A banda britânica Pink Floyd é uma das mais importantes e famosas bandas da história do rock, um grupo de influência duradoura às novas gerações e um caso singular de grupo que teve uma longa trajetória no underground antes de se tornar mais popular. E muito: desde os anos 1970, o conjunto é um daqueles de maior sucesso dentre todos os que existiram. Por isso, nada mais justo de que o HQRock se debruçar sobre a Discografia Completa da banda.

Vale acrescentar que este post foi originalmente escrito em 2011, na ocasião do anúncio do lançamento da coleção remasterizada de álbuns do grupo, mas foi atualizado em 2014 para a inclusão de The Endless River e reatualizado depois disso.

A banda no fim dos anos 1960: buscando uma identidade.

O Pink Floyd tem suas origens em Cambridge, na Inglaterra, uma pacata cidade universitária onde nasceram seus principais membros: Roger Waters, David Gilmour e Syd Barrett. Os três foram amigos de infância e adolescência e, por meios distintos, migraram para a capital Londres no início dos anos 1960. Roger Waters foi o verdadeiro fundador do grupo, indo estudar Arquitetura na Escola Politécnica, e fundando uma banda de rock que daria origem ao Pink Floyd, em 1963, que logo ganhou um baterista na figura de seu colega de turma, Nick Mason, nascido em Londres. Reunindo vários outros músicos e até uma cantora, o grupo ganhou a adesão de Richard Wright, primeiramente tocando a guitarra base, antes de se transferir para os teclados, quando o conjunto era um sexteto com o nome de Sigma 6. No ano de 1964, o grupo ganhou o guitarrista Bob Klose (o que possibilitou Waters a assumir o baixo) e, finalmente, viu a entrada de Syd Barrett, que estudava na Camberwell College of Arts e era dois anos mais novo do que o restante do conjunto.

Usando diversos nomes, como Meggadeaths, Leonard’s Lodger, Spectrum Five e The Tea Set, o grupo se consolidou como um quinteto, ao mesmo tempo em que Barrett terminava por assumir a liderança, por sua personalidade criativa e a capacidade de compor canções que combinavam elementos do pop com as experimentações sonoras que a banda gostava. Assim como a maioria dos grupos de Londres, o futuro Pink Floyd baseava seu som no R&B (o blues elétrico advindo de Chicago), mas começaram a experimentar a criação de longas passagens instrumentais em torno das composições de Barrett.

O Pink Floyd embrionário de 1965: Waters, Barrett, Mason, Klose e Wright.

Em meados de 1965, Klose deixou o grupo, que virou definitivamente um quarteto com Syd Barrett (vocais e guitarra), Roger Waters (baixo e vocais), Richard Wright (teclados e vocais) e Nick Mason (bateria), e mas adotaram o nome de The Pink Floyd Sound, baseada em dois obscuros bluesmen norteamericanos que Barrett gostava, Pink Anderson e Floyd Council. Com o tempo, a nomenclatura seria simplificada para apenas Pink Floyd e o grupo passou a experimentar cada vez mais sua sonoridade, por meio das influências psicodélicas de álbuns como Revolver dos Beatles e Aftermath dos Rolling Stones, ambos lançados em 1966. É justo informar que, apesar das composições de Barrett virarem a força motriz da banda naquela época, Waters e Wright também compunham canções que eram usadas nos shows e ensaios do grupo.

O Pink Floyd em seu início, com Barrett, Mason, Wright e Waters.

Ao longo do ano de 1966, a banda chamou a atenção na cena underground de Londres ao combinarem a sonoridade típica de R&B com as canções de aceno folk de Barrett, suas letras de estilo romântico (no sentido do movimento do século XIX, não do aspecto amoroso) e a experimentação instrumental do jazz de vanguarda, criando o típico som psicodélico da Swing London, como o UFO. A sensação do grupo – que apresentava um inédito show repleto de luzes coloridas, projeção de slides e gelo seco – foi tão grande que as gravadoras correram atrás deles e terminaram contratados pela EMI, a mesma gravadora dos Beatles, no início de 1967.

Os dois primeiros singles – Arnold Layne See Emily play – lançados no primeiro semestre de 1967, romperam as barreiras do underground e chegaram às paradas de sucesso e aos programas de TV, projetando o Pink Floyd não apenas como uma banda de vanguarda, mas também um potencial sucesso comercial. Contudo, os problemas começaram cedo: apesar do álbum The Piper at the Gates of Dawn, lançado em agosto de 1967, ter causado uma grande impressão e vendido muito bem, o comportamento de Syd Barrett (o cantor, guitarrista e principal compositor) começou a se tornar cada vez mais errático, estranho e bizarro; o que levou até ao cancelamento de uma turnê nos EUA no meio do caminho. O motivo: o exagero em drogas psicodélicas, em especial o LSD, afetaram mesmo a mente do músico, provavelmente em conjunto com uma não diagnosticada esquizofrenia, o que somada à intensa programação de shows e gravações começou a literalmente deixar o cantor louco.

O Pink Floyd como um quinteto com Mason, Barrett, Waters, Wright e Gilmour (abaixo).

O ponto de ruptura veio em dezembro de 1967, quando o Pink Floyd fez parte de uma longa turnê acompanhando o The Jimi Hendrix Experience, mas Barrett quase não conseguia tocar, ficava “fora do ar”, desaparecia, ou pior, ficava tocando a mesma nota um show inteiro. Buscando uma saída, os três membros restantes decidiram tentar um novo arranjo: fazer tal qual os Beach Boys (nos quais o líder e principal compositor Brian Wilson trabalhava apenas em estúdio, não participando dos shows) e deixar Barrett com a função de apenas ser um compositor e gravar no estúdio e trouxeram o guitarrista David Gilmour como um back-up para os concertos. Gilmour conhecia Waters de Cambridge e era um dos melhores amigos de Barrett, e era guitarrista da banda The Joker’s Wild, que fazia shows na Inglaterra e França.

Inicialmente, o Pink Floyd voltou a ser um quinteto e fez alguns shows pela Inglaterra, mas a condição de Barrett continuava a declinar, portanto, ele ficou confinado apenas ao trabalho de estúdio, porém, quando nem isso mais o músico era capaz de entregar, a banda decidiu demiti-lo, o que foi feito em março de 1968 e comunicado à imprensa no mês seguinte. O álbum A Saucerful of Secrets, portanto, trazia contribuições de Barrett e Gilmour.

Barrett ainda tentou uma carreira solo e teve dois álbuns lançados – produzidos com a ajuda de Gilmour e Waters – porém, sua instabilidade mental inviabilizou tudo, e no fim das contas, ele terminou sob a tutela de sua família, em Cambridge, isolado de todos, se dedicando apenas à pintura e longe dos holofotes, até morrer no ano de 2006.

Sem Barrett, o Pink Floyd se alicerçou nas composições de Waters e Wright (que brevemente foi o vocalista principal), enquanto continuaram a explorar o experimentalismo psicodélico herdado do ex-membro em longas suítes instrumentais cheias de dissonâncias. Rapidamente, a guitarra mais melódica e potente de Gilmour e sua belíssima voz se mostraram adesões fundamentais ao grupo, que passou por uma fase de adaptação ao novo estilo, com menores destaques estéticos, mas ainda chamando a atenção da imprensa e mantendo a proeminência no circuito underground (tanto na Grã-Bretanha quanto no resto da Europa), enquanto lançavam discos como More (1969) e Ummagumma (1969).

Porém, a verdade é que, internamente, o Pink Floyd se sentia perdido e sem rumo, e na busca de uma nova identidade, começaram gradativamente a se afastar o experimentalismo mais radical em prol da capacidade recém-descoberta de combinação composicional entre Waters, Gilmour e Wright e a emergência de Waters como um letrista acima da média, o que resultou em obras mais acessíveis ao grande público, como Atom Heart Mother (1970), Meddle (1971) e Obscure by Clouds (1972), que inclusive, começaram a abrir o mercado dos EUA, até então, indiferente ao grupo.

Wright, Waters, Gilmour e Mason em 1973, quando atingiram o topo.

O Pink Floyd pós-Barrett encontrou sua real identidade a partir de Dark Side of the Moon (1973), disco no qual as canções se sobrepõem às peças experimentais, mas ainda assim, mantêm intactas o espírito avant-guarde, a psicodelia e uma belíssima sonoridade melódica, construída sobre as canções fortes de Waters, suas letras pungentes, as melancólicas melodias de Wright, a boa bateria de Mason, a guitarra melódica de Gilmour e sua voz angelical. Como resultado, o álbum se tornou um fenômeno ímpar de sucesso e alçou o Pink Floyd ao mercado popular mundial pela primeira vez, se transformando num dos grupos de maior sucesso da época, ao lado dos já extintos Beatles e dos ativos Rolling Stones ou Led Zeppelin.

Seguiu, então, a fase mais clássica do grupo, com álbuns de imensa qualidade e sucesso, como Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979), porém, a unidade da banda foi destruída pela popularidade e a postura cada vez mais autoritária e controladora de Waters, o que resultou na demissão de Wright após as sessões de The Wall, e ao álbum The Final Cut (1983), já gravado com Waters, Gilmour e Mason agindo como um não-time. Por isso, em 1985, Waters decidiu encerrar o grupo, mas Gilmour e Mason reagiram na Justiça para manter a banda ativa sem Waters, o que gerou um ruidoso processo judicial vencido pela dupla.

Mason, Gilmour e Wright em 1994.

Recrutando Wright de volta, o Pink Floyd como um trio lançou A Momentary Lapse of Reason (1987), que fez um grande sucesso e gerou uma enorme turnê, seguida depois por The Division Bell (1994), e outra turnê após ao qual a banda efetivamente encerrou as atividades, embora nunca tenha anunciado o fim oficial. Os fãs alimentavam a esperança de um retorno, e foram surpreendidos com uma última reunião do quarteto clássico em 2005 para participar do Live 8, o concerto beneficente em prol do perdão da dívida dos países pobres, contudo, qualquer esperança de uma volta real se encerraram com a morte de Wright, por câncer, em 2008.

Contada a carreira do grupo em linhas gerais, vamos aos seus álbuns… Via de regra, a Discografia Oficial do Pink Floyd consiste em 15 álbuns lançados entre 1967 e 2014, a seguir:

  • The Piper at the Gates of Dawn – 1967
  • A Saucerful of Secrets – 1968
  • More – 1969
  • Ummagumma – 1969
  • Atom Heart Mother – 1970
  • Meddle – 1971
  • Obscured by Clouds – 1972
  • Dark Side of the Moon – 1973
  • Wish You Were Here – 1975
  • Animals – 1977
  • The Wall – 1979
  • The Final Cut – 1983
  • A Momentary Lapse of Reason – 1987
  • The Division Bell – 1994
  • The Endlesse River – 2014

Vamos descrever e detalhar cada um desses lançamentos, mas especialmente na parte inicial dessa discografia, iremos também adicionar os lançamentos em singles (compactos), porque nos anos 1960 se tinha o costume (depois abandonado) de lançar canções exclusivamente em compactos como forma de promover um álbum vindouro ou aproveitar períodos de esquentamento de mercado (com a época natalina). Portanto, existem faixas que compõem a discografia da banda e que são importantes à sua história que jamais fizeram parte dos álbuns oficiais “de linha”.

A lista acima exclui discos ao vivos, coletâneas, box sets e outros tipos de lançamentos “complementares” à Discografia Oficial, que também detalharemos mais adiante após a apresentação dos álbuns que compõem a obra do Pink Floyd em si mesma.

Portanto, coloque seu diamante para brilhar, ilumine o prisma na sala, derrube o muro que te aprisiona, aprenda a voar e navegue pelo rio sem fim para, num lapso momentâneo de razão, você possa curtir a viagem e beleza da música do Pink Floyd. Venha conosco, pois desejamos que você esteja aqui!

Discografia Oficial

  • Arnold Layne/ Candy and a currant bun – março de 1967

Como era mandatório nos anos 1960, o Pink Floyd estreou primeiro com um compacto de duas faixas. A faixa principal, Arnold Layne, é uma típica representação do estilo de Syd Barrett, o compositor da canção: uma letra jocosa sobre um homem que rouba calcinhas e roupas íntimas femininas para vesti-las diante de um grande espelho, e que termina preso por isso. Roger Waters disse certa vez em uma entrevista que ele e Barrett foram vizinhos na infância e que realmente alguém roubava roupas íntimas dos varais da região. Em termos de sonoridade, apesar do aceno pop, Arnold Layne não remete nem a Beatles nem a Rolling Stones, e é marcada pelos timbres psicodélicos, especialmente nas guitarras de Barrett e nos teclados de Richard Wright.

Apesar de ser o primeiro lançamento oficial da banda, eles já tinham gravado outras faixas antes para o documentário Tonite Let’s All Make Love in London, do ano anterior, sobre a cena underground da cidade. Com o contrato da EMI, o Pink Floyd voltou aos estúdios Sound Techniques, em Chelsea, em janeiro de 1967, sob a produção de Joe Boyd, e gravaram seis faixas, das quais Arnold Layne foi escolhida para o single de estreia, porque era a canção que achavam mais “popular” e, apesar de ter entre 10 e 15 minutos de duração, por causa de suas passagens instrumentais, poderia ser editada para algo de 3 minutos sem grandes perdas. A gravadora EMI tinha uma política de só usar seus próprios estúdios em Abbey Road, e o Pink Floyd regravou as duas faixas do single lá, mas não achou o resultado tão bom quanto da primeira tentativa e lançou a versão do Sound Techniques.

Embasado na fama que a banda havia conquistado nos clubes londrinos, essa canção estranha e de humor negro chegou ao 20º lugar das paradas britânicas, entrando, portanto, no Top20, consolidando de cara o Pink Floyd como os maiores representantes do underground psicodélico do Reino Unido.

  • See Emily play/ The scarecrow – junho de 1967

Já em meio à gravação de seu primeiro álbum, nos estúdios Abbey Road da EMI com o produtor Norman Smith, a gravadora solicitou que lançassem um novo single. Syd Barrett compôs, então, See Emily play para a tarefa, baseado no evento Games For May que produziram com bastante sucesso algumas semanas antes e no que ele garantiu ser uma experiência real: estar deitado em um bosque e ver uma garota psicodélica correndo ali próximo em meio a uma “viagem”. A faixa terminou sendo gravada de novo no Sound Techniques, porque Smith não conseguiu reproduzir o mesmo som do single de estreia, e de novo, foi registrada como uma versão mais longa, com mais passagens instrumentais, e editada para um tamanho menor.

Um evento histórico importante ocorreu durante as gravações de See Emily play: Barrett convidou seu amigo de infância, e também músico, David Gilmour, para assistir a sessão, mas quando Gilmour chegou lá, um desconectado Syd parecia simplesmente não reconhecê-lo. Para Gilmour, aquilo era um sinal do nível de alteração de sua mente pelo uso frequente de LSD e que ele começava a não ser mais o mesmo de antes.

