No dia 10 de abril de 1970 rodou o mundo a notícia do fim da maior de todas as bandas: os Beatles chegaram ao fim. Aproveitando que a data completa 50 anos, o HQRock traz um compilado sobre como o maior fenômeno músico-cultural dos anos 1960, o conjunto mais influente da história do rock, chegou a um ponto final tão definitivo que jamais houve retorno. Nunca uma reunião.

Muitas explicações simplistas circulam tentando explicar por que os Beatles romperam. “Foi por culpa de Yoko Ono“, dizem muitos. Mas a esposa de John Lennon nem de perto foi a causa real do término da banda. Pois a realidade é sempre mais complexa do que aparenta e grupo tão forte e coeso como os Beatles não se separa apenas por um motivo. Nem por dois!

O HQRock monta aqui, portanto, uma cronologia dos fatos que levaram ao fim dos Beatles, explicando como aquela unidade que foi chamada de quarteto de Liverpool ou “o monstro das quatro cabeças” foi gradativamente se separando, fraturando internamente, até que permanecer unido se tornou simplesmente possível.

E sim, foi um longo processo que levou ao fim da banda, rusgas, brigas, insatisfações e diferenças que foram crescendo e acumulando ao longo dos anos.

Até que veio o fim, quando em 10 de abril de 1970, Paul McCartney divulgou uma “entrevista” (criada por ele mesmo) para divulgar seu primeiro álbum solo e proferiu a sentença de que o grupo estava separado. O mundo ficou comovido e os músicos nunca voltaram atrás.

Num mundo em que o público está acostumado a ver bandas clássicas (antigas) se reunindo sazonalmente e artistas fazendo “turnês de despedida” uma, duas ou três vezes na vida; a ideia dos Beatles jamais ter se reunido após o fim é não somente estranha, mas quase desesperadora.

E as chances de ver isso acontecer acabaram completamente 10 anos após o término do grupo, com o assassinato de John Lennon em 1980, por um fã com distúrbios mentais.

Os Beatles ao vivo em 1964: disco relançado.

The Beatles, a mais importante banda de rock

Antes de fazermos nossa cronologia do fim da banda, cabe uma contextualização dos Beatles e sua importância.

John Lennon à frente dos Quarrymen em 1957.

O marco zero da carreira dos Beatles foi em 1956, quando um John Lennon de apenas 15 anos fundou em Liverpool, no norte da Inglaterra, uma banda de garagem com seus colegas de escola chamada The Quarrymen – um trocadilho entre o nome da escola deles (Quarry Bank High School) e a palavra pedreiro (quarryman). Após um ano tocando em quermesses e festinhas, Lennon convidou Paul McCartney para ingressar no time, por ser um músico mais habilidoso. A dupla Lennon e McCartney não apenas criou uma grande conexão musical, como também passou a compor canções próprias, dando um diferencial ao grupo.

Os Quarrymen com McCartney e Lennon no centro.

Precisando de um guitarrista solista, em 1958, McCartney indicou um colega de sua escola, George Harrison, que foi aceito após uma audição de Lennon, e os Quarrymen começaram um processo de maior profissionalização, tocando em bailes e clubes. Pelos próximos dois anos, o grupo passou a ter uma série de membros itinerantes, mantendo-se apenas o núcleo de guitarras, com Lennon, McCartney e Harrison, até conseguirem embarcar para uma longa temporada em Hamburgo, na Alemanha, em 1960, tocando em inferninhos e se tornando ainda mais profissionais, adotando finalmente o nome The Beatles – um trocadilho entre besouros (beetles) e batida musical (beat).

Os Quarrymen já com McCartney, Harrison e Lennon, com o baterista Colin Hanton atrás.
Os Beatles como quinteto em Hamburgo, ainda antes da entrada do baterista Ringo Starr.

Entre idas e vindas entre Hamburgo e Liverpool, o grupo ganhou uma horda de fãs e começou a ficar bastante popular na região norte da Inglaterra, lotando seus shows no The Cavern Club.

Os Beatles no The Cavern Club, em 1962.

Isso chamou a atenção do empresário Brian Epstein, em 1961, que assinou um contrato com o grupo e foi atrás de conseguir uma gravadora para eles, numa busca cheia de negativas, mas que culminou com um contrato com o selo Parlophone, da EMI, em 1962, com o produtor George Martin, e lançou seu primeiro compacto, com Love me do, que chegou ao 17º lugar das paradas nacionais, um resultado respeitável para uma banda estreante que compunha seu próprio material. Às vésperas da gravação, os Beatles decidiram demitir o baterista Pete Best e colocaram Ringo Starr em seu lugar, que tocava em outra banda de Liverpool.

Com um rock diferente daquele dos anos 1950, que incorporava elementos do R&B, do Doo-Woo (os grupos vocais de negros dos EUA) e da música folclórica britânica, os Beatles chamaram a atenção do público e da crítica com seu som encorpado, com duas guitarras fortes, baixo alto e bateria rítmica e vocais em coro, com duas ou três vozes; composições originais com harmonia bem estruturada e melodia fluída. A banda também tinha um visual distinto, com os cabelos longos e em franja que ninguém usava na época.

George Martin instruindo os Beatles na sala de controle de Abbey Road, em 1963.

O impacto dos Beatles foi enorme e o grupo virou um fenômeno cultural na Europa em 1963. Foi tanto sucesso que catapultou uma geração inteira de novas bandas britânicas de estilo similar, que foram se acumulando ao longo dos anos, de Rolling Stones a The Who, de Eric Clapton a Led Zeppelin. Esse sucesso chegou aos EUA em 1964 e foi um fenômeno jamais visto, com os Beatles acumulando todos os 5 primeiros lugares da parada da Billboard no mês de abril daquele ano!

Beatles ao vivo no Ed Shullivan Show.

O diferencial dos Beatles em relação aos demais artistas foi que jamais se acomodaram com o enorme sucesso que obtiveram. O grupo funcionou como um difusor da vanguarda, absorvendo elementos da música mais avançada de seu tempo e formatando-os ao paladar do público médio, permitindo seu consumo. E fazia isso com grandes composições de Lennon & McCartney em bons arranjos de rock de meio tempo. Com isso, a banda criou várias inovações na gravação em estúdio – usando experimentações com os sons de guitarras, colagens sonoras, efeitos sonoros, distorção, loops e até gravações de trás para frente.

Capa de Sgt. Peppers, um dos discos mais importantes da história.

