Ontem, a AT&T e a Warner Bros. surpreenderam o mundo com o aviso de uma grande reestruturação, que envolve preparar a empresa para o novo cenário em que o streaming passará a ter cada vez mais espaço. E isso impacta uma das grandes empresas-filhas, a DC Entertainment, que agora estará sob o comando do desenhista sul-coreano Jim Lee, o superstar dos anos 1990. Ao mesmo tempo, o editor-chefe da DC Comics, Bob Harras foi um dos demitidos.

Liga da Justiça por Jim Lee.

A roda das cadeiras foi grande. Vários executivos sêniors da Warner foram desligados da empresa, assim como centenas de outros empregados; dentre aqueles, nomes como Jeffrey Schlesinger, presidente da distribuição mundial de conteúdo de TV da Warner; Ron Sanders, presidente de distribuição mundial de cinema e de entretenimento doméstico da Warner; e Kim Willams, vice presidente executivo da Warner Entertainment.

Segundo a Variety, que deu o furo, a WarnerMedia irá agora reunir os esforços executivos da produção de conteúdo de cinema e de streaming sob uma liderança única, que será agora o papel da então da CEO da Warner Bros. Ann Sardoff, que terá subordinado a ela, agora, Andy Forssel, como o novo gerente de negócios da HBO Max.

Os antigos diretores da HBO Max também foram demitidos, como Robert Greenblat (o homem que deu o sinal verde para o lançamento da Liga da Justiça de Zack Snyder no streaming) e Kevin Reilly.

Tudo acontece no rescaldo da ascensão do novo CEO da WarnerMedia, Jason Kilar, que veio para reestruturar a gigante do entretenimento na sexta-feira passada. A WarnerMedia é a empresa mãe da Warner Bros., que por sua vez, é a empresa mãe da HBO Max e da DC Entertainment, por exemplo.

A reestruturação atingiu a DC Entertainment (holder da DC Comics), que é vista por suas empresas mães como uma grande criadora de conteúdo. Para isso, continua a Variety, foram demitidos o editor-chefe da DC Comics, Bob Harras, os editores Brian Cunningham e Mark Doyle, o vice-presidente sênior de estratégias de publicação Hank Kanalz, o vice-presidente de marketing, Jonah Weiland, e o vice-presidente de estratégia de publicação global e iniciativas digitais Bobbie Chase.

A iniciativa atende à insatisfação da Warner com o desempenho nas vendas das revistas da DC Comics, que vem perdendo cada vez mais espaço para a concorrente Marvel Comics, que também teve uma estratégia melhor para lidar com o fechamento das comic shops em meio à pandemia do novo coronavírus.

Enquanto a Marvel vem lançando um grande número de novos personagens ou variações dos antigos com sucesso, apostando na diversidade de seu rol de heróis e colocando holofotes em personagens negros, mulheres, asiáticos e LGBTQ+, a DC insiste em criar reboots periódicos que não vão a lugar nenhum e ainda afastam os leitores consolidados da editora, como Os Novos 52 (em 2011) e Rebirth (2015). E há pouco tempo se falava em mais um reboot para 2020 ou 2021, quando o copublisher da DC, Dan Didio, foi demitido. Didio dividia a função justamente com Jim Lee, que agora emerge como o controlador de toda a DC Entertainment.

Jim Lee: Co-Publisher da DC Comics.

O desenhista superstar dos anos 1990, Jim Lee, emerge, então, como o diretor criativo da DC Entertainment e o responsável por supervisionar a criação em todas as mídias da empresa, desde os quadrinhos até o cinema, passando pelos desenhos animados e a TV.

Jim Lee nasceu em Seul, na Coreia do Sul, em 1964, mas emigrou com sua família para os Estados Unidos quando era criança, pois seu pai foi trabalhar lá como médico. Ele passou a viver em St. Louis no Missouri e ganhou cidadania estadunidense aos 12 anos de idade. Ser estrangeiro o fazia se sentir um pária na escola e os quadrinhos se tornaram uma de suas válvulas de escape, e na qual se identificou com personagens como os X-Men, que também era retratados como párias em suas histórias. Lee se destacou sendo capaz de criar grandes desenhos e desenhava nas horas vagas. Após terminar o colégio, Lee foi para a Universidade de Princeton, onde se formou em Psicologia em 1986, como um degrau para seguir a carreira na medicina.

O Justiceiro na arte de Jim Lee (mais outros personagens que ficaram marcados pelo traço do artista: Wolverine e Batman, este da concorrente DC Comics).

Porém, na mesma época, se reencontrou com os quadrinhos ao conhecer o trabalho mais adulto e visceral de Frank Miller em Batman: O Cavaleiro das Trevas e Alan Moore e Dave Gibbons em Watchmen, ambas publicadas em 1986. Apesar da resistência de seus pais, Lee conseguiu um acordo de tirar um ano sabático para se dedicar aos desenhos e tentar a carreira como desenhista e que voltaria para estudar medicina dentro de um ano caso não fosse bem sucedido. Ele foi e conseguiu trabalho na Marvel Comics, onde iniciou desenhando a Tropa Alfa, em 1988, e pouco depois, assumiu a revista do Justiceiro (Punisher: War Journal), na qual foi um sucesso. Em 1989, ele substituiu o desenhista regular da revista Uncanny X-Men por alguns números e, depois, terminou por se tornar o artista principal do título, dando início à fase de maior sucesso da revista dos heróis mutantes, que já eram os mais populares da casa quando ele chegou.