Ao contrário de Arnold Layne, Barrett não gostou do resultado e se recusava a tocá-la ao vivo, talvez, repudiando o caráter mais explicitamente comercial da faixa. O Pink Floyd realmente a tocou muito pouco ao vivo, quase sempre sob a insistência de promotores, e nunca depois de novembro de 1967, mas ainda assim, o grupo dublou a canção três vezes no programa da BBC TV Top of the Pops, que trazia as faixas que estavam nas paradas, todas no mês de julho. Infelizmente, a emissora depois apagou esses registros que são os únicos conhecidos do grupo a tocando, e apenas recentemente um trecho de alguns segundos foi redescoberto nos arquivos, bastante danificado.

See Emily play foi um grande sucesso na época e chegou ao 6º lugar das paradas britânicas e foi lançada nos Estados Unidos (a estreia do grupo naquele país), embora alcançando apenas o 134º lugar.

pink floyd the piper at the gates of dawn
O primeiro álbum da banda.

The Piper at the Gates of Dawn – 1967

O disco de estreia do Pink Floyd pode ser um susto para aqueles que conhecem a banda apenas em seu período áureo bem mais tarde. Aqui, a banda faz um som tipicamente psicodélico, totalmente Acid Rock, cheios de sons estranhos e efeitos sonoros. As canções – em sua grande maioria assinadas por Syd Barrett – também são inusuais: às vezes não têm estrutura definida, nem refrões. Mas é um clássico do rock psicodélico dos anos 1960 e uma mostra do que a banda poderia ter sido se seguisse esse caminho por mais tempo. O disco equilibra canções abstratas e instrumentais com outras canções melhor estruturadas, mas nenhuma de caráter tradicional. O instrumental é marcado pela guitarra errática de Barrett e o teclado estridente de Wright, geralmente usando um farfisa organ carregando nos timbres agudos. O disco foi produzido por Norman Smith, que trabalhou com os Beatles anteriormente, e os maiores destaques são: Astronomy domine, Interstellar overdrive, Matilda mother, Bike, The scarecrow e Flaming.

A maior parte das composições de Barrett no disco têm um aceno folk, majoritariamente acústico, com letras muito britânicas, associadas às memórias da infância, especialmente em Matilda mother e Bike, embora o aspecto mais elétrico e espacial (com toques místicos) também esteja presente em Astronomy domine e Lucifer Sam. Barrett também faz os vocais principais, mas Richard Wright tem uma presença muito forte nas vozes, assumindo a liderança vocal em trechos de Matilda mother e Astronomy domine, por exemplo. É importante frisar que, apesar de Roger Waters e Richard Wright já escreverem material para a banda, apresentado nos shows e até gravados em estúdio, apenas Take up thy stethoscope and walk é creditada a Waters, ao passo que as instrumentais Interstellar overdrive e Pow R Toc H são creditadas ao quarteto em conjunto.

O enigmático título (“O flautista às portas da aurora”) foi retirado do livro The Wind in the Willows de Kenneth Grahame, e as gravações ocorreram nos estúdios Abbey Road da EMI, entre os meses de fevereiro e maio, ao mesmo tempo em que a banda fazia shows e turnês, e foi lançado em agosto de 1967, o disco fez parte do pacote de discos psicodélicos que embalaram o Verão do Amor, como Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles, Are You Experienced? do The Jimi Hendrix Experience e Disraeli Gears do Cream, fazendo um bom sucesso, chegando ao 6º lugar das paradas britânicas e causando uma grande sensação na Europa, especialmente na França, Alemanha e Bélgica.

Os meses em que os disco foi produzido, contudo, viram Syd Barrett consumir uma quantidade cada vez maior de LSD e ao final das sessões já era possível perceber que seu estado mental não estava mais tão normal.

  • Apples and oranges/ Paint box – novembro de 1967

Após as gravações de The Piper at the Gates of Dawn, a situação mental de Syd Barrett se agravou muito, ao ponto do grupo decidir cancelar uma série de apresentações na Europa e tirar um mês de férias para que ele se recompusesse antes de se reunirem para sua primeira turnê nos EUA. Mas a gravadora EMI queria um novo single para promovê-los naquele país (onde fazia parte do selo Tower da Capitol, que era subsidiária da EMI) e, em duas sessões distintas, em agosto e outubro de 1967, o Pink Floyd se reuniu nos estúdios de Abbey Road com o produtor Norman Smith para produzir uma série de gravações, desta vez, trazendo mais material de autoria de Roger Waters e Richard Wright do que de Barrett propriamente, com as faixas Scream thy scream (de Barrett) e Set the controls for the heart of the sun (de Waters) escolhidas como o novo single, mas a EMI achou as faixas muito estranhas e vetou. O grupo ainda tentou de novo com um novo Lado B (Vegetable man, de Barrett) também vetada.

Para liderar o single foi escolhida Apples and oranges (de Barrett), enquanto Paint box (de Wright e com ele nos vocais) ficou no Lado B. Roger Waters afirmou em entrevistas que Apples and oranges era uma ótima canção, mas que foi “destruída” pela produção de Norman Smith, que a teria deixado pop demais, para o desgosto do grupo e de Barrett. Mesmo assim, o compacto simplesmente não aconteceu nas paradas, sendo ignorado tanto no Reino Unido, quanto nos EUA, embora o grupo ainda tenha apresentado a faixa no The Pat Boone Show, numa performance de vídeo que sobreviveu ao tempo.

A turnê nos EUA, em novembro de 1967, contudo, foi um completo caos: o grupo teve dificuldade em obter o visto de trabalho e isso levou ao cancelamento dos seis primeiros concertos, e a estreia no Winterhall Ballroom, em San Francisco, abrindo para o The Big Brother Company de Janis Joplin, foi um fiasco, com Syd Barrett fora de si chegando a desafinar completamente sua guitarra de propósito. O resultado foi tão ruim que a turnê foi cancelada no meio e a banda retornou frustrada à Inglaterra.

Pink-Floyd saucerful of secrets
A capa de Saucerful of Secfrets: experimental até na capa.

A Saucerful of Secrets – 1968

Muita coisa mudou entre o primeiro e o segundo disco e A Saucerful of Secrets é um daqueles discos que só faz sentido ao descortinar sua história. Os abusos com drogas alucinógenas e uma pretensa esquizofrenia fizeram o comportamento de Syd Barrett se tornar cada vez mais lunático, de modo que ele terminou sendo afastado da banda. Além da turnê dos EUA, o caos ficou ainda pior na turnê britânica em novembro de 1967 acompanhando The Jimi Hendrix Experience e várias outras bandas, com Barrett incapacitado em várias noites, sendo substituído às pressas por outros músicos para a banda tentar se manter ativa ou minimamente eficiente.

O Pink Floyd como um quinteto (com David Gilmour abaixo).

Ao fim da excursão, o grupo decidiu trazer o amigo David Gilmour para reforçar o grupo, garantindo a execução de guitarra e vocais caso Barrett não pudesse. Em janeiro de 1968, o Pink Floyd atuou brevemente como um quinteto em alguns concertos, mas logo, Barrett começou a se ausentar completamente, ao ponto de decidirem se apresentar sem ele. Inicialmente, se queria que o compositor continuasse trabalhando com a banda, sem tocar ao vivo, apenas em estúdio, como músico e compositor, como Brian Wilson fazia com os Beach Boys, mas nem isso foi possível. Barrett seria desligado da banda em fevereiro de 1968 e o anúncio oficial ocorreu em abril.

Por isso, A Saucerful of Secrets é um obra desigual, no sentido de que foi fruto de várias sessões distintas: desde uma sobra do primeiro álbum; passando para as sessões entre agosto e novembro de 1967, para o single de Apples and oranges; e a parte central do álbum, já com David Gilmour no lugar de Barrett, entre janeiro e abril de 1968, nas quais trazem faixas de autoria de Waters e Wright. Oficialmente, Set the controls for the heart of the sun (de Waters) é a única faixa a trazer o Pink Floyd como um quinteto, pois traz Barrett na guitarra e overdubs adicionais de Gilmour, especialmente, na parte do fim. Contudo, o engenheiro de som da banda, Andrew King, garantiu em entrevistas que foi Barrett quem realizou o solo de slide guitar no fim de Let there be more light (de Waters), que traz Gilmour na guitarra. A própria banda julgou que não tinha material bom o suficiente para encher um álbum, o que motivou a criação da faixa-título – uma longa peça instrumental muito experimental, num estilo similar a de Insterstelar overdrive, e assinada pelo novo quarteto – e a manterem faixas gravadas com Barrett, como Set the controls for the hearts of the sun, Remember a day (de Wright, gravada ainda para The Piper at the Gates of Dawn, mas com uma sobreposição de slide guitar gravada por Barrett nas sessões de agosto) e Jugband blues, a única do set list final a trazer Barrett nos vocais e ser de sua autoria, também. Ainda assim, optaram por excluir Scream thy scream e Vegetable man.

O resultado final traz um álbum ainda bom, mas sem o brilho e frescor do primeiro. Richard Wright emerge como o vocalista principal do disco (pela única vez na carreira do grupo) e algumas faixas são fortes, como o caráter espacial de Let there be more light, a beleza melancólica de Remember a day, o clima psicodélico de Set the controls for the hearts of the sun e os excessos de A saucerful of secrets. Gilmour estreia um pouco tímido, mas sua guitarra brilha nos pedais wah-wah de Let there be more light e Corporal clegg (primeira faixa antiguerra de Waters). E mesmo posto de lado em um papel coadjuvante, Barrett tem destaques, especialmente com o maravilhoso trabalho de guitarra slide em Remember a day e no final de Let there be more light.

A capa do álbum foi a primeira produzida pela Hipgnoses, sendo apenas a segunda banda da EMI (depois dos Beatles) a serem autorizados a usar designers de fora da gravadora. O artista Storm Thorgerson criou uma impressionante ilustração combinando a sobreposição de fotos e slides sobre uma gravura da HQ Doctor Strange da Marvel Comics, desenhada pela artista Marie Severin, presente na revista Strange Tales 158, daquele ano de 1968, e que traz o Doutor Estranho (quase invisível na mancha escura da direita) enfrentando o Tribunal Vivo (bem visível no topo à esquerda) e com uma conjunção de planetas (ou um único planeta replicado em várias figuras para dar a ideia de movimento) mergulhando num Buraco de Minhoca entre ambos, que ocupa a lateral esquerda da capa. Há também uma discreta fotografia da banda em um barco, além de garrafas, luminárias e o reflexo d’água para compor os incríveis efeitos da capa.

Lançado em junho de 1968, A Saucerful of Secrets chegou ao 9º lugar das paradas britânicas, um resultado excelente, dentro do Top10, mas a crítica não foi tão positiva quanto no primeiro, o mesmo valendo para os EUA, onde não entrou nas paradas. Os EUA lançaram Let there be more light como single, mas também não aconteceu nas paradas. No Reino Unido, a banda queria lançar Corporal clegg como single, e até produziram um vídeo dela, mas a gravadora vetou. Na Europa, o álbum foi muito bem recebido, em especial na França, onde ficou no 10º lugar, o que rendeu várias apresentações do novo quarteto Waters, Gilmour, Wright e Mason naquele país ao longo do ano.

O HQRock tem um post especial sobre A Saucerful of Secrets. Leia aqui!

  • It would be so nice/ Julia’s dream – abril de 1968

Para promover o álbum A Saucerful of Secrets, foi lançado este single com duas canções de caráter mais adocicado, com It would be so nice (de Wright) e Julia’s dream (Waters). Como escrito, a banda queria lançar Corporal clegg como single, mas a EMI vetou, e ao passo que a gravadora queria lançar Let there be more light como compacto, e isso implicaria em tirá-la de dentro do álbum, as partes concordaram em lançar It would be so nice, uma faixa cantada também por Wright no qual ele narra as delícias de uma vida simples e comum, com a mulher amada e lendo o jornal. No geral, o grupo detestava esta canção e não se esforçou em divulgá-la nem em tocá-la ao vivo, o que resultou nela não aparecendo nas paradas. Julia’s dream é um pouco melhor, mas também inócua e foi a primeira vez que Gilmour atuou como vocalista principal de verdade, já mostrando todo o seu potencial, mas a faixa não vai a lugar nenhum.

O compacto foi lançado em abril de 1968, apenas alguns dias depois do anúncio oficial da saída de Syd Barrett.

  • Point me at the sky/ Careful with that axe, Eugene – dezembro de 1968

Até aquele ponto, a EMI ainda acreditava no potencial do Pink Floyd como uma banda “popular” (em vista do desempenho de seus álbuns), portanto, comissionou o lançamento de um single para o mercado de Natal, com o grupo retornando ao Abbey Road para gravar essas duas canções.

Point me at the sky era uma composição de Waters e Gilmour e foi a primeira canção propriamente dita na qual o novo guitarrista atuou como compositor, pois fora creditado, até ali, apenas pela faixa instrumental A saucerful of secrets. A maior parte dos vocais (versos e a segunda parte do refrão) também são de Gilmour, com sua habilidade de fazer um falseto nos versos e retornar com uma voz forte e rouca na segunda metade do refrão, repetindo o título da canção; ao passo que Waters canta a primeira a primeira metade do refrão, quando a melodia acelera. Já Careful with that axe, Eugene é outra das faixas instrumentais e abstratas da banda, cheia de ruídos e com gritos agonizantes de Waters, creditada ao quarteto.

No fim, Point me at the sky não entrou nas paradas britânicas e nem foi lançada nos EUA, o que pode ser considerado um grande fiasco. A banda não ficou satisfeita com isso e a tocou muito pouco ao vivo, o que tornou a faixa uma raridade em seu catálogo e desconhecida até entre os fãs, pois não foi incluída em coletâneas até os anos 1990. O Lado B, com Eugene, ao contrário, foi bem mais bem sucedida, pois virou uma das faixas de assinatura da banda ao vivo, tocada à exaustão nos anos seguintes e incluída em coletâneas.

Todavia, por causa desse fracasso, o Pink Floyd simplesmente desistiu de lançar compactos e passou a se concentrar unicamente na produção de álbuns, o que era uma sinalização ao futuro do mercado de rock, que na década seguinte seria mais forte na produção em conjunto do que em sucesso de faixas individuais. Este disquinho também foi a última colaboração entre a banda e o produtor Norman Smith, que não concordava com o direcionamento mais experimental do grupo.

pink floyd more

More – 1969

Primeiro álbum gravado apenas com a chamada “formação clássica” – Gilmour, Waters, Wright e Mason – consiste na trilha sonora do filme de mesmo título, dirigido por Barbet Schroeder. É mais “tradicional” que os dois anteriores, com um toque de folk rock, mas um disco muito bom, no fim das contas. Como era um trilha sonora, o álbum foi gravado fora do esquema da EMI, nos Pye Studios, em Londres, durante apenas duas semanas entre janeiro e fevereiro de 1969, e as faixas foram compostas no estúdio, através de improvisações da banda, enquanto Waters escrevia as letras nos intervalos. Por isso, também, este é o primeiro disco autoproduzido pelo grupo, que passaria a repetir isso em praticamente toda sua obra restante. A capa foi feita por Storm Thorgerson da Hipgnosis, com aplicação de um filtro sobre uma imagem do filme para dar um efeito psicodélico.