Tudo isso culminou nos Beatles sendo a ponta de lança do movimento psicodélico, que encheu o mundo de cores berrantes e uma sonoridade mais experimental e ruidosa, sintetizado no álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967, que foi a obra mais importante, mais influente e mais revolucionária dos Beatles, embora sequer seja o seu melhor álbum, que poderia ser considerado o Abbey Road, de 1969.

Isso gerou canções emblemáticas, como She loves you, A hard days night, Help!, Yesterday, Eleanor Rigby, Lucy in the sky with diamonds, A day in the life, Hey Jude, Come together, Something, Let it be e muitas e muitas outras.

Mas então veio o fim!

O Fim do Sonho

Agora, narraremos os principais fatos que levaram ao fim dos Beatles, mostrando como as relações do grupo se deterioraram ao longo do tempo.

Verão de 1965 – O LSD entra em cena

Uma das grandes marcas da cultura dos anos 1960 foi o uso de drogas e sua influência na produção da arte e o LSD foi o grande motivador do psicodelismo. Os artistas – dentre eles George Harrison – sempre afirmaram que os efeitos ampliavam os sentidos, fazendo os usuários verem cores que não existiam, sons que não ouviam, novas sensações; o que “ampliava” a mente e a percepção, favorecendo novas ideias, novas músicas.

Mas existia um lado obscuro no uso de LSD: como a maioria das drogas, podia levar ao vício e deixar sérias sequelas pelo uso. O LSD, por seu turno, tinha um efeito muito poderoso, para o bem e para o mal, e muitos artistas notáveis ficaram para sempre marcados, e alguns até incapacitados, como Brian Wilson (Beach Boys), Syd Barrett (Pink Floyd) e Peter Green (Fleetwood Mac), que tiveram as carreiras (e as vidas) destruídas pelo abuso de LSD.

John Lennon quase uniu a essa turma.

Lennon e Harrison tomaram LSD pela primeira vez em 1965 por acidente, quando o dentista do grupo os convidou para um jantar e pôs secretamente pílulas da droga no chá dos dois Beatles e suas esposas, Cynthia Powell e Patti Boyd. Mas a despeito desse começo “torto”, Lennon se tornou um entusiasta do LSD e usou a droga abundantemente, ao ponto de durante um período (ao longo do ano de 1967) chegou a tomar todos os dias!

O efeito foi que o “ego” de Lennon foi destruído e ele nunca mais foi o mesmo. Sabe aquele Lennon autoconfiante do início dos Beatles? Ele foi destruído pelo LSD e emergiu um novo músico inseguro, paranoico e menos ativo. Por isso, o compositor diminuiu seu ritmo de produção e, em certo sentido, deixou o espaço para que Paul McCartney se tornasse mais ativo nos anos finais dos Beatles.

Os Beatles ao vivo em 1966.

29 de agosto de 1966 – O Último Concerto dos Beatles

O sucesso tem um preço e para os Beatles foi alto.

As turnês dos Beatles viraram um pandemônio a partir de 1964, quando o sucesso nos Estados Unidos os levou a serem a banda de maior sucesso no mundo. Dali em diante foi a beatlemania: a plateia gritando insistentemente ao longo de todo o concerto; sistemas de segurança reforçados; e muita confusão onde quer que fossem.

Na turnê de 1965, os Beatles começaram a tocar em estádios, mas não havia equipamento de som suficiente para isso; ao mesmo tempo em que a reunião de grandes multidões fanáticas sempre causava graves consequências. Na turnê de 1966 foi um inferno total: embalados pela declaração de Lennon de que os Beatles eram mais famosos do que Jesus Cristo (o que foi tirado de contexto, pois na entrevista era justamente uma crítica à idolatria), a banda foi agredida pela polícia nas Filipinas, assistiu a protestos violentos contra sua presença no Japão e enfrentou plateias e jornalistas hostis nos EUA, inclusive, com ameaças de atentado.

Além disso, o barulho da audiência e a má qualidade do equipamento para dar conta de espaços tão grandes estavam prejudicando a banda ao vivo, que não conseguia mais entregar uma performance satisfatória. Isso ao mesmo tempo em que assumiam uma postura mais experimental em seus discos, usando efeitos sonoros e trucagens de estúdio, impossíveis de reproduzir ao vivo em um palco. O processo foi tão traumático que os Beatles decidiram simplesmente não fazer mais shows e tocaram seu último concerto pago e oficial em 29 de agosto de 1966 no Candlestick Park em São Francisco, na Califórnia.

Particularmente entre John Lennon e George Harrison a sensação causada pelo fim das turnês foi de que a banda também acabaria. Eles seguiram em frente apenas nos estúdios por mais três anos – e verdade seja dita, gravaram a maior parte de seu melhor material dali em diante – mas sem dúvidas, uma fratura grande ficou exposta a partir dali, com cada membro com tempo de sobra para se dedicar a outras atividades e projetos paralelos, mostrando como os Beatles, enquanto instituição, muitas vezes serviam como uma camisa de força.

George Martin ouvindo as gravações ao lado de John Lennon nas sessões de Sgt. Peppers.

Inverno de 1967 – A gravação de Sgt. Peppers

Após um longo período de férias – a maior que teriam na carreira – os Beatles se reuniram nos estúdios da EMI em Abbey Road em novembro de 1966 para gravar o que viria a ser o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, sua obra mais importante, mais revolucionária e de maior impacto, uma revolução cultural de verdade. As sessões seguiram até maio do ano seguinte e o disco chegou às lojas com estardalhaço em 1º de junho de 1967, se tornando o maior sucesso do grupo até ali.

Mas durante as gravações, as cisões da banda ficaram mais evidentes e as novas “atitudes” do grupo ficaram evidentes pela primeira vez: Lennon alienado e ausente pelo uso excessivo de LSD; McCartney compensando a ausência do companheiro com excesso de trabalho e autoritarismo; Harrison desinteressado, relapso e deixando seu trabalho para ser feito pelos outros. Starr permaneceu mais ou menos o mesmo.

Dentro dessa nova realidade, Lennon guardava sua energia para as próprias canções, meio que deixando McCartney tomando conta do resto. Isso minou bastante a troca criativa entre a dupla de compositores. Harrison, preenchido pela filosofia oriental e sua cultura, se via preso a um trabalho burocrático nos Beatles, e particularmente em Sgt. Peppers, realizou um trabalho totalmente coadjuvante, de modo que coube a Lennon e McCartney a realizarem a maior parte das guitarras solo do disco.

