela grandiosidade – uma escala ainda maior do que a de Guerra Infinita – mas pela boa execução. Claro, muitos estão lá apenas como peões a lutar, mas há 3 ou 4 personagens diferenciais nesse momento e quando o foco se dá neles, as coisas funcionam muito bem.

Além disso, a batalha entrega praticamente tudo o que os fãs dos Vingadores dos quadrinhos queriam ver num filme e ainda não tinha sido mostrado. É algo bonito de ver. E o público das pré-estreias – que é mais, digamos, especializado, simplesmente foi à loucura com essas cenas, gritando, urrando, aplaudindo.

Vale apenas aproveitar a deixa para falar de Thanos. Endgame mostra porque o vilão é a maior ameaça que os Vingadores precisam enfrentar. Se ele já parecia terrível em Guerra Infinita, Ultimato o mostra mais ainda como ele realmente é: praticamente invencível.

Ultimato é um filme de vingança. Um filme da vingança dos heróis, dos mocinhos. Não é um sentimento bonito. Mas o nome do grupo é Vingadores, não é? É uma situação limite, desesperadora: metade do universo morreu! Então, somente um plano extremo pode ser ativado. Mas Thanos não venceu a batalha em Guerra Infinita à toa.

Não bastassem as surras homéricas que os heróis tomam (de novo!), Endgame ainda mostra outras facetas psicológicas de Thanos, que o tornam ainda mais terrível. A abordagem ao personagem não é completa como em Guerra Infinita (que afinal, era um filme do Thanos, não dos Vingadores), mas dá espaço para mostrar que vilão incrível ele é.

No fim, Ultimato é uma grande jornada ao mundo do Universo Marvel dos Cinemas e uma autocelebração disso. Enquanto filme, enquanto peça cinematográfica, não é melhor do que Guerra Infinita, mas sem dúvidas é mais grandioso, e isso conta. Também tem as dores e delícias de encerramento de saga – que por vezes têm uma “síndrome de origem” invertida – e a necessidade de fechar várias pontas soltas, de amarrar várias histórias ao mesmo tempo em que precisam proporcionar “participações especiais” que deem a todos seu papel, também trazem um custo que não se limita à metragem do longa.

Neste sentido, Endgame funciona maravilhosamente para o fã hardcore do Marvel Studios, mas o impacto no público em geral pode ser ligeiramente menor, porque está muito calcado na sentimentalidade e conexão com os personagens que nem todo o público é capaz de ter. Mas parece que os Russo estão cientes disso ao proporcionar um final cataclismático e grandioso, seguido de um grande golpe emocional que deve pegar a todos, mesmo os espectadores mais casuais.

Afinal, apesar das pessoas gostarem de ver o Hulk e o Thor em ação, é Tony Stark, o Homem de Ferro, e Steve Rogers, o Capitão América, quem se construíram como o coração e o cérebro desse universo, e no fim das contas, Ultimato é sobre eles dois. Embora dividam os créditos e a ação com os demais personagens, todo o eixo do filme gira em torno deles dois e da relação entre os dois. Na trama, cada um percebe – por motivos diferentes – o seu papel e a sua função na luta para garantir a vitória e assumem com garra tal papel.

Não à toa, o filme começa e termina desenvolvendo a ambientação em torno deles, e com isso, garante que não apenas os fãs, mas o público em geral permaneça conectado ao longo das 3 horas de filme.

No fim, Endgame encerra o jogo, mas como todo jogo, deixa consequências que continuarão a ser exploradas pela Marvel a partir da Fase 4 de sua história, iniciando, talvez, uma nova saga, já que A Saga do Infinito se encerra aqui.

Capitã Marvel é o exemplo de nova franquia aberta que deve se desenvolver daqui em diante e, talvez, somente talvez, daqui há alguns anos, quatro ou cinco, até possamos ver os Vingadores de novo nos cinemas.

Por fim, não custa avisar: Endgame encerra o ciclo dos 22 filmes da Marvel, portanto, não há uma cena pós-créditos pela primeira vez nos longas do estúdio. Mas faz sentido.

Avengers – Endgame é dirigido por Joe e Anthony Russo, com roteiro de Christopher Marcus e Stephen McFeely. O Elenco traz Robert Downey Jr. (Tony Stark/ Homem de Ferro), Chris Evans (Steve Rogers/ Capitão América), Chris Hemsworth (Thor), Scarlet Johansson (Natasha Romanoff/ Viúva Negra), Mark Ruffalo (Bruce Banner/Hulk), Jeremy Renner (Clint Barton/ Gavião Arqueiro), Brie Larson (Carol Danvers/ Capitã Marvel), Karen Gillan (Nebula), Bradley Cooper (voz de Rocket), Paul Rudd (Scott Lang/ Homem-Formiga), Don Cheadle (Col. Jim Rhodes/ Máquina de Combate), Josh Brolin (Thanos), dentre muitos e muitos outros.

O lançamento no Brasil foi em 25 de abril de 2019.