Não custa recordar que esta não foi a primeira trilha sonora que o Pink Floyd escreveu, pois a banda esteve em The Commitee, um filme alternativo de 1968, apenas com peças instrumentais e abstratas, mas este material jamais foi lançado.

O filme More relata a história de um jovem que vai de carona para Ibiza, o paraíso marítimo espanhol, se envolve com uma garota e ambos têm problemas com o uso de drogas pesadas. Era o primeiro longametragem de Schroeder e ele queria que a maior parte da música do filme fosse ouvida pelos personagens nas cenas, através de rádios, aparelhos de som e música ambiente em bares e coisas assim, com apenas algum espaço residual para a tradicional trilha ambiente de cinema.

No disco, a maior parte das canções com letras se concentra no Lado A, com destaque para Green is the colour, The nile song, Cymbaline e são todas creditadas apenas a Waters, embora Gilmour faça todos os vocais principais do disco. As peças instrumentais em sua maioria são creditadas ao quarteto, embora Up the khyber seja de Mason e Wright e Gilmour assina sua primeira faixa solo com a instrumental Spanish piece. Talvez pela escassez de tempo, alguns temas musicais se repetem com ritmos ou letras diferentes, como The Nile song e Ibiza bar, por exemplo. The Nile song é uma canção peculiar dentro do repertório da banda, pois é um hard rock muito pesado, e jamais foi tocado ao vivo. Green is the colour é uma balada folk bastante bonita e integrou o repertório ao vivo pelo grupo no par de anos futuros, embora o arranjo nos shows fosse um pouco diferente, mais pautado no órgão, e mais bonito, até, conforme pode ser visto na versão ao vivo na rádio BBC, que saiu no box The Early Years, conforme veremos adiante.

Green is the colour e Cymbaline seriam incorporadas à peça The Man and the Journey, que o Pink Floyd apresentou nos palcos ao longo do ano de 1969 como se fosse uma ópera, que reunia composições novas e velhas para contar um tipo de história. A partir daqui, a banda abandona o uso de singles, embora eles continuassem saindo em outros países, como na França, que lançou The Nile song. O álbum chegou ao 9º lugar das paradas britânicas, outro resultado excelente, dentro do Top10, mas a recepção de novo foi mista, com The Daily Telegraph sendo positivo e a Rollin’ Stone sendo negativa.

pink floyd UMMAGUMMA

Ummagumma – 1969

Depois de um disco quase tradicional com More, o passo seguinte do Pink Floyd foi algo ainda mais experimental: um álbum duplo que mistura um disco ao vivo e outro em estúdio. A ideia era registrar o material de concerto da banda, ligeiramente distinto do que faziam em estúdio, e como uma forma de “encontrar um caminho”, pois a banda se sentia perdida naqueles tempos, fazer uma gravação na qual cada membro da banda teria a metade de um disco para apresentar material individual. Portanto, o Disco 1 reprisa canções dos dois primeiros álbuns em 4 faixas (duas cantadas, duas instrumentais) registradas em dois concertos: no Mothers Club, em Birmingham (em 27 de abril) e no Manchester College of Commerce (em 02 de maio), trazendo Astronomy domine, uma versão ligeiramente diferente de A saucerful of secrets, Set the controls for the heart of the sun e a também instrumental Careful that axe, Eugene (que havia saído no Lado B de um single). Uma versão de Insterstellar overdrive quase entrou no disco, mas foi deixada de lado, ao passo que a banda perdeu a oportunidade de registrar a integridade do show The Man and the Journey como um disco ao vivo, que talvez fosse mais interessante.

No Disco 2, em estúdio, cada membro comanda uma longa suíte que não raro chega aos 10 minutos de música instrumental abstrata, gravados em sessões esparsas entre entre setembro de 1968 e julho de 1969. Richard Wright comanda a totalmente instrumental Sysyphus, dividida em quatro partes de influências de jazz e música de vanguarda; Roger Waters preferiu fazer duas faixas distintas, com a cantada Grantchester meadows remetendo aos ares campais de Cambridge, numa peça bonita de voz e violão, e a experimental Several Species of Small Furry Animals Gathered Together in a Cave and Grooving with a Pict, formada apenas de ruídos e gritos; David Gilmour enfrentou um grande desafio, pois foi a primeira vez que precisou compor um material “de verdade” sozinho (e foi uma experiência quase traumática), entregando The narrow way em três partes, com as duas primeiras criadas a partir de efeitos diversos e avulsos de guitarra e a Part III trazendo uma boa canção com letra e cantada em falsete na qual ele toca todos os instrumentos (guitarras, baixo, teclados e bateria); fechando com Nick Mason em The Grant Vizier’s Garden Party em três partes de ruídos e percussão.

O conteúdo em conjunto dos dois discos transformaram Ummagumma na peça mais experimental que o Pink Floyd havia produzido em sua carreira em todos os tempos, mas a crítica gostou bastante, e o álbum chegou ao vitorioso 5º lugar nas paradas britânicas (a melhor posição da carreira deles até ali!), inclusive, ingressando pela primeira vez na parada americana da Billboard, na 74ª posição! O álbum foi muito bem na Europa, também, especialmente na França (5º lugar), Alemanha e Holanda. Todavia, apesar do sucesso, a banda julgou – em médio prazo – o álbum como um fiasco pessoal, pois não sentiram que criaram algo do qual podiam se orgulhar, e como resumiu Mason em uma entrevista, “é o típico exemplo de que o todo é melhor do que a soma das partes”. Tanto que pouco do material foi tocado ao vivo, e somente Grantchester meadows e The narrow way (Part III) sobreviveram no repertório por um curto período de tempo. O disco deixou de fora Embryo, uma faixa que tocaram ao vivo (inclusive na rádio BBC) e era parte de The Man and the Journey e virou uma peça rara entre os colecionadores.

Depois desse disco, o Pink Floyd demorou 29 anos para lançar outro material ao vivo oficialmente em disco. E sua capa, também Hipgnosis, foi a última a trazer uma fotografia da banda.

Pink-Floyd atom heart mother

Atom Heart Mother – 1970

Após a má experiência com a trilha sonora do filme Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni (falaremos sobre isso mais abaixo), o Pink Floyd se reuniu nos estúdios Abbey Road em janeiro de 1970 para ensaiar material novo criou uma nova longa peça instrumental, ainda sem título, que apresentou ao vivo já no dia 17 de janeiro na Hull University e continuou a aperfeiçoá-la nos shows seguintes até começar a gravá-la no mês de março. Mas dessa vez, acharam a faixa muito sem foco e decidiram convidar o compositor vanguardista Ron Geesin para escrever um arranjo orquestral sobre o material da banda, o que ele fez com um naipe completo de sopros, violoncelo e coro de 16 vozes. O resultado final foi batizado de Atom heart mother quando a banda precisava de um título para apresentá-la na rádio BBC, e Waters leu uma reportagem sobre uma mulher equipada com um marcapasso atômico alimentado por plutônio.

Com seus 23 minutos de duração, a faixa Atom heart mother ocupa todo o Lado A do álbum e foi aclamada pela crítica, sendo executada ao vivo pelo Pink Floyd dezenas de vezes, algumas delas, inclusive, com orquestra e coro, embora depois de um tempo, a banda desgostou dela pelo problema original: falta de foco. O Lado B do álbum é composto de quatro faixas, uma cantada por cada compositor da banda e outra peça instrumental mais experimental. Como em Ummagumma, as três canções são desenvolvimentos individuais, embora, desta vez, com participação da banda completa na execução: Waters traz a bela balada folk If, melancólica e sobre o sentimento de culpa; Wright entrega Summer of ’68, bastante britânica em sua estrutura, algo tributária da velha It would be nice, e com a curiosa letra sobre uma má experiência com sexo casual com uma grupie; e Gilmour, mais uma vez, precisou ficar trancado no estúdio para conseguir escrever Fat old sun, outra bonita balada folk, cantada em falsete por sua bela voz, que virou uma das favoritas dele. Já Alan’s psychedelic breakfast foi gerida por Mason a partir da ideia de gravar a preparação e consumo de um café da manhã repleto de efeitos sonoros, batizado em homenagem ao roadie da banda, Alan Styles. A capa de Storm Thorgerson traz simplesmente a fotografia de uma vaca (Lulubelle III, segundo o proprietário) no campo sem nenhuma indicação de autoria ou título, o que viraria uma marca da banda. A contracapa mostrava mais vaquinhas e também não tinha nenhuma informação, com o nome do álbum e da banda aparecendo apenas na lombada lateral, no material interno e no selo.

O famoso “disco da vaca” (mais conhecido por sua capa do que por seu som) foi o primeiro álbum da banda a chegar ao número 01 das paradas britânicas! O disco também ficou no Top10 na França, Alemanha e Holanda , e nos EUA ficou em 55º lugar, nada mal para uma peça tão experimental. Era uma época muito estranha: o disco só tem cinco faixas, duas delas instrumentais com mais de 10 minutos de duração. Porém, em longo prazo, o Pink Floyd terminou por considerar o álbum um ponto ainda mais baixo do que Ummagumma. Felizmente, se houve uma depressão criativa do grupo entre More e este disco, tal fase acabou aqui, e em seguida viria a parte mais célebre da carreira do grupo.

Pink_Floyd_-_Meddle

Meddle – 1971

O Pink Floyd chega à sonoridade (o chamado space rock) que lhe faria famoso em um futuro próximo e começa a lenta conquista dos Estados Unidos com o lançamento de Meddle, em novembro de 1971. De novo, a banda se sentia perdida e sem rumo quando começou as gravações em abril daquele ano, alternando sessões entre turnês pela Europa, Ásia e Estados Unidos, porém, durante o processo de criação, agora como uma banda realmente, com todos colaborando na criação de passagens instrumentais, começou a brotar algo que reconheciam como próprio deles. Unindo o talento crescente de Roger Waters para compor canções melódicas e escrever letras poderosas, com as improvisações instrumentais que rendiam belas passagens harmônicas, o grupo encontrou seu rumo e produziu a primeira obra memorável desde A Saucerful of Secrets!

O álbum abre com a instrumental One of these days, construída em torno de uma sequência de baixo de Waters e construindo uma faixa envolvente, sem ser abstrata e “sem foco” como as criações dos dois álbuns anteriores, e segue por duas baladas de acento folk – chamadas de pastorais, por remeterem à vida no campo nos sentimentos que geram – com A pillow of winds (uma canção de amor quase tradicional, exceção dentro da obra do grupo) e a belíssima e delicada Fearless (que ganha o hino da torcida do Liverpool F.C. no fim); passando pela jazzística San Tropez e a mais experimental Seamus (simplesmente um blues acompanhado pelos uivos do cachorro de Steve Marriott, das bandas Small Faces e Humble Pie, a quem Gilmour estava cuidando naqueles dias).

Foto do encarte do disco.

Mas claro, a peça central da obra inteira é Echoes, uma faixa que, pela primeira vez, une os dois estilos do Pink Floyd (canções melódicas bonitas com passagens instrumentais experimentais) de modo bem-sucedido em uma única faixa. Iniciada a partir da experimentação de Wright com um piano passando pela caixa de um órgão Leslie (que tem um amplificador com um oscilador), produzindo um som muito agudo, que parece um sonar, ela se desenvolve numa bonita sequência de acordes emoldurada por uma letra de temas submarinos de Waters, carregadas em um inédito e belíssimo vocal em dueto de Gilmour e Wright, e intercalando passagens com solos de guitarra e paradinhas pesadas, além de ruídos que soam como gaivotas agonizantes, Echoes é uma obra-prima maravilhosa e a amostra do que o Pink Floyd tem melhor em todos os seus aspectos. Com 22 minutos, ela ocupa todo o Lado B do álbum.

A capa do álbum, outra vez de Storm Thorgerson e Hipgnosis, é uma das mais enigmáticas da banda, com sua imagem abstrata que os autores garantem ser simplesmente uma orelha debaixo d’água, como forma de representar o aspecto submarino de Echoes. O disco foi muito bem recebido na época de seu lançamento e chegou ao 3º lugar das paradas britânicas, ficando dentro do Top10 de França, Espanha, Bélgica, Holanda, Itália, Áustria, e nos EUA – onde a banda ainda era desconhecida – chegou ao 70º lugar. Sem dúvidas, Meddle (cujo o título é uma brincadeira com a palavra medal) é o início de uma fase nova para o grupo, deixando os aspectos excessivamente de vanguarda pós-Syd Barrett e entrando em sua melhor etapa, galgando mais popularidade também, começando a pôr os pés fora do underground.

Outro elemento associado a Meddle que é importante é o filme-concerto Live at Pompeii, gravado ao vivo nas ruínas do anfiteatro grego da cidade romana de Pompeia, destruída pelo Vulcão Vespúcio no ano 79 d.C., na qual o grupo toca sem plateia num efeito desconcertante, filmado por Adrien Maben. Captado em outubro de 1971, com cenas adicionais em dezembro, foi lançado nos cinemas em setembro de 1972 e virou uma peça bastante admirada, trazendo um recorte pungente do Pink Floyd ao vivo daqueles tempo, inclusive, uma versão de Echoes (no filme, dividida em duas partes) ainda melhor do que no álbum. O lançamento, infelizmente, ficou restrito aos cinemas, e uma versão em áudio só foi lançada como parte do box-set The Early Days 1967-1972, em 2016, e finalmente ganhou um lançamento separado, como álbum acompanhando o filme Live at Pompeii MCMLXXII, com uma nova mixagem pelo badalado produtor Steven Wilson.

pink floyd obscure by clouds

Obscure by Clouds – 1972

Outra trilha sonora de um filme de Barbet Schroeder (o mesmo de More), agora chamado La Valleé, e consistindo uma obra curiosa na discografia do Pink Floyd, pois embora soe bem menos experimental que as do passado recente, traz um bom conjunto de números instrumentais e algumas estranhezas. A sonoridade continua justamente do ponto em que Meddle parou, mas já antecipando vários timbres e movimentos que estariam em Dark Side of the Moon, inclusive, porque Obscured by Clouds foi gravado num momento em que a banda já apresentava Dark Side… ao vivo nos concertos e já havia começado a gravá-lo em estúdio.

La Valleé conta a história de um casal de jovens que vai em uma busca espiritual na Nova Guiné e o Pink Floyd escreveu e gravou a trilha em duas sessões ocorridas entre fevereiro e abril de 1972, antes e depois de uma turnê pelo Japão. O grupo assistiu a um corte bruto do filme e calculou o tempo necessário para a criação das faixas, que foram distribuída em suítes instrumentais e canções tradicionais. A banda se desentendeu com a produtora francesa do filme, e por isso, decidiu batizar o disco de Obscured by Clouds, em vez de La Valleé, todavia, o filme terminou sendo lançado trazendo o nome do álbum como um tipo de subtítulo para vinculá-lo. A capa também não traz nenhuma vinculação especial: uma fotografia do filme, do protagonista em uma árvore colhendo um fruto, foi distorcida pela equipe da Hipgnosis, de Storm Thorgerson e Audrey Powell, ao ponto de se tornar apenas pontos abstratos.