27 de agosto de 1967 – A Morte de Brian Epstein

O mais atingido pelo fim das turnês dos Beatles foi o empresário Brian Epstein. Cuidar dos negócios da banda de maior sucesso não eram suficientes para ele, e o grande lance era cuidar das turnês. Epstein sempre cuidou de outros artistas e direcionou sua energia para outras atividades, como a administração do Saville Theatre, um novo teatro para shows de rock, que montou ao lado de Robert Stigwood, que se tornaria um importante empresário também, inclusive de nomes como Eric Clapton.

Mas aparentemente, sua vida ficou mais vazia e sem sentido e Epstein começou a exagerar no uso de álcool e bebidas. Ele sofreu uma overdose na madrugada de 27 de agosto de 1967, provavelmente acidental – a polícia descartou suicídio – e morreu aos 32 anos. Os Beatles estavam no País de Gales, assistindo a um seminário do Maharishi Yogi, o guru indiano que passariam a seguir dali em diante.

Epstein sempre cuidou de todos os negócios dos Beatles e sua ausência foi desastrosa. Embora o empresário tivesse uma empresa, a NEMS, a banda basicamente tratava direto com ele, e seus outros associados, que incluíam Stigwood e, principalmente, o irmão Clive Epstein, não cativaram a simpatia do grupo e as relações de negócios ficaram bem mais difíceis.

Os Beatles com o Maharishi em 1967.

Fevereiro de 1968 – Meditação na Índia

Abalados com a morte de Epstein, perdidos nos negócios e indecisos de que caminho seguir dali em diante, os Beatles decidiram passar seis semanas fazendo um curso de meditação com o Maharishi em Rishikesh, na Índia. Lá, eles meditaram, descansaram, se limparam das drogas (álcool e substâncias eram proibidas) e compuseram uma tonelada de canções nos violões (únicos instrumentos permitidos).

Mas de novo as diferenças estavam postas: Starr não se adaptou ao clima natureba e foi embora após uma semana; McCartney também se deu por satisfeito após duas semanas; e Lennon e Harrison ficaram quatro semanas no total, indo embora após começarem rumores de que o Maharishi havia assediado uma das mulheres.

John Lennon e Paul McCartney em 1968.

14 de maio de 1968 – Os Beatles lançam a Apple Corps.

Ainda em vida, Brian Epstein criou o conceito da Apple como um aglomerado de empresas para melhor investir o dinheiro dos Beatles, mas a ideia só foi para frente após sua morte, com a banda idealizando um conglomerado de empresas que incluiria uma gravadora, um estúdio de cinema e uma editora de livros. Em 14 de maio, John Lennon e Paul McCartney viajaram a Nova York e lançaram a Apple Corps. em uma coletiva de imprensa.

Foi uma boa ocasião para Paul McCartney se reencontrar com Linda Eastman, filha de um poderoso advogado e fotógrafa de astros de rock. A dupla já tinha se encontrado e “ficado” na festa de lançamento do álbum Sgt. Peppers, um mais de um ano antes e, talvez, tenha havido outros encontros, embora oficialmente, McCartney ainda namorasse a atriz Jane Asher, seu par desde 1964.

Yoko, John e Paul em 1968.

19 de maio de 1968 – Yoko Ono entra em cena

Na volta dos EUA, John Lennon aproveitou que a esposa Cynthia partira em uma viagem de férias para a Grécia e chamou Yoko Ono para dormir em sua casa. Era o início do romance avassalador da dupla e culminaria com Lennon se divorciando nos meses seguintes.

30 de maio de 1968 – Iniciam as gravações do Álbum Branco

Reunindo as canções que compuseram na Índia, os Beatles entraram no mais longo processo de gravação de sua carreira, começando em maio e terminando apenas em outubro, com lançamento em 22 de novembro. The White Album, como ficou conhecido o disco duplo oficialmente chamado apenas The Beatles, se despia dos excessos psicodélicos de Sgt. Peppers e apresentava uma obra mais calcada no rock e nos arranjos de banda em vez de efeitos sonoros.

Contudo, pela primeira vez, a dinâmica das gravações foi marcada pelo individualismo, com Lennon, McCartney e Harrison se dedicando com afinco às próprias canções, mas pouco interessados nas faixas uns dos outros. Os estúdios da EMI em Abbey Road tinham três salas – os estúdios 1, 2 e 3 – e, no fim das contas, cada compositor ocupava uma das salas para trabalhar nos overdubs e refinamentos e mixagens das próprias canções.

22 de agosto de 1968 – Ringo Starr sai dos Beatles

A tensão entre os membros cresceu bastante durante as sessões do The White Album e culminou com algo impensável até então: no dia 22 de agosto, Ringo Starr se chateou com as seguidas críticas direcionadas a ele por Paul McCartney e simplesmente largou as baquetas, bateu a porta do estúdio e foi embora, embarcando imediatamente no transatlântico Queen Elizabeth II para duas semanas de folga ao lado do amigo, o ator e super-astro britânico Peter Sellers (de Dr. Fantástico, Lolita e A Pantera Cor de Rosa).

Os Beatles não se fizeram de rogados e continuaram as gravações normalmente, com McCartney tocando a bateria em duas canções, Back in the USSR e Dear Prudence. Mas os três também enviaram telegramas para Starr pedindo que retornasse para o grupo.

04 de setembro de 1968 – Os Beatles tocam Hey Jude ao vivo

Ringo Starr acatou os pedidos e voltou para o grupo no dia 04 de setembro, justamente quando a banda tinha agendada uma apresentação ao vivo da canção Hey Jude, que era seu novo single e o primeiro lançamento da Apple Records, agora, um selo vinculado da EMI.

O clima festivo da canção, particularmente na longuíssima coda no final, animou a banda e estar diante de uma plateia pela primeira vez em dois anos. (O grupo até tinha tocado ao vivo outra vez, apresentando All you need is love em 1967, mas naquela ocasião era uma plateia seleta, de amigos e músicos de rock, e não um público efetivamente).

Os Beatles tocam “Revolution” na TV em 1968.

A banda tocou nos estúdios cinematográficos de Twickenham, em Londres, sob a direção de Michael Lindsay-Hogg (que havia dirigido os clipes de Paperback writer e Rain, em 1966) e apresentou não apenas Hey Jude, mas também Revolution.