Capa tripla de “X-Men 01” por Claremont e Lee: recorde imbatível de vendas.

A Marvel ficou tão impressionada que criou uma nova revista para ele e X-Men 01, de 1991, vendeu 8 milhões de cópias, se tornando a HQ de maior sucesso da história, registrada no Livro dos Recordes. Depois, cansado da falta de liberdade da Marvel, em 1992, Lee fundou a Image Comics junto a outros desenhistas-estrelas e o estúdio WildStorm, criando alguns dos mais famosos personagens da nova editora, como os WildCATs, Stormwatch, Deathblow e Gen13. Na WildStorm, Lee emerge também como um editor importante, publicando material como Authority, Planetary e o selo de Alan Moore, America’s Best Comics.

Seu papel foi tão grande que, com o enfraquecimento da Image no fim dos anos 1990, a DC Comics comprou a WildStorm, em 1998, e manteve a publicação de suas revistas, num acordo que habilitou Lee a desenhar para a DC, de modo que lançou arcos de histórias célebres, entre 2002 e 2008, como Batman: Silêncio, Superman: Pelo Amanhã e All Star Batman & Robin, além de desenvolver o design do videogame DC Universe Online.

Desde 2011, Lee ocupava o cargo de copublisher da DC Comics ao lado do editor Dan Didio, e a dupla foi o principal artífice do reboot Os Novos 52, ao lado do escritor Geoff Johns.

Dan Didio foi demitido.

Dan Didio foi demitido há alguns meses com algum ruído. Jim Lee estava até então submetido ao diretor criativo da DC, Geoff Johns, que também ocupou o cargo de presidente da DC Films até 2018.

Geoff Johns.

Curiosamente, a reportagem da Variety não cita o nome de Johns e não está claro se ele está ainda ocupando algum cargo. Johns deixou a presidência da DC Films após uma reestruturação pela qual passou a Warner Bros. em 2018 em consequência ao fracasso de Liga da Justiça nas bilheterias. Ainda assim, Johns continuou desenvolvendo produtos para a empresa, sendo o grande nome responsável pelas propriedades que chegaram ao DC Universe, o sistema de streaming da editora, com produtos como as séries de TV Titans, Doom Patrol e Star-Girl, e o desenho animado 18 anos Harley Quinn, todos bem recebidos.

O DC Universe é um dos pontos obscuros das mudanças. Não está claro se o serviço de streaming irá continuar existindo ou será absorvido pelo HBO Max, o streaming de sua empresa mãe, a Warner.

Muitos apostam que será essa segunda alternativa, tendo em vista que Star-Girl já estreará sua segunda temporada na HBO, na qual Doom Patrol também já foi exibido. E ontem, as contas no Twitter de dos outros dois programas tiveram seus títulos alterados de DC Universe’s Titans e DC Universe’s Harley Quinn para DC’s Titans e DC’s Harley Quinn, o que é um indicativo de que serão transferidos para o HBO Max.

Tudo aponta para uma grande transformação da indústria de entretenimento em face às novas tecnologias, sem falar na pandemia global da Covid-19.

Antes mesmo da pandemia, a indústria já precisava lidar com o crescimento exponencial do streaming e o domínio global da Netflix, ao mesmo tempo em que os lançamentos de cinema se enfraqueciam e somente os blockbusters conseguiam atrair o público às salas de cinema. Com a pandemia, empresas como a Warner se viram sem poder lançar seus materiais – filmes como Mulher-Maravilha 1984 estão “retidos” e podem ser adiados mais outra vez; e as gravações de produtos como The Batman estão paralisadas até segunda ordem – e amargando prejuízos muito grandes e sérios.

Nesse cenário, o streaming desponta como uma saída para fornecer material novo ao público (e lucrar com isso), pois ainda que a produção dessas séries ou filmes sofra das mesmas restrições da produção de cinema, pelo menos não dependem de grandes salas de cinema para o lançamento, podendo chegar direto ao público em suas casas.

Enquanto descartar o cinema ainda não é uma opção, pois é um produto muitas vezes mais rentável do que o streaming, as empresas de produção de mídia como a Warner estão percebendo que estão em sérios problemas caso a pandemia se alongue, enquanto a Netflix toma cada vez mais as fatias desse mercado. O HBO Max é uma reação tardia a tal cenário; e a concorrência agiu mais rápido: a The Walt Disney Company, por exemplo, lançou o Disney+ no início deste ano e foi uma das poucas companhias que lucraram imensamente com um produto novo em 2020 por causa do lançamento de The Mandalorian. E ainda tiveram a sorte de produzir uma segunda temporada antes da pandemia, que chegará aos lares no fim deste ano.

Enquanto isso, a Warner amarga ver Mulher-Maravilha e Tenet, de Christopher Nolan, serem sucessivamente adiados em seus lançamentos pela impossibilidade da reabertura dos cinemas nos Estados Unidos, em um cenário no qual a pandemia não parece que irá dar trégua tão cedo.

Embora a produção de filmes começa a sonhar com um retorno no final deste mês, os estúdios estão receosos que novas ondas da pandemia impeçam que um filme como The Batman consiga cumprir sua agenda de lançamento em 2021.

Esses dias, o HQRock noticiou, um dos consultores da Disney deu uma declaração bastante pessimista, afirmando que não via grandes produções de Hollywood serem lançadas em 2021 e que os estúdios deviam se preparar para terem novos lançamentos apenas em 2022. Mas como os estúdios irão sobreviver sem conteúdo novo até lá?