A identidade sonora encontrada em Meddle frutificou ao longo dessas gravações e a banda produz uma sonoridade muito bonita e bem resolvida, ainda que, as faixas em si não sejam exatamente as melhores de sua carreira. Esta condição fez de Obscured by Clouds um dos álbuns menos conhecidos do Pink Floyd, ainda mais porque está no meio da fase mais clássica do grupo. Pouco de seu material foi tocado ao vivo pelo grupo, esmagado entre a popularidade e qualidade de seus antecessores e posteriores, Meddle e Dark Side of the Moon. Das 10 faixas, 4 são instrumentais, com destaques às duas primeiras, a faixa-título e When you’re in…, que funcionam quase como uma só e foram tocadas desta forma ao vivo nas turnês de 1972-73, usando de modo extensivo o novo sintetizador VCS 3, que a banda tornaria famosa no álbum seguinte. Ainda assim, essas faixas instrumentais soam como peças inacabadas e não têm uma boa resolução. Mason também usa bateria eletrônica em alguns trechos.

Entre as faixas cantadas, há duas composições de Wright que ganharam letras de Waters, Burning bridges e Stay, com esta última sendo uma rara balada romântica no repertório do grupo. Por sua vez, Gilmour finalmente se estabelece como um compositor com força própria, em duas parcerias com Waters (também fazendo as letras) em The gold is in the…, que é um grande rock com guitarras distorcidas e um ótimo solo (e que poderia ser uma faixa de bastante destaque se tivesse sido um pouquinho mais trabalhada), e Wot’s… up the deal, uma balada acústica muito bonita, mas nunca tocada ao vivo pelo grupo. Gilmour ainda compôs em solo Childhood’s end, baseada na obra de Arthur C. Clark, e que seria a última vez em que ele escreveria uma letra em um álbum da banda em 15 anos! A introdução dessa faixa traz Mason usando uma bateria eletrônica, criando o padrão que seria reutilizado na entrada de Time do disco seguinte.

Como se vê, a contribuição de Waters em termos musicais foi bem menor nesse álbum – ele provavelmente estava concentrando suas forças criativas no Dark Side of the Moon, mas ainda assim, o baixista entregou Free four, uma faixa que novamente traz o tema antiguerra e que, curiosamente, terminou sendo lançada como single pela gravadora americana Capitol Records e se tornou o primeiro hit do Pink Floyd nos EUA desde See Emily play, ainda que, como aquela, não exatamente na parada de sucessos, mas na execução das rádios. De qualquer modo, foi um passo importante ao grupo.

Chegando ao 6º lugar das paradas britânicas, e ainda marcando o 1º lugar na França (produtora do filme) e 3º lugar na Holanda, Osbcured by Clouds foi a melhor colocação que o grupo conseguiu nas paradas americanas da Billboard, chegando ao respeitável 46º lugar, o que fez dele o último disco do Pink Floyd como uma banda alternativa. Quando viesse o próximo, tudo mudaria!

Dark Side of the Moon – 1973

Dark Side of the Moon
A icônica capa criada por Storm Thorgerson.

O que mais dizer sobre esse disco? Gestado por mais de um ano e apresentado literalmente quase uma centena de vezes ao vivo antes do lançamento, este é o álbum mais famoso da banda, um de seus maiores sucessos e um fenômeno fonográfico.

Após ter ficado anos se sentindo perdida, a banda encontrou sua identidade e sonoridade em Meddle e isso os empolgou a trilhar um caminho. Logo após o lançamento daquele álbum, em novembro de 1971, o Pink Floyd se reuniu para ensaiar para uma grande turnê, e Roger Waters trouxe o conceito de um novo álbum: seguir um mesmo tema a partir das letras, escolhendo uma temática que já vinha permeando algumas composições anteriores, coisas da vida moderna que fazem com que as pessoas fiquem loucas. A loucura era algo que fascinava os músicos, pressionados pelas exigências do showbiz e com a lembrança sempre presente, como uma cicatriz não curada, do que ocorreu com Syd Barrett. Daí em diante, as coisas andaram muito rápido: o repertório do que seria o Dark Side of the Moon já foi executado na estreia da turnê em fevereiro de 1972. Dessa vez, o grupo decidiu fazer algo diferente: criar e tocar um álbum novo ao vivo antes de lançá-lo em disco.

O Pink Floyd em 1972, à beira da fama. Wright, Gilmour, Mason e Waters.

Embora o título tenha sido Dark Side of the Moon desde o início, quando a banda de blues rock Medicine Head lançou um álbum com esse mesmo título, o Pink Floyd adotou o nome Eclipse para a obra, apresentando-a assim por algum tempo até perceberem que o disco da Medicine Head fracassou nas bilheterias e retomaram a ideia original. Assim, quando o Pink Floyd gravou Obscured by Clouds, entre fevereiro e abril de 1972, o Dark Side of the Moon já era tocado na íntegra em seus shows, embora, até a versão final, seriam mudadas algumas canções e efeitos. A nova obra começou a ser gravada em maio daquele ano, mas as sessões foram constantemente interrompidas pela necessidade de fazer shows. Como antes, a banda se autoproduziu, mas contou com a ajuda fundamental do engenheiro de som Alan Parsons, parte do staff do Abbey Road Studios e que tinha trabalhado com os Beatles em discos como Abbey Road e Let it Be. Um gênio da eletrônica, Parsons era muito habilidoso na manipulação do equipamento, o que auxiliou bastante tanto na busca por efeitos e timbres, como em captar de modo muito cristalino o som produzido pela banda.

Tocar o material ao vivo antes de gravar se revelou uma grande vantagem e as sessões foram muito fluidas e profícuas, mas na medida em que o ano de 1972 se encaminhava para o fim, a tensão entre Waters e David Gilmour começou a crescer, com a dupla discordando de como deveria soar na mixagem final. Por causa disso, trouxeram o produtor Chris Thomas (também formado na escola dos Beatles, sendo auxiliar de produção nos álbuns The White Album e Abbey Road, e que trabalhou também com Elton John) foi convidado como “consultor de mixagem” para dar uma polida no som que servisse como intermediário entre os dois líderes da banda e servisse como árbitro. As gravações foram concluídas em fevereiro de 1973, exatamente um ano após a peça estrear nos palcos.

Dark Side of the Moon traz uma sonoridade magnífica com letras fortes sobre a alienação e opressão do homem no mundo moderno. Destaques: Breathe, Time, The great gig in the sky, Money, Us and them, Brain demage e Eclipse. É o disco que definiu a sonoridade por excelência do Pink Floyd: com a melódica e triste guitarra de Gilmour e os teclados melancólicos de Wright fazendo uma “cama sonora”, ao mesmo tempo em que as composições e as letras de Waters fazem grandes críticas ao mundo moderno. Aliás, Waters criou neste disco um grande conceito sobre a alienação e a violência, tratando das dores do “homem comum” e de como a insanidade pode estar virando a esquina. É um trabalho magistral.

Luzes do prisma viram batimentos cardíacos no encarte do disco.

A icônica capa foi criada, como de costume, pela equipe de Storm Thorgerson e Hipgnosis, a partir de uma solicitação de Richard Wright de que fosse simples e poderosa, e a imagem do prisma com o arco-íris remetia mais ao show de luzes que o grupo usava ao vivo do que ao título do álbum. Além da portada, o feixe de luz prossegue pelo encarte do disco e pelo verso, de modo que, como o vinil foi lançado com uma capa dupla, nas lojas de discos se podia colocar uma cópia ao lado da outra formando uma imagem sem fim de bastante beleza. A embalagem original não trazia uma fotografia da banda, apenas fotos das pirâmides do Egito, o feixe de luz e as letras de todas as canções, no entanto, as versões posteriores em CD incluíram um conjunto de quatro fotos dos membros tocando ao vivo e uma do grupo em conjunto.

Sendo apenas uma banda cult ou alternativa até então, tudo mudou com o lançamento de Dark Side of the Moon em março de 1973: o disco não foi um sucesso, foi um fenômeno cultural, o que tornou o grupo incrivelmente famoso, em par com Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin. O álbum chegou ao 1º lugar das paradas da Billboard nos EUA, e impressionantemente, apenas ao 2º lugar das paradas britânicas, mas prosseguiu como um dos discos de maior sucesso da história. Ele atingiu o recorde de ficar 736 semanas não consecutivas no Hot200 da Billboard, entre março de 1973 e julho de 1988! E nem parou por aí: em maio de 2006 já tinha atingindo 1.716 semanas! Nos EUA, o disco foi certificado com 15 discos de platina, o que significa que vendeu mais de 15 milhões de cópias e é a obra de maior sucesso do Pink Floyd por lá. No Reino Unido, é o 7º álbum mais vendido da história. Quando o Pink Floyd entrou em um processo judicial contra o RingTunes, a corte estimou que o álbum vendeu algo como 45 milhões de cópias no mundo inteiro.

O HQRock tem um post específico sobre a produção do Darkside of the Moon. Leia aqui!

pink floyd WishYouWereHere (moldura)

Wish You Were Here – 1975

A banda faz um tributo ao seu ex-líder e fundador, Syd Barrett, em letras sobre a loucura e o mundo do showbizz. A sonoridade espacial e melancólica do Pink Floyd atinge seu auge. Destaques: Shine on you crazy diamond, Have a cigar, Wish you were here. Este álbum pode não ser melhor do que Darkside…, porém, é dono de uma beleza incrível em faixas impressionantes. O Pink Floyd volta à fórmula de apenas cinco faixas num álbum, mas agora novamente casando o experimentalismo instrumental com as canções de cunho folk. Shine on… é repleta de suítes (com destaque aos teclados de Richard Wright) e é dividida em 9 partes, das quais uma porção abre e outra fecha o disco. A letra é aquela que lida mais diretamente com o legado de Barrett, onde Waters constrói uma poética belíssima em homenagem ao velho amigo. A ausência é o tema que o compositor explora ao longo do disco, associando tal sentimento à indústria musical numa jogada genial. A faixa-título se transformaria numa das baladas mais famosas da banda.

O grande ponto para o Pink Floyd na época era: o que fazer após o apogeu? O megassucesso de Dark Side of The Moon os tirou do confortável lugar de banda underground europeia e os colocou no centro do pop mundial, como uma das bandas de rock de maior sucesso, em par nas paradas com os ainda ativos Rolling Stones e Led Zeppelin. Assim, enquanto excursionavam extensivamente entre 1973 e 1974, o grupo teve bastante dificuldade em escolher o projeto futuro, o que adiou o lançamento do álbum seguinte em dois anos, algo inédito na carreira da banda. Por um tempo, o Pink Floyd namorou a ideia de retornar à vanguarda ostensiva do passado em contraposição ao sucesso popular do presente e idealizaram a criação de The Household Objetcs, um projeto no qual usariam objetos do cotidiano para produzir “música”, inspirados na peça que usavam na velha The Man and The Journey e também na faixa Alan’s Psychodelic Breakfast que encerrava Atom Heart Mother, mas não conseguiram avançar no conceito e o melhor que conseguiram foram notas produzidas esfregando os dedos nas bordas de taças de vinho (que terminariam usadas em Shine on you crazy diamond), e partiram rumo a algo mais “tradicional”.

A banda continuava ativa criativamente, a despeito da falta de direção. Após passarem o ano de 1972 inteiramente na estrada (literalmente, de janeiro a dezembro), ao mesmo tempo em que gravavam Dark Side of the Moon (e já apresentando o disco ao vivo desde um ano antes do lançamento), a turnê prosseguiu (agora celebrando o lançamento do álbum) em 1973, entre janeiro e junho, com shows na França, Inglaterra e Estados Unidos (duas pernas), com uma pequena pausa e uma minitour de inverno na Europa entre outubro e novembro. Daí, o grupo fez uma longa pausa (para a época) e retornou aos palcos para a turnê de 1974, dividida em duas pernas: no verão, em junho, pela França, e no inverno, em novembro e dezembro, pela Grã-Bretanha. E foi durante os ensaios dessas turnês que o Pink Floyd começou a criar novo material, de modo que, como ainda eram comum em sua carreira, estrearam três longas faixas novas durante esses shows de 1974: Shine on you crazy diamond abria os concertos, seguida por Raving and drooling (que mais tarde seria rebatizada de Sheep) e You’ve got to be crazy (mais tarde rebatizada de Dogs), estas duas últimas só seriam devidamente gravadas no álbum Animals (1977). Mas a primeira era o embrião do que seria o novo álbum. O set list trazia as faixas novas primeiro, o álbum Dark Side of The Moon na íntegra no segundo bloco e o bis trazia uma faixa longa, alternando entre One of these days, Careful with that axe, Eugene ou Echoes.

Shine on you crazy diamond era uma peça dividida em nove partes, somando algo como 25 minutos e era uma canção melancólica em homenagem ao gênio de Syd Barrett escrita por Roger Waters sobre a qual David Gilmour e Richard Wright compuseram extensas partes instrumentais complementares. Ainda assim, quando a banda chegou ao estúdio Abbey Road em janeiro de 1975 para iniciar as gravações (com o novo engenheiro de som Brian Humphries, que tinha trabalhado com eles em More e em algumas turnês, pois Alan Parsons saíra para montar seu próprio grupo, The Alan Parsons Project, cujo primeiro álbum sairia em 1976), o Pink Floyd não tinha ainda uma ideia clara do que fazer e do que queria, o que se seguiu por semanas de apatia e desperdício de tempo, deixando todos frustrados e zangados. Demorou algum tempo para Roger Waters ter a ideia de tomar Shine on… como ponto de partida e criar um novo álbum conceitual baseado nas armadilhas do showbizz, agora que eram uma banda “rica e famosa”. Assim, teve a ideia de partir a longa suíte em duas partes e por três canções mais curtas no meio, exatamente como fizeram em Atom Heart Mother (1970), processo que terminou por excluir as novas Raviling and dooling e You’ve got to be crazy, que foram deixadas “para depois”. Gilmour foi inicialmente contra essa decisão, pois pensava que já tinham três ótimas faixas para compor 80% do novo álbum, em vez de arriscar algo novo do zero para o miolo do disco, bem como também não queria partir Shine on… em duas metades no início e fim do disco, mas foi voto vencido.

As gravações do álbum, como nas ocasiões anteriores, foram interrompidas por duas turnês nos EUA, em abril e junho, além, da participação da banda no lendário Knebworth Festival, em julho, o que aumentou o estresse das sessões e trouxe problemas para a voz de Roger Waters, que teve bastante dificuldades para realizar os refrões de Shine on… e os vocais de Have a cigar. Neste último caso, a banda julgou que nenhum dos takes trouxe a qualidade necessária para o lançamento, e como Gilmour e Wright não se sentiram aptos à tarefa, terminaram convidando o amigo cantor Roy Harper – que estava gravando um álbum na sala ao lado – para fazer os vocais principais da faixa, que terminaram no disco. Essa foi uma decisão da qual Waters se arrependeu amargamente ao longo dos anos e trouxe alguns problemas para a carreira de Harper, também, um artista folk alternativo.