Tocar daquele modo despertou o desejo de voltar a tocar ao vivo. Pelo menos para Lennon e McCartney. Esse desejo teria grandes consequências dali em diante.

John Lennon no Rock and Roll Circus, com Eric Clapton, Keith Richards e Mith Mitchell.

11 de dezembro de 1968 – John Lennon toca sem os Beatles no Especial de TV dos Rolling Stones

Impedidos de excursionar por causa dos problemas legais envolvendo as prisões de Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones em 1967 (e de Jones de novo em 1968), os Rolling Stones decidiram fazer um especial de Natal em que tocassem ao vivo para uma plateia. E ainda tiveram a ideia de convidar outros músicos amigos para se apresentarem como abertura. Além de bandas novas, como Jethro Tull e Taj Mahal, aceitaram o convite Marianne Faithfull, The Who… e John Lennon!

Na verdade, os Stones convidaram os Beatles a se apresentarem, mas coletivamente o grupo recusou – instigado pela má vontade de Paul McCartney de servir de escada para os “rivais” (embora, amigos na vida real) e também pela desmobilização de Harrison de tocar ao vivo – mas Lennon foi favorável à ideia. Então, decidiu ir sozinho!

Foi a primeira vez que um membro dos Beatles tocou sozinho em um evento de grande repercussão. Lennon montou uma banda de ocasião que batizou de The Dirty Mac (o sujo do Mac, uma piada com McCartney) e que contava com ele próprio nos vocais e guitarra, Eric Clapton na guitarra solo, Keith Richards no baixo e Mitch Mitchell (do The Jimi Hendrix Experience) na bateria. O grupo tocou uma versão fabulosa de Yer blues – que os Beatles haviam lançado no Álbum Branco – e produziram um dos encontros mais memoráveis dos anos 1960.

Infelizmente, o The Rolling Stones’ Rock and Roll Circus não foi ao ar e permaneceu inédito até 1996. Os Stones não gostaram da própria performance no show e acharam que foram eclipsados pela explosiva apresentação do The Who e a reunião marcante de Lennon. Mas o vídeo circulou na pirataria de modo abundante. Tanto em vídeo quanto em áudio.

Os Beatles no Twickenham Studios em 1969.

02 de janeiro de 1969 – Iniciam as sessões de Let it Be

Os Beatles recusaram o convite dos Stones, mas a ideia de se apresentar ao vivo permaneceu e o quarteto de Liverpool teve uma grande ideia: ensaiar um repertório novo e apresentá-lo ao vivo em um concerto de pequenas proporções (para evitar os riscos da beatlemania), filmando todo o processo e lançando um disco e um filme. Embora não tivessem escolhido um local – o clube The Roundhouse, lar mais quente do underground da época, era o candidato mais forte – decidiram começar com os ensaios.

No dia 02 de janeiro, o quarteto voltou ao Twickenham Film Studios, com George Martin como produtor, o badaladíssimo Glyn Johns como engenheiro de som (que trabalhava com os Rolling Stones e The Who, Led Zeppelin), Alan Parsons como assistente (que se tornaria um produtor famoso e lançaria a banda de sucesso The Alan Parsons Project); cercados por quatro câmeras de filmagens (uma delas em uma grua) comandadas por Michael Lindsay-Hogg.

Infelizmente, o entusiasmo praticamente morreu já no primeiro dia, com o clima frio e sem graça de Twickenham (o cenário era praticamente um fundo branco iluminado por luzes coloridas); com a indiferença de George Harrison; a irritante presença constante de Yoko Ono, que não saia do lado do namorado; e a animosidade crescente entre a banda. No primeiro dia, a banda tocou muito pouco, ocupados em preparar o ambiente para as câmeras e as instruções irritantes de Paul McCartney, que assumiu um papel de líder (autoritário, mandão e chato), que desagrada aos outros.

As brigas foram imediatas e McCartney já quase jogou a toalha no primeiro dia, questionando por que os companheiros estavam ali fazendo aquilo? “Não pode ser pelo dinheiro”, concluiu. E pior, tudo registrado pelas câmeras, embora nada disso tenha terminado no filme.

Apesar de tudo, o grupo começou a ensaiar uma série de canções novas, como Don’t let me down, I’ve got a feeling, Dig a pony e Two of us.

10 de janeiro de 1969 – George Harrison sai dos Beatles

Oito dias daquele inferno já foi demais. Irritadiços, os Beatles brigavam muito e as músicas novas careciam de empolgação. Harrison, por exemplo, trouxe duas contribuições importantes, com as canções All thing must pass e I me mine, mas cada uma delas só foi tocada durante um único dia e não voltaram ao repertório, o que foi um ultimato para o guitarrista, que àquela altura estava seguro de seu papel como compositor, depois dos grandes elogios da crítica a While my guitar gently weeps, do The White Album, e até ter emplacado um pequeno hit da composição Sour milk sea cantada por Jackie Lomax, pela Apple.

Em um determinado dia, enquanto a banda tocava Two of us, Harrison e McCartney tiveram uma grande discussão por causa do arranjo de guitarra da faixa, constantemente criticado por McCartney, autor da faixa. Harrison explodiu. McCartney tentou comparar:

“Precisamos colocar a guitarra em toda a Hey Jude?” – o que era um calo para Harrison, cujas frases de guitarra gravadas para aquela canção foram praticamente todas excluídas da versão final, mantendo-se quase que uma única frase. Então, Harrison disse nervosamente:

“Eu toco o que você quiser, ou não toco nada se você quiser, também. Eu não me importo. O que você quiser que eu faça, eu faço. Desde que você se decida”.

Esse momento terminaria na versão final do filme Let it Be. Mas não foi o pior. No dia 10 de janeiro, Harrison se irritou mais ainda ao perceber que suas canções não eram mais tocadas e que Lennon ouvia mais aos conselhos de Yoko Ono do que os do restante do grupo. A dupla discutiu nervosamente, quase saíram aos socos, segurados pelos amigos e Harrison decidiu ir embora. “Vejo vocês nos clubes!”, falou ao bater a porta.

Tal qual ocorrera com Starr alguns meses antes, os Beatles regressaram ao estúdio normalmente no dia 11 de janeiro e tocaram o dia inteiro como um trio, criando versões nervosas de Get back, uma faixa nova. Lennon assumiu a guitarra solo dessa canção pela ausência do outro e manteve a posição até o fim. Em determinado momento, ao perceber que Harrison não iria voltar, Lennon falou: “Acho que devíamos chamar Eric”, votando para que Eric Clapton assumisse o lugar de Harrison na banda.

Mas o quarteto se reuniu – nos escritórios da Apple – no dia 12 de janeiro para discutir o que fazer. Harrison impôs uma condição para voltar: não haver mais o tal show e saírem de Twickenham. O grupo então acelerou uma ideia que já estava em andamento: construir um moderníssimo estúdio musical no porão do prédio da Apple, no número 3 de Saville Row. O plano mais ousado foi adiado, por demoraria muito tempo, então, a banda alugou uma série de equipamentos – inclusive um console duplo de duas mesas de oito canais – e moveu toda a parafernália cinematográfica para lá.

Billy Preston com os Beatles, em 1969.

22 de janeiro de 1969 – Reiniciam as sessões de Let it Be

A banda retomou as sessões dez dias depois, mas Harrison ainda guardou uma última pegadinha. Embora nesse caso, algo muito positivo: trouxe o pianista Billy Preston para participar como músico convidado. O quarteto conhecia o tecladista desde os dias de Hamburgo – quando ele excursionava ao lado de Little Richard – e era uma pessoa afável e gregária, de temperamento tranquilo, que logo teria seu primeiro álbum solo lançado pela Apple. E era um grande talento! Sua adesão acrescentou bastante dinâmica aos Beatles e sua presença aliviou a tensão, de modo que a etapa no Apple Studios foi muito mais agradável e tranquila do que a anterior, com as canções deslanchando.

A adesão de Preston foi tão boa que Lennon pensou que ele poderia se tornar um dos Beatles! Lennon acreditava que era o momento de ampliar os horizontes e adicionar não somente o tecladista, mas também Eric Clapton ao conjunto. Harrison gostou da ideia, mas McCartney não e taxou: “já é ruim demais sendo apenas nós quatro”.

The Rooftop Concert.

30 de janeiro de 1969 – Os Beatles realizam o Show no Telhado

A decisão por não fazer o show planejado colocou um grande problema: afinal, os Beatles estavam ensaiando para o quê? No período de oito dias da retomada das sessões, a banda passou a gravar todo o material em oito canais (diferente de Twickenham, cujo som era captado de maneira mais amadora, pois era apenas um ensaio), mas McCartney ainda tentava de leve convencer a banda a fazer o show. Lennon chegou ao ponto de que o filme precisava de um final, e deveria ter o show, mas não queria arcar com o custo emocional de promover um novo concerto dos Beatles e reviver a loucura de anos antes.

Então, no dia 29, o grupo chegou a uma decisão: iria simplesmente subir no telhado do prédio – um terraço plano com piso de madeira – e fazer o show ali mesmo, de surpresa, ao ar livre, na hora do almoço (que era o horário mais quente, pois era pleno inverno em Londres). Então, Glyn Johns e Alan Parsons correram para ver se a ideia era viável e providenciar a estrutura necessária.

No dia 30, os Beatles subiram ao telhado e fizeram o último show de suas vidas.

Famosíssimo após aparecer no filme Let it Be, o The Rooftop Concert durou apenas 42 minutos, pois foi interrompido pela polícia, que proibiu a continuidade sob a queixa do barulho estar incomodando a vizinhança e o trânsito ao redor do centro de Londres ter se tornado um caos com a notícia de que os Beatles estavam simplesmente tocando no alto de um prédio. O grupo apresentou 5 faixas (Dig a pony, Don’t let me down, I’ve got a feeling, One after 909 e Get back), embora algumas delas tenham sido repetidas para dar mais frames de câmeras, que foram espalhadas pelos telhados vizinhos e até pela rua. Ninguém tem certeza se a banda pretendia tocar mais canções (violões e piano estavam dispostos no “palco”, indicando que as outras canções do repertório podiam ser tentadas também), mas foi um grande evento.

Pensando que o concerto podia ser o clímax do filme, os Beatles regressaram aos estúdios da Apple no dia 31 apenas para prover versões “definitivas” das faixas que não apresentaram no telhado (como Let it be, The long and widing road e Two of us) para garantir boas tomadas para o filme.

O material sonoro foi entregue para Glyn Johns mixar, porém, a banda ficaria insatisfeita após duas versões apresentadas ao longo do ano de 1969 e o projeto demoraria mais de um ano para sair.

14 de Abril de 1969 – Início das gravações de Abbey Road

Insatisfeitos com o resultado sonoro das sessões de Let it Be, os Beatles decidiram embarcar em um novo projeto, com um repertório totalmente novo, que seria o álbum Abbey Road, lançado em setembro de 1969.

George Martin disse em entrevistas que achava que os Beatles teriam acabado após as sessões de Let it Be, e por isso, de início, recusou regressar com a banda para novas gravações, insatisfeito com o clima azedo do grupo. Por isso, mandou seu principal assistente em seu lugar, Chris Thomas, que seria um grande produtor no futuro (trabalharia com Pink Floyd, Elton John e Sex Pistols), e já tinha assumido a função em algumas sessões do Álbum Branco no ano anterior.

Os Beatles chegaram a realizar uma única sessão de gravação em 22 de fevereiro, com a canção I want you, que havia sido ensaiada nas sessões de Let it Be, sem contudo, gerar uma versão definitiva. Provavelmente, Lennon queria adicionar uma faixa de última hora, mas ficou naquilo. Ringo Starr tinha um compromisso de gravar o filme The Magic Christmas, ao lado de Peter Sellers nas semanas seguintes.

A banda regressou aos estúdios em 14 de abril, mas o clima anterior permanecia, enquanto gravavam faixas novas, como Oh! darling e Something, de George Harrison.

08 de maio de 1969 – Allen Klein se torna o empresário dos Beatles, mas não de Paul McCartney

Ainda em janeiro de 1969, Lennon deu uma entrevista ao The Financial Times e foi sincero sobre a condição da Apple Corps.: “se não fizermos aluma coisa, estaremos falidos em seis meses!“. Os Beatles não eram homens de negócios, e a Apple, de uma boa ideia, virou um pesadelo. Imagine um bando de hippies comandando um conglomerado multimilionário! Era um caos, não havia planejamento e o dinheiro vazava abundante. Havia um funcionário apenas para tirar cartas de tarô do I Ching para ajudar nas decisões e certa vez um grupo de Hells Angels (a gangue de motoqueiros de Los Angeles) morou nos escritórios por algumas semanas, porque tinham viajado para Londres e não tinham onde ficar.