Harper não foi o único músico convidado às gravações. O violinista de jazz Stéphane Grappelli também estava gravando em Abbey Road e terminou convidado a tocar na coda de Wish you were here, porém, o resultado final de seu solo de violino foi entendido como “fora do estilo” da canção ou do disco e foi enterrado na mixagem (é inaudível), ao ponto que a banda pensou que tivesse sido apagado da fita master, mas é possível ouvir essa versão na edição Experience lançada em CD em 2016. Também participou o saxofonista (e amigo de infância de Gilmour) Dick Parry, que havia tocado em Dark Side of the Moon e aparece na primeira metade de Shine on you crazy diamond. E as cantoras Venetta Fields e Carlena Williams cantam backing vocals na mesma faixa.

Tal qual como fizera com Dark Side of the Moon, o Pink Floyd teve a oportunidade de testar o álbum Wish You Were Here ao vivo antes mesmo de seu lançamento, ainda que, ao contrário do outro, não o executou na íntegra, mas apenas a maior parte. A turnê já citada, que foi chamada Wish You Were Here Tour, transcorreu com uma perna em abril e outra entre junho e julho de 1975, nos Estados Unidos e uma única data na Inglaterra no Knebworth Festival, trazia um primeiro bloco ainda com Raving and drooling e You’ve got to be crazy mais Shine on you crazy diamond dividida em duas partes tal qual no disco, com Have a cigar no meio; um segundo bloco com Dark Side… na íntegra; e um bis com Echoes. As outras duas faixas do álbum final, a faixa-título e Welcome to machine não foram tocadas ao vivo nessa ocasião e só apareceriam na turnê In the Flesh de 1977.

Roger Waters toca violão para Syd Barrett nas sessões de Wish You Were Here.

Um dos episódios mais pitorescos (ou tristes) da carreira do Pink Floyd ocorreu durante a etapa das mixagens finais do álbum, no início de junho de 1975, quando Syd Barrett apareceu no estúdio justamente durante a mixagem de Shine on crazy diamond, a faixa que era sobre ele. Ninguém sabe como ele foi parar lá, mas o fato é que Barrett estava muito acima do peso e tinha raspado os cabelos e as sobrancelhas, de modo que, como ficou perambulando pelo estúdio enquanto a banda trabalhava na mesa de som, ninguém o reconheceu por bastante tempo até Richard Wright perceber quem ele era. Barrett ouviu a faixa (aparentemente, não percebeu seu tema) e até se animou para gravar uma participação especial tocando guitarra, no entanto, na maior parte do tempo, o ex-membro da banda estava aéreo e falando coisas desconexas de modo que todos ficaram chocados e alguns choraram ao ver a condição de seu amigo, que na época, vivia sozinho e isolado em Londres. Barrett apareceu por três dias e depois desapareceu. Foi basicamente a última vez que os membros da banda o viram em vida. Depois disso, ele terminaria voltando para sua Cambridge natal e passaria a ser cuidado por sua família até sua morte em 2006 sem nunca ter retornado aos holofotes ou a uma vida que poderíamos chamar de “normal”.

Também é preciso mencionar o belíssimo trabalho visual que embala o álbum Wish You Were Here, criado mais uma vez pela equipe da Hipgnosis do designer Storm Thorgerson e do fotógrafo Aubrey “Po” Powell. Thorgerson acompanhou as gravações e os shows da banda para criar o material e embora o discurso de Waters (que escreveu as letras) era sobre a temática da desumanização trazida pela indústria fonográfica e o showbizz, o designer entendeu que o grande tema da obra é a ausência ou uma presença ausente, representada de modo exemplar (mas não somente por) Syd Barrett e construiu o material com base nisso, o que faz todo o sentido, veja a letra de Wish you were here em especial, mas também em Welcome to machine e até em Shine on you crazy diamond com sua menção a algo que não existe mais (“lembra quando você era jovem? Você brilhava como o sol! Brilhe, seu diamante louco!”).

A arte gráfica leva isso em conta: o álbum veio embalado em um saco preto (a ausência da arte) identificado por um adesivo em formato de selo com duas mãos robóticas se cumprimentando e o título do álbum. O aperto de mão – um símbolo de acordo – também é mencionado em Have a cigar e Welcome to machine, inclusive, na deturpação desse gesto, expresso na imagem que ilustra a capa real: dois homens engravatados se cumprimentando, mas com um deles em chamas. A imagem poderia ter sido obtida por meio da pintura, mas a Hipgnosis optou por um retrato real: a fotografia foi feita nos estúdios da Warner Bros. em Burbank na Califórnia com um dublê (Ronnie Rondell Jr.) usando um traje anti-chamas, protegido no rosto por gel não-inflamável, um capuz discreto e uma peruca à prova de fogo. Curiosamente, a EMI (Inglaterra), a Columbia (EUA) e Harvest (Europa) usaram frames distintos da mesma cena para compor suas capas. Internamente, outras imagens foram usadas: um homem de negócios com corpo invisível, uma mulher saltando em um lago sem movimentar a água, criando o mais belo material gráfico de um disco do Pink Floyd.

O megassucesso anterior de Dark Side… terminou criando uma grande expectativa ao lançamento do álbum Wish You Were Here, de modo que quando o disco saiu, em setembro de 1975, foi um sucesso absoluto, conseguindo a certificação de Disco de Ouro (na Grã-Bretanha e nos EUA) antes mesmo de chegar às lojas! E, claro, chegar ao 1º lugar das paradas de ambos os lados do Atlântico, acumulando a venda de pelo menos 13 milhões de cópias no mundo todo até o ano de 2004. Nos EUA, a Columbia lançou Have a cigar como single, com Welcome to machine no Lado B. Também fruto da alta expectativa, a crítica não gostou tanto do disco na época, mas isso mudou com o tempo e hoje está analisado como um dos melhores da carreira da banda e do gênero rock progressivo como um todo. O álbum foi um triunfo e tanto Gilmour quanto Wright afirmaram em entrevistas ser este o seu álbum favorito da banda, enquanto Waters considerou ele e seu famoso antecessor como os mais completos do Floyd enquanto banda.

Porém, Wish You Were Here também finaliza um ciclo da banda, marcado pela colaboração intensa entre os membros, não apenas na criação dos arranjos – que envolvem bons desenvolvimentos instrumentais de todos os quatro – mas efetivamente nos créditos de composição, com Waters, Gilmour e Wright assinando as duas metades de Shine on… e a faixa-título ser dividida entre Waters e Gilmour. Essa coletividade (pelo menos no sentido de “dar os créditos”) não será mais vista dali em diante por um longo período…

PINK FLOYD Animals Italy

Animals – 1977

A unidade que foi o Pink Floyd nos últimos quatro álbuns começa a ruir. Em meio a brigas e tensões, um álbum baseado em A Revolução dos Bichos de George Orwell. Última obra de rock progressivo da banda e a primeira em que Roger Waters faz quase todos os vocais. Destaques: Dogs e Sheep.

Após quatro anos trabalhando intensamente entre álbuns e turnês, o Pink Floyd fez uma longa pausa (para a época) em 1975. Daquela vez, o grupo promoveu o álbum Wish You Were Here em concertos antes do lançamento do disco, encerrando a turnê em julho e a bolacha chegando às lojas em setembro. Assim, a banda tirou um período de descanso até retomarem a gravação de Animals em abril de 1976. Nesse meio tempo, o contrato da banda com o selo Harvest da EMI se encerrou, e com ele, o artigo no qual tinham tempo ilimitado de estúdio em troca de uma taxa menor de royalties. Na renegociação, a banda preferiu uma parcela maior de seus direitos, agora que eram um enorme sucesso global, e construírem seu próprio estúdio, livres das limitações físicas e conceituais da tradicional gravadora britânica. Compraram então um prédio de três andares no número 35 da Britannia Row, no distrito de Islington, uma área residencial no norte de Londres. Lá, instalaram seus escritórios, abriram uma companhia de locação de equipamentos de som para shows (tendo o Queen entre seus clientes), uma maneira de fazer render o investimento neles quando estivessem ociosos, e claro, um grande estúdio musical.

O Pink Floyd ao vivo em Oakland, na Califórnia, em 1977.

A banda inaugurou o Britannia Row Studios em abril de 1976, começando as sessões de Animals, como um novo álbum conceitual com a ideia criada por Waters de uma analogia à A Revolução dos Bichos, mas tomando (em vez da crítica ao stalinismo da obra original) uma feroz crítica ao capitalismo, com acenos à crise econômica dos anos 1970, que aumentou o nível de desemprego e fez emergir uma nova onda conservadora que resultaria na eleição da Primeira Ministra Margareth Thatcher em 1979 (falaremos mais dela adiante). Nesse sentido, Animals também dialoga com o Movimento Punk que ganhou notoriedade na mesma época. O sentido agressivo das letras e dos vocais do disco eram acenos diretos ao punk.

As rusgas e frustrações que haviam aparecido nas sessões de Wish You Were Here cresceram em Animals, com Gilmour mais distante dessa vez (mais preocupado com seu casamento, realizado durante as sessões do disco anterior, e o nascimento de seu primeiro filho), e Wright e Mason com problemas nos seus casamentos, também afetando sua criatividade. Para compensar essa apatia, Waters começou a concentrar as funções musicais para si, o controle e a liderança da banda. Por causa disso, pela primeira vez em um álbum da banda, Waters emerge como o vocalista principal, cantando as 5 faixas, com Gilmour apenas cantando a primeira parte de Dogs. Além disso, Waters concentra a maior parte dos créditos de composições, com Gilmour, de novo, recebendo coautoria em Dogs e, pela primeira vez em um disco do Pink Floyd, Wright não recebe o crédito de autor em nenhuma das faixas. Não seria a última vez…

David Gilmour ao vivo.

Contudo, houve disputas em relação a isso: a frustração com a apatia dos colegas e o sentimento de liderança solitária fizeram Waters reivindicar mais crédito para si e não compartilhá-lo. Anos depois, Gilmour reclamaria em entrevistas que escreveu 60% da parte musical de Pigs (Three different ones), na qual há longas passagens de guitarra, ao passo que os críticos apontam que Wright teve um papel maior em Sheep, com várias seções de teclados, inclusive, uma longa introdução solo que deveria lhe render uma coautoria.

Ademais, apesar das gravações terem se estendido por oito meses, os trabalhos andaram bastante devagar, ainda mais porque o álbum resultou em apenas 5 faixas e duas delas já estavam escritas: Dogs e Sheep eram novas versões adaptadas ao conceito do disco de You’ve got to be crazy e Raviling and drooving, respectivamente, que havia sido escritas e tocadas durante os ensaios e concertos de 1974. Pigs (Three different ones) e Pigs on the wind eram as únicas canções novas e a última – para replicar a mesma estrutura do álbum anterior – foi dividida em duas partes.

O guitarrista Snowy White ao vivo com o Pink Floyd.

Outra curiosidade é que pela primeira vez em sua carreira, o Pink Floyd decidiu ter um músico fixo de apoio para a turnê subsequente e o guitarrista Snowy White foi convidado a acompanhá-los. White inclusive tocou nas gravações: quando Waters e Mason apagaram sem querer da fita o solo de guitarra de Gilmour em Pigs on the wind, convidaram White a fazer um solo, todavia, ele terminou não usado, já que a faixa seria dividida em Pigs on the Wind (part 1) e Pigs on the wind (part 2) e o solo que as unia foi descartado. Mas a faixa longa seria lançada como bônus na versão em fita K7 do álbum.

Até aqui, o Pink Floyd tinha conseguido equilibrar as composições e as letras de Waters com a musicalidade de Gilmour e Wright, mas este edifício desabou em Animals. A verborragia de Waters não casa mais com o som da banda e as canções perdem algo de sua beleza pujante dos discos anteriores. Wright tem uma participação mais discreta dessa vez e, embora Gilmour faça um dos solos mais impressionantes de sua carreira em Dogs, esta é também a única das faixas em que faz os vocais (e ainda assim, apenas na primeira parte). Desse modo, apesar de sua relevância temática e de algumas passagens geniais, Animals empalidece diante do restante da obra da banda em sua fase áurea. É o último álbum do Pink Floyd com os créditos de produção divididos entre o quarteto, a última obra de rock progressivo e o último disco da fase clássica no qual a banda funcionou como um grupo.

Programa da turnê na Alemanha.

A arte da capa também traz uma ruptura: infeliz com as propostas realizadas pela Hipgnosis, Roger Waters fez ele mesmo o design da capa (afinal, ele tinha formação em arte gráfica) e concebeu a ideia de um porco gigante flutuando acima da Battersea Power Station, uma gigantesca estação de energia térmica à beira do rio Tâmisa que vivia seus últimos dias em decadência, escolhida como símbolo da força (decadente) do capitalismo. O porco inflável foi criado pelo artista australiano Jeffrey Shaw e construído pela empresa alemã Ballon Fabrik, a mesma que construíra os zepelins nos anos 1930. Apelidado de Algie, o porco foi inflado com gás hélio e amarrado com correntes sobre a estação nos primeiros dias de dezembro de 1976 para ser fotografado por Howard Bartrop, enquanto a equipe do Pink Floyd contratou um atirador de elite para derrubar o porco caso se soltasse. No primeiro dia de trabalho, o tempo estava ruim e não gerou uma boa imagem do porco (que balançava muito), e no segundo dia, o atirador foi dispensado, mas o porco se soltou de suas amarras e voou descontrolado pelo sul de Londres, resultando no Aeroporto de Heathrow ter voos cancelados por algumas horas, até o porco pousar em uma fazenda em Kent. No terceiro dia, o tempo melhorou, mas no fim, Waters achou as fotos do primeiro dia mais impactantes, então, foi feita uma montagem com a estação do dia um e o porco do dia três. As letras do encarte foram copiadas a mão por Nick Mason.

O álbum foi lançado em janeiro de 1977 novamente com uma boa expectativa e chegou ao 2º lugar das paradas britânicas, ao passo que o Pink Floyd terminou o ano como os artistas com maior número de semanas naquele ano, a frente do ABBA, e nos EUA, o álbum chegou ao 3º lugar. A crítica também reclamou da mensagem política do disco e a recepção foi mista, em vista que bandas “grandiosas” como o Floyd começavam a ser vistas com algum desprezo dentro da lógica pós-punk.

Algie voa sobre o público na turnê In the Flesh.

O grupo saiu em uma ambiciosa turnê para promover o disco, chamada In the Flesh Tour, começando em janeiro e fevereiro na Europa, março no Reino Unido e entre abril e julho nos EUA e Canadá, pela primeira vez, tocando em estádios, em vez de ginásios ou arenas. Além do quarteto e do amigo Dick Parry no saxofone, o guitarrista Snowy White serviu de apoio para Gilmour na turnê, sendo a primeira vez que o grupo usava um de seus instrumentos “dobrado” como reforço. O espetáculo de luzes que a banda usava desde o início foi multiplicado, o som era um equipamento de absurda qualidade e potência e vários elementos cênicos eram usados, inclusive com o porco Algie flutuando sobre as cabeças do público, com efeitos pirotécnicos e tudo mais. O set list também era grandioso como nunca: a banda tocava um primeiro bloco com Animals na íntegra, apenas invertendo as faixas (abrindo com Sheep, Dogs entre as duas partes de Pigs on the wind e Pigs (Three different ones) fechando), tocava um segundo bloco com Wish You Were Here na íntegra (e na mesma ordem do disco – lembrando que na turnê de promoção daquele disco apenas duas faixas haviam sido tocadas) e encerrava com um bis com Money ou Us and them. O fato do grupo tocar para grandes plateias pela primeira vez na carreira trouxe uma série de problemas e um sentimento de alienação em relação ao público, o que vai reverberar na obra seguinte deles (veja abaixo).