Então, Allen Klein entrou em cena.

Nascido em Nova York, de uma família judia pobre, Klein se tornou um magnata do showbizz dos EUA, empresariando vários artistas e se especializando em garantir mais direitos autorais e ganhos aos seus representados. De postura rude e incisiva, era um cara que guardou suas características de membro da classe trabalhadora, o que agradava bastante Lennon e Harrison, que mantinham o mesmo comportamento, apesar da fama e da fortuna. Em 1964, quando os Beatles foram para os EUA pela primeira vez, Klein procurou Epstein e ofereceu uma parceria, conseguindo um acordo multimilionário para os Beatles se transferirem para a gravadora RCA-Victor (a mesma de Elvis Presley), mas Epstein recusou. Em contrapartida, Klein assumiu a representação dos Rolling Stones nos EUA, e quando Jagger, Richards e Jones foram presos, em fevereiro de 1967, em vista da inoperância do empresário Andrew Loog Oldham, Klein assumiu o controle e se tornou o empresário oficial dos Stones dali até 1971, quando romperam as relações ruidosamente.

Antes disso, em janeiro de 1969, Klein leu a entrevista de Lennon e lhe escreveu uma carta, oferecendo seus serviços para resolver o problema e já apresentando soluções objetivas. Lennon o chamou para uma reunião privada em Londres e ficou maravilhado com o resultado, reunindo Klein e os Beatles em 26 de janeiro para apresentar sua proposta. McCartney não gostou dele, mas Harrison e Starr decidiram pensar seriamente no assunto. De qualquer modo, a partir daquele mesmo dia, Klein já passou a representar oficialmente o casal Lennon-Ono.

Allen Klein: ruptura definitiva dos Beatles.

Em abril, ao mesmo tempo em que a banda se reativava para as gravações, o tema voltou a ser discutido. Harrison e Starr decidiram assinar também com Klein, mas McCartney, não. Ele queria que seu novo sogro, Lee Eastman, pai de Linda, fosse o novo empresário dos Beatles. Lennon e Harrison não gostaram, mas deram uma chance e convidaram o homem, um famoso advogado de Nova York, para uma reunião em Londres.

Lee Eastman não se deu ao trabalho, e mandou o filho John em seu lugar. Aquilo enfureceu Lennon, que depois argumentou numa entrevista: te oferecem o trabalho de representar a maior banda do mundo e você sequer dá ao trabalho de conversar diretamente com eles, mesmo “querendo” o trabalho. Na visão de Lennon e Harrison, John Eastman e seu pai eram tudo o que não gostavam: playboys da classe alta, que sempre foram ricos. Além disso, no clima tenso da época, achavam que a família iria sempre favorecer McCartney nas suas decisões e já havia uma cisão entre o baixista e o restante da banda. Lennon sabia até que já existia um precedente: em 1968, seguindo os conselhos de Eastman, McCartney comprou “por fora” mais ações da Northern Songs (a editora musical das composições de Lennon & McCartney) de modo de lhe dar mais controle administrativo.

Então, Lennon, Harrison e Starr assinaram o contrato com Klein transformando-o no novo empresário dos Beatles. Mas faltava McCartney assinar. Em 08 de maio, os três pressionaram para que assinasse e ele se recusou, se seguiu uma grande briga e McCartney saiu batendo a porta. As gravações pararam ali mesmo.

Os Beatles podiam ter acabado ali, mas se chegou ao estranho acordo na qual Allen Klein representava o trio Lennon, Harrison e Starr; enquanto McCartney ficou sendo representado por Lee Eastman. As gravações foram adiadas para julho, para que todos esfriassem a cabeça e terminassem logo o novo disco.

01 de julho de 1969 – Reiniciam as gravações de Abbey Road, sem John Lennon

Na pausa que se seguiu, Lennon e Yoko Ono decidiram esfriar a cabeça na Escócia, onde Lennon tinha família. Fizeram a viagem de carro e aproveitaram para levar as crianças, Julian, o filho de Lennon com Cynthia, e Kyoko, a filha de Yoko com Tony Cox. Mas na volta, Lennon sobrou numa curva das montanhosas estradas escocesas e o carro caiu em uma ribanceira. Foi uma colisão grave e John e Yoko foram hospitalizados. As crianças saíram ilesas.

Lennon ganhou uma grande cicatriz na mandíbula, que o motivou a deixar a barba crescer para escondê-la, e Yoko machucou os quadris, precisando ficar de cama até depois de sair do hospital. Por causa disso, quando as gravações do novo álbum foram retomadas no dia 1º de julho, Lennon não participou, pois estava no hospital. O trio restante continuou gravando as bases de algumas canções novas e Lennon só se uniu a eles nove dias depois.

04 de julho – John Lennon lança seu primeiro compacto solo

Após se casar com Yoko Ono em abril de 1969, John Lennon decidiu fazer uma lua de mel diferente: fazendo performances artísticas como desculpa para falar sobre a paz e contra a Guerra do Vietnã. Uma dessas ocasiões ocorreu em Montreal, no Canadá, em 01 de junho de 1969, na qual o casal Lennon-Ono ficou uma semana na cama dando entrevistas sobre a paz e a situação do mundo. No dia 1º, ao lado de um grupo de Hare Khristnas locais, o casal gravou a canção Give peace a change, um verdadeiro mantra pacifista. Lennon decidiu lançar a gravação como um compacto solo, creditado à The Plastic Ono Band, uma banda virtual, inexistente.

O disquinho se deu muito bem nas paradas, chegando ao 2º lugar das paradas britânicas e ao 14º dos EUA.

08 de agosto de 1969 – Foto da capa de Abbey Road

Ainda em meio às gravações do álbum, os Beatles realizaram sua penúltima sessão de fotos em 08 de agosto, fazendo a capa do disco. No típico clima de “se livrar logo” da época, a banda decidiu simplesmente atravessar a faixa de pedestres em frente ao estúdio da EMI usando as roupas que estavam naquele dia.

Quando lançada, a capa se tornou uma das icônicas imagens dos Beatles, dos anos 1960 e do rock.