Pink Floyd 1979-the-wall cover

The Wall – 1979

Após uma pausa em que Gilmour e Wright lançaram seus primeiros álbuns solo, a banda volta aos mesmos problemas – e os dois não têm mais material para contribuir, de modo que Roger Waters domina tudo, cantando quase todas as faixas, compondo praticamente todas as canções a agindo como um tipo de ditador dentro do grupo. The Wall é uma Ópera Rock que narra a história de um roqueiro atormentado pela morte do pai na guerra, uma mãe controladora e a incapacidade de se relacionar com os outros. Um álbum duplo de grande sucesso e um dos discos mais vendidos da história do rock. Destaques: Another brick in the wall (part II), Mother, Hey, you, Confortably numb e Run like hell. Definitivamente, este não é um álbum de rock progressivo, com o Pink Floyd fazendo uma sonoridade mais tradicional de rock clássico, com pouquíssimas passagens instrumentais mais demoradas. Gilmour canta apenas algumas das faixas, embora ainda faça bonito em Another brick in the wall (part II), Mother e Confortably numb, onde também produz seu solo de guitarra mais bonito e célebre. Esta ainda é uma das duas canções que coassina ao lado de Waters (as outras são Run like hell e Young lust). Wright novamente faz um trabalho mais discreto, já que chegou a ser demitido da banda em meio às gravações, por causa de uma desavença com Waters. Portanto, The Wall é o último disco da “formação clássica” do Pink Floyd. A produção do álbum coube a Waters, Gilmour, James Guthrie e Bob Ezrin e o sucesso insano obrigou a banda a lançar seu primeiro single em mais de uma década, com Another brick in the wall (part II), que se tornou a canção mais famosa no repertório do grupo.

Após a traumática turnê In the Flesh, o Pink Floyd decidiu tirar um ano inteiro de férias e Waters criou o conceito inicialmente chamado de Bricks on the Wall sobre a alienação de um artista perante seu público e a fama, os traumas e o ego o transformando em um fascista, como um reflexo de um episódio real: num concerto em Montreal, no Canadá, incomodado com um grupo de fãs na frente do palco gritando o tempo todo (pedindo hits), Waters terminou por cuspir na cara de um deles, se arrependendo amargamente. Daí, nasceu a ideia do rock star pervertido pelo showbizz que assume uma postura fascista e fantasia sobre violência e perseguição às minorias. Estruturou assim, um disco conceitual como foram Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e Animals, mas dessa vez, com uma história mais claramente delimitada, como uma ópera rock. A trama do álbum começa com o disruptivo concerto (com a faixa espertamente chamada de In the flesh?), passa por memórias desse personagem chamado Pink (claramente montado a partir da biografia de Waters, com seu pai morrendo na II Guerra Mundial, sua mãe controladora, os professores tirânicos na escola e sua esposa infiel (através de faixas como The thin ice, Another brick in the wall – part 1, Mother, Another brick in the wall – part 2, Young lust e One of my turns) até ele se isolar do mundo num estado total de depressão e apatia representado simbolicamente por um muro que construiu entre ele e o restante do mundo (Hey you, Nobody in home). Então, seu empresário chega para levá-lo ao show e injeta uma droga nele para que o músico se torne funcional (Confortably numb, The show must go on) e voltamos à cena do concerto (In the flesh – sem a pergunta) na qual Pink alucina como um fascista (Run like hell, Waiting for the worms) até cair em si, se arrepender de tudo e decidir derrubar o muro (The trial, Outside the wall).

O Pink Floyd na época de The Wall: relações rompidas.

A banda agendou de se reencontrar no Britannia Row Studios em julho de 1978 e Waters levou não somente uma gravação demo de The Wall de 90 minutos, mas também um segundo projeto – uma reflexão sobre a monogamia contada através de um longo sonho que um homem tem durante a noite – e deixou a banda decidir qual deles realizar. De modo unânime, a banda escolheu The Wall e o outro se tornaria o primeiro álbum solo de Waters (The Pros and Cons of Hitch Hiking, que sairia em 1984). Mas havia um problema: livres de compromissos, tanto Gilmour quanto Wright haviam gravado e lançado seus primeiros álbuns solo em 1978 (o guitarrista com um disco homônimo e o tecladista com Wet Dreams), porque haviam acumulado uma série de canções não aproveitadas nos últimos discos da banda, e estavam ambos sem faixas novas. Esse “detalhe” apenas aumentou o senso de controle de Waters, que assumiu a produção de The Wall como se fosse um disco solo dele e o Pink Floyd sua mera banda de acompanhamento.

E havia outros problemas: o gerenciamento do Pink Floyd havia repassado uma grande soma de dinheiro para ser investido pelo Norton Warburg Group (NWG), que o fez em negócios de alto risco (para gerar mais abatimento de imposto) que deram prejuízos. Como resultado, no verão de 1978, apesar de ser uma das bandas mais famosas do mundo, o Pink Floyd se viu na beira da falência! A produção do novo álbum se tornou, de partida, uma luta pela sobrevivência. O Pink Floyd processou a empresa por fraude e um dos investidores do NWG, Andrew Warburg, fugiu da Grã-Bretanha, e quando voltou ao país, em 1987, terminou condenado à prisão por três anos.

Track list do álbum em sua versão CD.

Quando o grupo se reuniu no estúdio e começou a esboçar os arranjos das novas canções de Waters, a postura arrogante e mandona do baixista tornou o clima muito ruim e a tensão só fez aumentar, ao ponto que acharam melhor trazer um produtor externo para ajudá-los a produzir o disco, algo que não faziam desde 1969! Waters escolheu Bob Ezrin, um amigo pessoal de sua esposa, e que tinha um bom currículo, trabalhando com Kiss, Lou Reed, Peter Gabriel e Alice Cooper. Mas ele também chamou o engenheiro de som James Guthrie com a promessa de ser um produtor, o que tornou os papeis de ambos um pouco confusos. Guthrie também substituiu Brian Humphries, que se demitiu da equipe da banda após tantos anos de pressão.

Ao longo do verão de 1978, o Pink Floyd mais Ezrin e Guthrie esboçaram não somente o conceito do disco (Ezrin escreveu um roteiro sobre The Wall de 40 páginas para seguir de guia) e os arranjos das canções e começaram a gravá-las, mas consideraram que o equipamento do Britannia Row não fazia jus à grandiloquência do disco, então, fizeram um incremento na aparelhagem. Mas os problemas financeiros obrigaram o grupo a se tornarem “exilados fiscais” tal qual os Rolling Stones alguns anos antes, e eles decidiram tirar um pequeno período de férias e se reunirem na França, em janeiro de 1979, no Super Bear Studios, próximo a Nice, mesmo lugar onde Gilmour e Wright gravaram seus discos individuais. A banda decidiu descartar todo o material gravado na Inglaterra – exceto a bateria de Mason, que foi transferida de um registro em 16 canais para outro mais moderno em 24 canais – e usaram todo o material prévio apenas como demos de referência.

Capa do box com o relançamento de The Wall em 2012: muitos bônus.

Mas os problemas continuaram… Waters, Gilmour e Ezrin tinham ideias opostas sobre como o disco deveria soar e isso gerou grandes brigas. Ezrin atuava como um intermediário entre Waters e Gilmour – como Chris Thomas o fizera em Dark Side… – porém, também tinha suas ideias e as coisas ficaram um pouco caóticas. Ezrin reclamou em entrevistas do comportamento bullyier de Waters e que o trabalho arruinou sua saúde mental. Por outro lado, Wright também estava preocupado com o som do disco, mas foi alijado do papel de produtor – assim como Mason – para que houvesse espaço na distribuição de royalties de produção entre Waters, Gilmour, Ezrin e Guthrie, e isso o frustrou imensamente. Sem composições novas e enfrentando um divórcio, Wright se sentia extremamente infeliz, ainda mais porque seus filhos, que não eram tão pequenos quanto os dos outros músicos, não podiam estar com ele, pois estavam estudando na Inglaterra, e isso gerou nele um estado de depressão que o deixava ainda mais inativo. A tensão entre Wright contra Waters e Ezrin se tornou tão grande que o tecladista adotou a estratégia de não mais aparecer nas sessões de gravação durante o dia e gravar sozinho com Guthrie à noite. Esse “desaparecimento” criou para Waters, Gilmour e Ezrin a imagem de que Wright estava “ausente” das gravações e só fez crescer as acusações de omissão e apatia em cima do tecladista.

Por causa disso, durante alguns anos, até se alegou que Wright não tocava em The Wall, o que foi alimentado por Waters e Gilmour, mas após uma reportagem da revista Classic Rock sobre o tema, em 2000, o próprio Wright deu uma entrevista à publicação esclarecendo a situação e que aquilo não é verdade e que ele toca a maioria dos teclados no álbum. A informação foi confirmada pelos autores Jean-Michel Guesdon e Phillipe Margotin no livro Pink Floyd: All The Songs, que entrevistaram Guthrie, que confirmou o fato.

O muro se monta nos shows de 1981.

Ademais, vários outros problemas seguiram nas sessões, com as brigas entre os envolvidos e a dificuldade que a altitude do estúdio, em uma zona montanhosa, causava na voz de Waters, que precisou descer a montanha e gravar parte de seus vocais no Miraval Studios, em Provence. Como em Animals, Waters cantou a maior parte das faixas, mas a altitude do estúdio principal e as necessidades dramáticas da obra com personagens, terminaram permitindo a Gilmour uma participação vocal maior, com o guitarrista fazendo a “voz” da mãe em Mother e de Pink em Confortably numb, ao passo que, nessas duas, Waters faz Pink e o doutor, respectivamente. Gilmour também canta as partes doces, como em The thin ice, Goodbye blue sky, The show must go on, Waiting for the worms, os vocais assertivos de Another brick in the wall (part 2) e os vocais rascantes de Young lust, ainda que seja Waters quem cante as duas versões de In the flesh e Run like hell.

Com parte significativa do álbum gravado, como de costume, a banda tirou um período de férias em agosto de 1979 para aproveitar o verão com suas famílias, mas a Columbia Records (que distribuía os discos da banda nos EUA) fez a Waters a proposta de um adiantamento substancial caso The Wall chegasse às lojas há tempo para as vendas de Natal. Com as dificuldades financeiras de então, aquela era uma proposta irrecusável. Para acelerar o processo, Waters e Ezrin contrataram o maestro e arranjador Michael Kamen para escrever e gravar arranjos orquestrais em uma sequência de canções, inclusive, Confortably numb, um número central no disco e que era uma composição musical de Gilmour, extraída das sobras de seu álbum solo. Kamen fez seu trabalho no CBS Studios em Nova York sem a participação da banda.

A banda anuncia a turnê em coletiva, em 1980.

Waters antecipou o retorno das férias em 10 dias, agendando sessões em três estúdios de Los Angeles (Cherokee Studios, The Village Recorder e Producers Workshop) para ganhar tempo e terminar o álbum antes do Natal. Mas Wright, que estava com seus filhos na Grécia, se recusou a regressar antecipadamente, o que despertou um rompante de fúria em Waters, que exigiu que Wright retornasse, e como esse ainda não cedeu, que o tecladista fosse expulso da banda senão Waters cancelaria o projeto e iria gravar o The Wall como um álbum solo. Wright terminou indo para Los Angeles e foi comunicado de sua demissão, mas preferiu terminar de gravar o disco e continuou participando das sessões, ainda que Bob Ezrin e o músico de estúdio Fred Mendel tenham efetivamente gravado alguns dos teclados do disco, o último especialmente o órgão Hammond. Mas se você acha que isso é problema, saiba que outros músicos participaram: Jeff Porcaro gravou a bateria de Mother, Joe Di Biasi toca o violão clássico em Is there anybody out there? e Lee Ritenour toca guitarra em One of my turns e violão dedilhado em Confortably numb.

Falando nesta última canção, ela foi palco da derradeira ruptura entre Roger Waters e David Gilmour. O guitarrista tinha especial apreço pela faixa e, além de coautor, sabia que tinha criado um de seus mais fortes solos de guitarra para ela, mas queria uma versão mais crua e pesada da faixa, ao passo que Waters e Ezrin prefeririam a versão grandiloquente com a orquestra de Michael Kamen. Waters e Gilmour tiveram uma seríssima discussão em um restaurante em Hollywood por causa disso e nunca mais foram nem amigos nem parceiros musicais depois do episódio. Como forma de mediação, Ezrin e Guthrie garantiram que os versos fossem crus como a versão de Gilmour e os refrões grandiosos como a versão de Waters, ao mesmo tempo em que a orquestra desaparece na hora do solo final de Gilmour, amplificado para preencher todos os espaços sonoros num efeito impressionante.

O vídeo de Another brick in the wall (part 2) tirado do filme.

Ezrin lutou para convencer Waters de que Another brick in the wall (part 2) poderia ser um single de sucesso e criou uma mixagem dando ênfase à batida Disco da canção (pela guitarra de Gilmour, que ficou reticente pelo resultado). Porém, a faixa só tinha um verso e um refrão que se repetiam, e ficava cansativa, então, tiveram a ideia de gravar um coro de crianças na segunda parte: o engenheiro do Britannia Row, Nick Griffiths ficou responsável pela tarefa e foi até a escola Islington Green School, próxima do estúdio, e coletou o coral de lá, incentivando as crianças a cantarem meio que gritando e exagerando o sotaque cockney dos subúrbios de Londres. O resultado impressionou Waters, que concordou em lançá-la como single.

Waters criou o conceito da capa e do encarte e designou o cartunista Gerard Scarfe para criar o design e as ilustrações que trouxeram à vida personagens como a mãe e o professor. O encarte foi produzido detalhadamente, mas quando o Pink Floyd começou a extrair as masters das gravações percebeu que por problemas de espaço no disco de vinil precisaria mudar a ordem de algumas das faixas, e decidiram sacrificar a canção What shall we do now, que foi reduzida e editada até virar a curta Empty spaces. Mas como o tempo era muito, muito curto, o grupo deixou o encarte como estava, representando a ordem das faixas antes da mudança.

The Wall foi lançado em novembro de 1979 como um álbum duplo com 26 faixas e teve uma recepção não muito calorosa pela crítica, que o achou exagerado e autoindulgente, mas foi um sucesso esmagador de público: chegou ao 2º lugar das paradas britânicas e ao 1º lugar das paradas dos EUA, onde ficou nada menos do que 15 semanas no número 1 da Billboard, chegando à vendagem de 11 milhões de cópias apenas naquele país até 1990 e, em 1999, acumulando 19 milhões de cópias no mundo, sendo o segundo disco mais vendido do Floyd, atrás apenas de Dark Side of the Moon. A campanha de Ezrin e da Columbia de lançar Another brick in the wall (part 2) como um single terminou convencendo Waters, que permitiu, e o compacto foi o único da banda a chegar ao 1º lugar das paradas tanto nos EUA quanto no Reino Unido (a primeira vez que o grupo lançava um single em sua terra-natal desde 1968!).