20 de agosto de 1969 – Fim das gravações de Abbey Road

As gravações de Abbey Road atravessaram o verão e o esquema do Álbum Branco se repetiu, com Lennon, McCartney e Harrison usando os três estúdios da EMI ao mesmo tempo e trabalhando nas próprias canções, com pouco interesse nas dos demais. Ainda assim, ironicamente, a última sessão de gravação trouxe uma união do trio, com cada um tocando guitarra solo no final de The End. Os Beatles jamais se reuniriam de novo em um estúdio depois disso.

Uma das últimas fotos dos Beatles reunidos, em 1969.

22 de agosto de 1969 – Última sessão de fotografia dos Beatles

Para divulgar o novo álbum, os Beatles realizaram aquela que seria a última sessão de fotos do grupo, numa tarde de verão nos jardins da casa de John Lennon, em Ascot, próximo a Londres. São belas fotografias que mostram uma banda triste e cansada.

Uma das imagens foi usada, depois, como capa da coletânea The Beatles Again, lançada para o Natal de 1969 nos EUA.

30 de agosto de 1969 – Os Beatles tocam com Bob Dylan e Eric Clapton

Bob Dylan tinha sido uma das maiores estrelas do rock dos EUA em meados dos anos 1960 e um herói e amigo de Lennon e Harrison. Cansado do peso da fama, Dylan se afastou do público e dos holofotes em 1966, mas estava promovendo um grande retorno aos palcos em meio ao Festival da Ilha de Wight, em 1969, na Inglaterra. Harrison assistiu aos ensaios para o show, que Dylan realizaria ao lado da The Band e foi com eles para a ilhazinha na Inglaterra.

Mas Lennon decidiu ir assistir ao concerto e levou Eric Clapton e Ringo Starr com ele. Lá, ainda encontraram Keith Richards, dos Rolling Stones. Uma história pouco conhecida é que no dia anterior ao show de Dylan, em 30 de agosto, os amigos fizeram uma grande jam session para se divertir, num celeiro destinado aos artistas do festival, no que seria Dylan e The Band com a adesão de Lennon, Harrison, Starr, Clapton e Richards. Não era uma reunião oficial dos Beatles, claro, mas a banda – menos Paul McCartney – tocou com seus amigos.

Lennon se apresenta com Eric Clapton em 1969.

15 de setembro de 1969 – John Lennon toca sem os Beatles num festival no Canadá

Também no verão de 1969, John Lennon deu início a sua campanha pela paz ao lado de Yoko Ono, contra a Guerra do Vietnã. Isso lhe rendeu um convite para participar do Toronto Rock and Roll Revival Festival no Canadá (na qual se apresentaram também Led Zeppelin e The Doors). De novo, ele pensou em levar os Beatles e, de novo, esbarrou na má vontade dos colegas. Então, foi sozinho.

John Lennon subiu ao palco de Toronto no dia 15 de setembro, sob a alcunha de The Plastic Ono Band, e numa banda de ocasião tendo ele próprio no vocais e guitarra, Eric Clapton na guitarra solo, Klaus Voorman no baixo e Alan White na bateria, com participação de Yoko Ono cantando algumas faixas. O grupo apresentou velhas canções de rock, faixas de Lennon (Yer blues e as novíssimas Give peace a chance e Cold turkey) e faixas de Yoko.

Foi um bom concerto, foi filmado e gravado e seria lançado num álbum ao vivo chamado Live Peace Toronto.

20 de setembro de 1969 – John Lennon sai dos Beatles

O clima nos Beatles não poderia estar pior, mas o mundo gira. Allen Klein havia renegociado o contrato da banda com a EMI em um acordo vantajoso e eles precisavam assinar. Na reunião desse dia, McCartney discursou sobre os problemas e veio com a solução: por que não voltar mesmo a tocar ao vivo? John havia gostado da experiência e fizera.

Lennon respondeu “não”. McCartney insistiu e Lennon foi mais claro: estava saindo da banda! McCartney ficou sem ar e sem fala. Após alguma comoção, Klein aconselhou que a decisão não se tornasse pública e Lennon concordou. Mas em sua cabeça, estava fora da banda.

Mas a roda girava: Abbey Road foi lançado em 26 de setembro, bem como o compacto Something/ Come together.

30 de setembro de 1969 – John Lennon grava Cold Turkey

John Lennon estava decidido a seguir sua própria carreira e em 30 de setembro tentou reunir a Plastic Ono Band de novo para gravar seu segundo compacto solo. Alan White não estava disponível, então, convidou Ringo Starr para a bateria, se unindo a Eric Clapton na guitarra e Klaus Voorman no baixo. A pesada canção falava da síndrome de abstinência da heroína – na qual Lennon e Clapton eram viciados na época – e foi lançada em 20 de outubro e ainda chegou ao 14º lugar das paradas britânicas.

Eric Clapton e George Harrison ao vivo com Delaney & Bonnie & Fiends, em 1969.

Dezembro de 1969 – George Harrison volta aos palcos ao lado de Delaney & Bonnie & Friends

Delaney Bramlett era um dos guitarristas de estúdio mais requisitados de Los Angeles, mas decidiu perseguir a própria carreira como cantor e compositor, ao lado da esposa, a vocalista Bonnie Bramlett, que cantava junto ao Ike & Tina Turner Revue. O som do duo era tão forte e espontâneo, que conseguiram agremiar a nata dos instrumentistas de rock de Los Angeles sob a alcunha de Delaney & Bonnie & Friends (DBF), com apoio de Carl Randle no baixo, Jim Gordon na bateria, Jim Price no trombone, Bob Keys no saxofone, Bob Withlock nos teclados, Leon Russell na guitarra e no piano, e quem mais estivesse por perto. O grupo não fez sucesso de público, mas virou uma febre no circuito musical atuando como banda de abertura da banda de Eric Clapton em 1969, o Blind Faith, numa turnê de verão nos EUA. O impacto foi tão grande que George Harrison ofereceu um contrato para banda pela Apple Records (que não se efetivou por causa de um acordo prévio de Bramlett com a Elektra) e em Eric Clapton levando o grupo para uma turnê na Inglaterra no outono.

A chegada do DBF no Reino Unido foi um grande impacto. Tanto que, além do time de quase uma dúzia de músicos da banda em si, outros músicos se animaram para se unir à trupe nos shows. Entre esses estavam o próprio Eric Clapton, o também guitarrista Dave Manson (do Traffic) e George Harrison. Era primeira vez que o beatle regressava aos palcos em três anos!

John Lennon, Yoko Ono, George Harrison, Eric Clapton, Billy Preston, Keith Moon, Delaney & Bonnie & Friends e mais.

15 de dezembro de 1969 – John Lennon e George Harrison tocam ao vivo juntos

John Lennon continuava a realizar alguns shows ocasionais com a Plastic Ono Band (ou seja, quem estivesse disponível no momento). No dia 15 de dezembro, Lennon promoveu um concerto beneficente para a UNICEF no Liceum Coliseum, de Londres e seu apresentou ao lado de Delaney & Bonnie & Friends, incluindo as adesões de Clapton, Manson, Harrison, Billy Preston e Keith Moon (baterista do The Who). Uma das canções do show, Cold Turkey seria mais tarde lançada no álbum Sometime in New York City, em 1972.

03 de janeiro de 1970 – Últimas gravações dos Beatles… E John Lennon não participa

Por incrível que pareça, Paul McCartney ainda guardava a esperança de que a saída de John Lennon da banda seria só um rompante ocasional. Tendo em vista o eminente lançamento do filme e do disco Let it Be, o grupo chegou à conclusão de que algumas regravações eram necessárias. Então, agendaram uma sessão de gravação para os dias 03 e 04 de janeiro de 1970 na esperança de que Lennon comparecesse. Ele não se deu ao trabalho.

McCartney, Harrison e Starr gravaram a canção I me mine, de autoria de Harrison, que havia sido ensaiada nas sessões de um ano antes, mas nunca havia sido gravada em multipistas. Depois, Harrison regravou o vocal de For you blue e refez o solo de Let it be, enquanto McCartney regravou os vocais desta última, inclusive, colocando a esposa Linda Eastman para fazer parte do coro.

Seria a última sessão oficial de gravações dos Beatles, embora Lennon não tenha participado.

Lennon toca Instant Karma no Top of the Pops, em 1970.

06 de fevereiro de 1970 – John Lennon lança Instant Karma!

No dia 27 de janeiro, John Lennon se reuniu ao badalado produtor norteamericano Phil Spector para gravar a canção Instant Karma! para seu próximo single solo. Reunindo apressadamente um time de músicos, Lennon trouxe Klaus Voorman e Alan White de volta para o baixo e bateria, respectivamente, mais George Harrison no violão.

Um dos grandes clássicos de Lennon, Instant Karma! foi muito bem e chegou ao 5º lugar das paradas de sucesso do Reino Unido e ao 3º lugar dos EUA.

Lennon e Phil Spector em 1971.

Março de 1970 – Phil Spector produz versão final de Let it Be

Feliz com a experiência de trabalho com Phil Spector, John Lennon recomendou que o produtor assumisse a mixagem final do álbum Let it Be, após a banda recusar as versões de Glyn Johns duas vezes. Spector assumiu o trabalho com seriedade, modificou a sonoridade das canções – era um mestre da mixagem – e adicionando uma instrumentação orquestral a algumas faixas, notadamente Let it be, Across the universe e The long and winding road. A pesada intervenção nesta última deixou McCartney bastante infeliz e ele tentou impedir o lançamento dessa versão, mas foi voto vencido.

Março de 1970 – Paul McCartney manda Ringo Starr embora de sua casa

Desiludido com a situação dos Beatles, McCartney passou o inverno de 1970 gravando seu primeiro álbum solo, chamado apenas McCartney, onde canta e toca todos os instrumentos sozinho. Mas ele agendou o lançamento para o mês de abril e Lennon e Harrison se opuseram, pois Let it Be estava previsto para sair em maio.

Por ser mais amigável e diplomático, Ringo Starr foi enviado para tentar convencer McCartney. O baixista ficou indignado e expulsou o baterista de sua casa! E manteve a data de lançamento.

10 de abril de 1970 – Paul McCartney anuncia o fim dos Beatles

Como forma de promover seu álbum solo, Paul McCartney mandou cópias do disco para a imprensa junto com uma entrevista fake na qual ele próprio fazia as perguntas e dava as respostas. A peça publicitária perguntava: “você sente falta dos Beatles? Resposta: Não!; Você tem planos de um novo single ou álbum com os Beatles? Resposta: Não!“.

A imprensa foi atrás: isso significa o fim da banda? Sim!

A notícia rodou o mundo e causou grande impressão, especialmente em países mais distantes, que estavam à parte das brigas que acometiam o grupo nos últimos anos.

John Lennon foi entrevistado nesse dia sobre a declaração e foi sarcástico: “ele [Paul] não terminou a banda… eu pus ele para fora!”. Internamente, Lennon ficou bastante magoado pelo fato de ter anunciado sua saída da banda sete meses antes e ter ficado calado e McCartney ter vindo e anunciado aos quatro ventos como forma de divulgar um disco.

A partir daqui iniciaria uma Guerra Fria entre a velha dupla de compositores, por meio de entrevistas, cartas e canções ao longo dos próximos anos. A dupla só faria as pazes em 1973, quando se encontraram em Los Angeles.

08 de maio de 1970 – Let it Be é lançado

O álbum Let it Be finalmente chegou às lojas no dia 08 de maio de 1970, 16 meses após ter sido gravado. Com os acréscimos de Phil Spector, o disco dividiu opiniões.

13 de maio de 1970 – O filme Let it Be é lançado

O filme Let it Be, com direção de Michael Lindsay-Hogg foi lançado nos cinemas no dia 13 de maio e a crítica em geral não gostou, pois o filme, mesmo como um documentário sem narração, carece de história ou de narrativa. A imagem também é ruim, pois foi filmado em 16 mm pensando a exibição na TV, mas teve que ser ampliado para 35 mm para a exibição nos cinemas, o que tornou a imagem escura e granulada.

A despeito das críticas, o filme ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1971.

Beatles: 1 bilhão de streamings em seis meses!

30 de dezembro de 1970 – Paul McCartney pede o fim legal dos Beatles

Após meses de fim na prática, os negócios dos Beatles continuavam uma confusão, ainda mais agora, com o grupo separado. Preso a Allen Klein por causa da banda, McCartney decidiu entrar na Justiça britânica pelo fim legal dos Beatles. Seria apenas o início de um longuíssimo processo judicial que só se encerraria em 1975, quando os quatro concordaram com os termos do acordo.

A Apple Corps. continuou existindo e administrando o legado do grupo sob o comando de Neil Aspinal, velho roadie da banda desde os tempos de Liverpool. Lennon rompeu com Allan Klein em 1973.

Beatles: maior banda da história do rock agora em streaming.