Grande estrutura do show de The Wall, em 1981, em Londres.

Os planos de Waters eram ambiciosos e ele criou um conceito ainda maior para a turnê de The Wall, que trouxe a maior cenografia já usada por uma banda de rock na história: não bastasse a réplica de um avião voar sobre a plateia e explodir no muro sobre o palco e os desenhos de Gerard Scarfe criarem vida como manequins robotizados de 6 e 8 metros de altura, com luzes e efeitos pirotécnicos, além das animações incríveis projetadas na parede do muro, em determinado momento, uma plataforma se abria no muro para revelar um apartamento mobiliado na qual Waters cantava algumas faixas. Ademais, um muro de 12 metros de altura com blocos de “tijolos” feitos de isopor ou papelão era construído no palco em cada uma das noites, e quando chegava na parte do álbum em que Pink ficava protegido pelo muro (após Goodbye cruel world) a banda ficava escondida atrás do muro completo, com apenas alguns músicos eventualmente aparecendo (como Waters vestido de fascista ou Gilmour no topo do muro, sob as luzes lançando sua sombra sobre a plateia) e o público entretido pelas animações, efeitos e marionetes até o muro vir abaixo no final do show (e ser segurado por uma rede de proteção para não soterrar os músicos embaixo).

As máscaras da banda de apoio terminaram na capa da versão ao vivo do disco, em 2001.

Essa extravagância gerou um concerto com um custo altíssimo, então, a The Wall Tour realizou apenas 31 shows, começando em fevereiro de 1980, com 7 concertos em Los Angeles e 5 apresentações em Uniondale (próximo a Nova York), e seguindo com 6 shows em Londres em agosto. Depois, Waters teve a ideia de fazer um filme baseado em The Wall, e a banda fez outro giro com 8 concertos na Alemanha, em fevereiro de 1981, e os últimos 5 de novo em Londres, em junho, para que fossem filmados, mas o resultado não das imagens não agradou. Em vista a grandiosidade da turnê e da necessidade de Waters atuar como Pink no palco, pela primeira vez, o Pink Floyd adotou o uso de uma banda inteira como apoio. Assim, além de Waters (vocais, violão e baixo), Gilmour (vocais, violão, guitarra e baixo) e Mason (bateria e percussão), o grupo trouxe Richard Wright para tocar teclados como músico contratado (pois ele tinha sido mesmo demitido da banda – mas de modo bizarro, a notícia de sua saída não foi comunicada à imprensa e ele até participou das entrevistas coletivas e fotos de promoção) e mais Andy Bown no baixo, Snowy White na guitarra, Peter Woods nos teclados e Willie Wilson na bateria, com Andy Roberts assumindo a guitarra nos shows de 1981. Ou seja, havia um “segundo” Pink Floyd completo auxiliando a banda, ao ponto que na primeira faixa do concerto, In the flesh?, os músicos de apoio entrarem no palco com máscaras de papel machê com as feições dos quatro membros do Floyd (incluindo Wright) e tocarem a canção, como parte da peça que Waters queria pregar no público, afinal, a letra diz que eles foram enviados como “banda substituta”. Esses shows foram lançados como o álbum ao vivo Is There Anybody Out There?, de 2001.

De qualquer modo, aquela foi a última turnê do Pink Floyd em sua formação clássica, tendo a liderança de Waters e a presença de Wright, ainda que formalmente como um músico de apoio e não membro. E apesar do sucesso esmagador do álbum e de todos os ingressos vendidos, a banda ficou no prejuízo financeiro, por causa do alto custo dos concertos. Por isso, em 1982, o grupo lançou a coletânea A Collection of Great Dance Songs para repor o caixa.

Bob Geldof interpreta Pink em The Wall, de Alan Parker: clássico cult.

E em paralelo, Waters trabalhou na adaptação cinematográfica de Pink Floyd – The Wall: com o fracasso das filmagens dos concertos, o compositor conseguiu vender o projeto de um musical com atores ao estúdio MGM, e com roteiro de Waters, direção de Alan Parker e estrelado por Bob Geldof (vocalista da banda punk Boomtown Rats), o filme foi lançado em julho de 1982, trazendo as canções e performances fortes dos atores, mesmo quase sem nenhum diálogo (apoiado apenas nas letras), e foi bem recebido por público e crítica, virando uma obra cult.

O HQRock tem um post especial sobre o The Wall. Leia aqui!

pink floyd the final cut

The Final Cut – 1983

Após uma estressante turnê para divulgar o álbum anterior, o tecladista Richard Wright é oficialmente expulso da banda, que se torna um trio com Waters, Gilmour e Mason. Este álbum é quase uma continuação do anterior, com Waters cantando e compondo tudo. É um disco diferente, mais tranquilo (em termos de sonoridade, apenas, as letras são perturbadoras), cheio de orquestras e com Gilmour e Mason tratados como meros músicos de estúdio, com participações mais discretas. Todas essas características tornam The Final Cut um álbum exótico no catálogo do Pink Floyd, pois sua sonoridade é muito distinta, fazendo-o ser um daqueles discos que se ama ou odeia. Ainda assim, Waters faz uma obra impressionante relacionando as desilusões do pós-guerra com a ascensão  conservadora de Margareth Tatcher ao poder na Inglaterra. Destaques: The gunners dreams, The final cut.

Inicialmente, o que se tornou o álbum The Final Cut era para ser apenas um tipo de trilha sonora adicional ao filme Pink Floyd – The Wall. Isso porque o longametragem usou versões diferentes de algumas das canções, como Mother ou Bring the boys back home e traz uma faixa inédita chamada When the tigers broke free, que ficara de fora do álbum The Wall. Waters elaborou o projeto de um disco chamado Spare Bricks com outras faixas que complementariam a narrativa do antecessor, como The final cut, The Fletcher memorial home e The hero’s return. Mas a eclosão da Guerra das Malvinas, com a Inglaterra disputando a posse das ilhas Faulksland com a Argentina, Waters começou a escrever material novo e decidiu produzir um álbum novo. David Gilmour foi contrário a reutilizar o material deixado de fora do projeto anterior, por não julgá-lo bom o suficiente, mas como ele próprio não tinha material novo, terminou convencido.

Gilmour e Waters jogam Dong King antes da briga final.

Waters pensou seriamente em fazer o álbum como um disco solo, mas o Pink Floyd devia um álbum novo como parte do contrato com as gravadoras EMI, Harvest e Columbia, e decidiu usar o nome da banda, ainda que o compositor tivesse a clara noção de que eles não funcionavam mais como grupo e que, provavelmente, aquela seria a última vez em que Waters, Gilmour e Mason trabalhariam juntos. As sessões ocorreram entre julho e dezembro de 1982 com Michael Kamen servindo ao triplo papel de co-produtor, orquestrador e tecladista, substituindo Richard Wright, que não participou do projeto em nenhum nível, tendo sido demitido nas sessões de The Wall, ainda que tenha tocado nos shows de 1980 e 81.

Todavia, muito cedo, Waters e Gilmour perceberam que não podiam mais trabalhar juntos, e as sessões do disco transcorreram em nada menos do que em 8 estúdios diferentes, inclusive, aqueles caseiros dos dois líderes, com Waters ao lado de Kamen para os vocais e Gilmour com James Guthrie para as guitarras. O envolvimento de Nick Mason foi mínimo, apenas tocando bateria e auxiliando nos efeitos sonoros (mísseis, aviões, explosões, conversas, programas de TV pululam ao longo de todo o álbum). Mesmo assim, as brigas persistiram e Gilmour faz um trabalho relativamente discreto nas guitarras, ainda que com alguns bons solos, e de novo, canta em apenas uma faixa, Not now John. Mas ao fim, Waters decidiu tirar o nome do guitarrista dos créditos de produtor, ainda que tenha lhe pago os royalties de tal tarefa.

A arte gráfica foi de novo criada por Waters, dessa vez, ao lado de seu cunhado, o fotógrafo Willie Christie e traz uma bela imagem das medalhas da II Guerra Mundial costuradas em um uniforme, ao lado da imagem de um oficial com uma faca nas costas.

Waters e Gilmour nas gravações de The Final Cut.

The Final Cut foi lançado em março de 1983 e foi somente em seu lançamento que o público descobriu que Wright não estava mais no grupo. Puxado pelo imenso sucesso de The Wall e do filme, o álbum chegou ao 1º lugar das paradas do Reino Unido (algo que Dark Side of the Moon e The Wall não conseguiram!) e ficou no 6º lugar nos EUA, com Not now John lançada como single, que chegou ao 30º lugar na Inglaterra. O disco fora antecipado também pelo single When the tigers broke free (que está no filme The Wall) quase um ano antes, em julho de 1982, com uma informação de que a faixa estaria em The Final Cut, mas isso não ocorreu. Tigers… virou uma faixa rara no catálogo do Floyd e só apareceria no relançamento de The Final Cut em 2004.

E para promover o disco, foi lançado um curtametragem dirigido por Willie Christie com vídeos para quatro faixas: The gunner’s dream, The final cut, The Fletcher memorial home e Not now John, que saiu em vídeo doméstico, sendo o primeiro EP em vídeo lançado pela EMI. Waters produziu e atuou sozinho no filme.

Não houve turnês ou shows para promover o disco e este foi o último esforço conjunto da banda com Waters e era o fim de uma era para o grupo.

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A Momentary Lapse of Reason – 1987

Waters anunciou o fim do Pink Floyd e Gilmour e Mason reagiram: entraram num processo judicial para expulsar Waters e manter o direito da dupla usar o nome da banda. Eles ganharam e lançaram este álbum, onde trazem Wright de volta. A sonoridade é mais pop, embora procure remeter aos tempos de Dark Side of the Moon. O disco mimetiza o passado do Pink Floyd, embora com competência e alguns excessos sonoros típicos dos anos 1980, especialmente nos timbres de teclados (sintetizadores) e bateria (eletrônica). Ainda assim, é possível sentir (pelo menos em alguns momentos) a força do reencontro da guitarra de Gilmour e dos teclados de Wright. Este é o primeiro (e único) álbum do Pink Floyd em que Gilmour compôs todas as faixas (embora usando vários colaboradores externos) e canta tudo. As letras, porém, são realizadas por um batalhão de escritores profissionais, liderados por Anthony Moore. Ainda assim, procuram abordar temas relevantes como a guerra e o sofrimento. Destaques: Learn to fly, On the turning away, Sorrow. A produção é assinada por Gilmour e Bob Ezrin.

Traumatizados pelas sessões de The Final Cut, os membros do Pink Floyd seguiram caminhos separados, e em 1984, tanto Gilmour (About a Face) quanto Waters (The Pros and Cons of Hitch Hiking) lançaram álbuns solo e fizeram turnês para promovê-los. Ambos não chamaram muita atenção e nem fizeram muito sucesso, mas o de Waters ainda ganhou alguns elogios e contou com a participação célebre de Eric Clapton como guitarrista. Talvez isso tenha animado Waters e o tornado mais confiante ainda, pois em dezembro de 1985 ele enviou uma carta à EMI e à CBS informando que estava deixando o Pink Floyd, que a banda terminava com ele e que queria ser liberado dos contratos pendentes. Mas Gilmour e Mason retrucaram, afirmando que não queriam terminar a banda e seguiriam em frente sem ele. Obviamente, isso resultou em uma longa e dolorosa batalha judicial pelo controle do nome da banda.

O encarte trouxe foto só Gilmour e Mason.

No meio disso, em novembro de 1986, Gilmour começou a trabalhar no que seria seu próximo álbum solo, escrevendo canções com o tecladista Jon Carin, o produtor Bob Ezrin e letras com Anthony Moore e usando diversos recursos tecnológicos novos, como gravadores MIDI, sequenciadores, samplers e baterias eletrônicas no novo estúdio caseiro do guitarrista: o Astoria, um barco adaptado às margens do rio Tâmisa dentro da propriedade de sua casa. Porém, quando um mês depois mostrou o material gravado ao diretor da gravadora CBS, foi recebido com desgosto e lhe foi recomendado investir em um novo álbum do Pink Floyd. Por isso, convidou Mason para trabalhar com ele e usarem o nome da banda, pois era algo vantajoso ao processo judicial se mostrassem à Justiça que o grupo estava ativo como forma de justificar a propriedade do nome. Contudo, àquela altura, Mason estava há anos sem tocar, sem prática, e não se considerou apto à tarefa, preferindo se dedicar ao trabalho de edição de efeitos sonoros e a brincar com as baterias eletrônicas e sequenciadores. Mason (e Gilmour também) temiam como o disco seria recebido sem a presença de Waters e ao avaliarem o material decidiram reforçar alguns elementos sonoros tradicionais, como na bateria, mas para isso trouxeram músicos de estúdio, como Jim Keltner (que tocou com John Lennon e George Harrison) e Carmine Appice (que tocou no Black Sabbath).

Com o disco já muito avançado, em fevereiro de 1987, Richard Wright ouviu a notícia de que o Pink Floyd trabalhava num álbum sem Waters, e sua esposa tomou a iniciativa e pediu a Gilmour que o tecladista participasse do projeto. Uma reunião foi feita e Wright foi admitido… mas apenas como músico contratado (tal qual fora na turnê de The Wall), porque ele não podia efetivamente ingressar na banda enquanto durasse o processo judicial. No entanto, sua situação musical era semelhante a de Mason e ele estava muito inseguro de seu papel naquela nova gravação. Os teclados já haviam sido gravados por Carin, por Ezrin ou pelo próprio Gilmour, então, Wright apenas tocou um pouco de órgão Hammond de fundo em algumas faixas, e piano e vocalizações, sem grandes intervenções. E nenhum crédito de composição, claro.

Depois de Waters visitar o Astoria duas vezes – para vistoriar o que estava sendo feito, pois ele ainda era diretor da Pink Floyd Music até segunda ordem – e perturbados pelas visitas de advogados, o time decidiu deixar o Astoria ainda em fevereiro de 1987 para o Mayfair Studios, em Londres, mas no mês seguinte, a última etapa de gravações transcorreu no A&M Studios em Los Angeles, quando o baixista Tony Levin (que tocou com John Lennon, David Bowie e King Crimson) gravou suas contribuições.

O resultado final traz um disco no qual o Pink Floyd resgata alguns elementos típicos de sua sonoridade, como a caixa registradora (agora digital) de One slip, além dos típicos bons solos de Gilmour e sua boa voz. Contudo, o álbum é marcado pela estética (hoje datada) dos anos 1980, com seus timbres característicos de teclados sintetizados e baterias eletrônicas. A faixa de trabalho foi Learning to fly (Gilmour, Moore, Ezrin, Carin), marcada por um loop de teclados, guitarra sintetizada e percussão, e uma letra (bastante poética, inclusive) que trata sobre a sensação de voar, já que Gilmour e Mason estavam aprendendo a pilotar aviões, o que é enfatizado pelas gravações das conversas entre a Torre de Controle e Mason em um voo real. Os elementos eletrônicos lhes dão um sonoridade mecânica bem diferente, mas a boa melodia e os backing vocals em coro lembram o velho Floyd de 1973. Dogs of war (Gilmour, Moore) é um blues antiguerra e é uma das mais tradicionais do disco, enquanto One slip (Gilmour, Manzanera) traz forte acento de baterias eletrônicas e loops de teclados, On the turning away (Gilmour, Moore) é uma faixa de teor fortemente político e é eficiente com seu longo início baseado em uma etérea nota de teclado e Gilmour cantando à capella todo o primeiro estrofe, e depois, se desenvolve bem, mas o som da bateria carregado de eco nos lembra que estamos nos anos 1980. Outro destaque é Sorrow (Gilmour), que se conecta com o passado com sua longa introdução baseada na guitarra distorcida, mas soa bastante como uma canção solo de Gilmour.

Gilmour trouxe de volta Storm Thorgerson (assim como havia feito na coletânea A Collection of GReat Dance Songs) para fazer a capa e o artista criou uma imagem poderosa, de uma sequência “infinita” de camas de hospital enfileiradas em uma praia (em Saulton Sands, onde cenas do filme The Wall foram filmadas) para retratar a ideia de relações ausentes ou rompidas, e com algumas referências às faixas do disco, com um par de cachorros representando Dogs of war e um ultraleve representando Learning to fly. A imagem não é uma montagem, mas foi criada de modo real e fotografada em um trabalho de duas semanas de duração, o que rendeu um prêmio a Hipgnosis. Já que não havia um tema conectando as canções como no passado, o título do álbum, A Momentary Lapse of Reason, foi tirado de um verso de One slip. Em tom ácido e irônico, Waters afirmaria logo após o lançamento que o disco, sem dúvidas, era “um lapso momentâneo da razão”. Uma fotografia de Gilmour e Mason ilustrou o encarte – a primeira vez que uma foto da banda ilustrou o material desde Meddle, e Wright ficou de fora da imagem por causa do processo judicial. Mas a foto originalmente trazia o tecladista.

O trio completo.

O álbum foi lançado em setembro de 1987 e foi muito bem recebido por público e crítica, chegando ao 3º lugar tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, e vendeu bastante, chegando a duplo disco de platina já no ano seguinte. Quatro singles foram lançados: Learning to fly foi o primeiro e chegou ao 70º lugar das paradas dos EUA (a partir dos anos 1980, com a mudança no mercado, canções de rock desapareceram dos primeiros lugares da parada, por isso, a Billboard criou paradas estratificadas dali em diante), e ficou em 1º lugar da parada Album Rock Tracks da Billboard, mas não conseguiu chegar ao Top40 do Reino Unido. O segundo compacto foi On the turning away, que também chegou ao 1º lugar da Album Rock Tracks e chegou ao 55º lugar no Reino Unido. Dogs of war foi lançado apenas para as rádios e se tornou uma canção bastante popular nas FMs dos EUA no fim do ano de 1988, enquanto One slip chegou às paradas e também teve boa radiodifusão.

De pazes com o sucesso de massa, o Pink Floyd de 1987 virou um fenômeno popular e encarou uma enorme turnê mundial entre setembro de 1987 e agosto de 1988, com fôlego ainda para uma segunda perna entre maio e julho de 1989, e uma culminância simbólica no Knebworth Festival, em junho de 1990. O set list, como nos velhos tempos, trazia dois blocos: o primeiro abrindo com Echoes (uau!) e seguindo com A Momentary Lapse of Reason praticamente na íntegra, e o segundo com uma coleção dos velhos sucessos, mas especialmente, canções de apelo mais comercial, como Time, Wish you were here, Another brick in the wall (part 2) e Confortably numb, com o bis trazendo One slip e Run like hell; mas depois, variou um pouco, com Shine on you crazy diamond como um segundo bis ou abrindo no lugar de Echoes. Foi um enorme sucesso e renderia o disco ao vivo, The Delicate Sound of Thunder, de 1988.

Apesar de muito bem recebido em seu lançamento, o passar do tempo fez mal à sonoridade de A Momentary Lapse of Reason, algo ressaltado pela crítica e reconhecido pela banda mais tarde. Por isso, em 2019 (como parte do box-set The Late Years), o Pink Floyd tomou a ousada decisão de reeditar completamente o álbum, lançando uma nova versão do disco composto das fitas originais da gravação combinadas com trilhas de teclados (tradicionais) tocados por Wright e pela bateria (acústica) de Mason retirados dos shows da turnê de 1987-88 e sincronizados por via digital, mudando de maneira significativa os timbres das canções e lhe dando uma “cara” mais próxima ao Floyd tradicional.

The Delicate Sound of Thunder (ao vivo) – 1988

Para celebrar e marcar o bom momento e o retorno da banda, o Pink Floyd decidiu lançar um álbum ao vivo cobrindo a turnê de divulgação de A Momentary Lapse of Reason, talvez, inspirados nos Rolling Stones que, na mesma época, constantemente, demarcavam suas excursões com o lançamento de registros de concertos. Isso foi importante, porque era o primeiro lançamento ao vivo da banda desde o Disco 1 de Ummagumma, em 1969! É verdade que a banda lançou o filme Live at Pompeii em 1972, mas até aquele ponto, este nunca fora lançado em separado em áudio (seria no futuro, aguarde).

The Delicate Sound of Thunder foi montado a partir da seleção das melhores execuções de cinco shows no Nassau Coliseum, na cidade de Uniondale, vizinha a Nova York, em agosto de 1988, com os concertos já mixados no mês seguintes e o lançamento em novembro. O álbum foi lançado em três formatos, em CD duplo, vinil duplo e fita k7, com variações no tracklist em cada formato: no CD não há Wish you were here, presente apenas nos outros dois, enquanto Us and them está presente apenas no CD e no k7, mas ausente no LP.

As 15 faixas traziam basicamente um resumo de A Momentary Lapse of Reason no Disco 1, com seis canções após a abertura com Shine on you crazy diamond e o Disco 2 composto de um “greatest hits” dos anos 1970, de Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e The Wall. O álbum foi muito bem recebido, ficando em 11º lugar tanto no Reino Unido quanto nos EUA.

O álbum traz uma intrigante capa de Storm Thorgerson e da Hipgnosis e foi relançado remasterizado e remixado dentro do box set The Late Years 1987-1994, em 2019, na qual além de uma nova mixagem (eliminando ou aliviando timbres muito datados dos anos 1980), foi ampliado o tracklist de 15 para 23 faixas, que foi lançado também como disco avulso em 2020, como CD duplo e LP triplo.

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The Division Bell – 1994

O trio Gilmour, Wright e Mason está de volta pela última vez em um álbum muito (mas muito) melhor do que o anterior. Agora, Wright divide o crédito das composições e a banda está mais coesa e afinada. A sonoridade ainda é mais pop, mas de melhor qualidade, trazendo de voltas as seções instrumentais interessantes e o diálogo entre os teclados e a guitarra. Destaques: Poles apart, Wearing the inside out, Take it back, Coming back to life, High hopes. As letras cabem em sua maioria à romancista Polly Samson, a esposa de Gilmour; enquanto Anthony Moore assina a letra de Wearing the inside out, a primeira composição de Wright registrada em um álbum do Pink Floyd em quase 20 anos. Também traz de volta sua bela voz à linha de frente. A produção é dividida entre a banda, Bob Ezrin e James Gutrie.

O sucesso do álbum anterior e de sua turnê foram explosivos e deixaram a banda muito mais à vontade como uma entidade, o que os motivou a retornar para mais um trabalho após três anos de pausa. Dessa vez, Richard Wright manifestou sua insatisfação por permanecer – pelo menos contratualmente – como “músico convidado”, em vista que o processo de litígio contra Roger Waters já havia sido encerrado (e vencido) pela dupla Gilmour e Mason, então, o tecladista foi oficializado como membro ativo da banda para efeitos legais. Com isso acertado, o trio Gilmour, Mason e Wright se reuniu em janeiro de 1993 no velho (mas renovado) Britannia Row Studios para compor novo material, um processo que possibilitou que o novo álbum fosse efetivamente composto em conjunto pela banda, ao contrário do anterior que provinha apenas de Gilmour. Na verdade, era a primeira vez que o Pink Floyd compunha material de modo coletivo desde os tempos de Wish You Were Here, 20 anos no passado. Isso possibilitou que Wright voltasse a ter créditos de composição em um álbum da banda, o que não ocorria justamente desde aquele disco (ainda que, conforme mencionamos, teria sido justo ele ser creditado como coautor em faixas de Animals, de 1977).

O Pink Floyd improvisando em 1993.

Trabalhando apenas em temas instrumentais e improvisações, o trio chegou a nada menos do que 65 peças de músicas que foram transferidas para o Astoria Studios, o barco adaptado de Gilmour, no qual o Pink Floyd fez uma discussão sobre quais temas investir, reduzindo primeiro para 27 faixas e depois para 11 e trabalhando em overdubs e edições. Para letras, Gilmour ainda convidou os escritores Nick Laird-Clowes e Anthony Moore (este, tinha trabalhado em Momentary Lapse of Reason), mas no fim das contas, a maior parte do material terminou escrito pela romancista Polly Samson, a nova esposa de Gilmour. A presença dela causou algum estranhamento no início, em especial do produtor Bob Ezrin, mas no fim das contas, ela se transformou numa parte fundamental do processo e deu a The Division Bell um tema principal – a ausência de comunicação – deixando o álbum mais próximo de algo conceitual, como nos velhos tempos.

A finalização das faixas, com vocais e overdubs foi realizada no Metropolis Studios, em Londres, enquanto algumas intervenções orquestrais foram adicionadas por Michael Kamen no Abbey Road Studios. No tracklist final, das 11 faixas, 10 são coassinadas por Gilmour (apenas uma em solo), 5 são coassinadas por Wright (incluindo Wearing the inside out, sem Gilmour e com letra de Moore), Samson assina 7 letras (duas coescritas com Laird-Clowes), há dois números instrumentais (Cluster one e Marooned, ambas por Gilmour e Wright), Ezrin coassina 1 (a faixa principal, Take it back) e Nick Mason não assina nenhuma faixa. O farto material extra foi trabalhado e editado pelo engenheiro da banda, Andy Jackson, e transformado em uma peça instrumental de 1 hora de duração chamada The Big Spliff, que virou uma peça famosa na pirataria sobre a banda, mas também renderia o álbum The Endless River de 2014 (mais abaixo).

A faixa de destaque foi Take it back (Gilmour, Ezrin, Laird-Clowes, Samson), que usa um loop de guitarra e alguns samplers do velho Farfisa organ do início da carreira da banda, numa canção bastante palatável ao grande público sobre um relacionamento doentio, que foi interpretada como uma metáfora para as questões climáticas também, enquanto High hopes (Gilmour, Samson) traz o sino do título do álbum e fala do início da banda em Cambridge e um pouco de Syd Barrett, também. Lost for words (Gilmour, Samson), outra canção sobre a dificuldade de comunicação, parece endereçar os problemas com Roger Waters, e Keep talking (Gilmour, Wright, Samson) traz uma fala (pela voz sintetizada) do físico Stephen Hawking, que era professor de Física na Universidade de Cambridge. Wright canta em voz solo no Pink Floyd pela primeira vez desde Dark Side of the Moon em Wearing the inside out (Wright, Moore), canção de tom jazzístico e que traz o sax de Dick Parry de volta.

O material gráfico foi outra vez feito pela Hipgnosis e Storm Thorgerson criou a imagem de uma sólida escultura metálica de 8 metros de altura com duas faces se encarando em perfil criando a ideia de um terceiro rosto pela combinação de ambas. A fotografia foi tomada nos arredores de Cambridge e a Catedral de Ely pode ser vista ao fundo. O título The Division Bell foi proposto pelo romancista Douglas Adams (do Guia do Mochileiro das Galáxias), que era amigo pessoal de Gilmour, e se refere a um instrumento usado no Parlamento Britânico quando havia empate ou conflitos sobre determinadas pautas, com tema ressoando na canção High hopes.

O álbum foi recebido de maneira de maneira mista pela crítica, não recebendo a aclamação enorme de seu antecessor e ouvindo reclamações de uma banda apática e de uma aproximação com a “música ambiente” e a new age (típica música exotérica), ainda que não poucos críticos exaltaram os números instrumentais, mas o público adorou o disco, com os fãs o entendendo como um “retorno à boa forma”, pois soava menos datado e “eletrônico/sintetizado” do que o anterior. Sem dúvidas, The Division Bell trazia uma sonoridade Pink Floyd inequívoca e apostava (de novo, como há um bom tempo não se via) na forte química instrumental entre a guitarra de Gilmour e os teclados de Wright, compondo algumas boas canções, mesmo que mais “pop” do que fora nos anos 1970.

Lançado em março de 1994, The Division Bell foi um sucesso imenso: chegou ao 1º lugar das paradas no Reino Unido e nos EUA ao mesmo tempo (!), neste último, ficando 4 semanas na posição (algo muito, muito raro para o rock nesses tempos). No Reino Unido, o disco chegou ao Disco de Ouro com apenas alguns dias de lançamento, atingiu o Disco de Platina com um mês e antes do fim do ano bateu Platina Dupla; enquanto nos EUA, ganhou o Disco de Ouro antes mesmo do lançamento, também chegando a Platina com um mês e Platina Dupla em sete meses, batendo a Platina Tripla em seis anos. A faixa de trabalho foi Take it back, que lançada como single, chegou ao 23º lugar das paradas do Reino Unido, e nos EUA ficou em 73º lugar na Billboard, acredite, uma posição excelente para o rock (que desde o início dos anos 1980 perdeu espaço naquele mercado e, por isso, foi criada a Mainstream Rock, uma parada exclusiva para o gênero, no qual a canção ficou em 4º lugar). O segundo single foi o Duplo Lado A com High hopes e Keep talking, que chegou ao 26º lugar no Reino Unido e na Rock Album Tracks da Billboard, nos EUA. Neste país, Keep talking e Lost for words também foram lançadas como compactos para as rádios e tiveram excelente radiodifusão e a primeira chegou ao 1º lugar da Rock Album Tracks.

Como da outra vez, The Division Bell foi promovido por uma extensa turnê, começando junto com o lançamento do álbum, em março de 1994 na América do Norte até julho, seguindo sem pausa para a Europa e fechando com 14 concertos seguidos no Earls Court em Londres. O repertório trazia algumas surpresas: o número abria com Astronomy domine, canção de Syd Barrett que abre o primeiro álbum da banda, e que não era tocada ao vivo desde o início dos anos 1970 (e era uma maneira de dar compensação financeira ao ex-membro do grupo), seguindo alguns hits da banda misturados a faixas de A Momentary Lapse of Reason e The Division Bell, mas em alguns shows, foi realizado um segundo bloco com o álbum Dark Side of the Moon na íntegra, tal qual a banda fazia entre 1972 e 1975. O show do dia 29 de outubro foi a última vez que o Pink Floyd realizou um concerto completo em sua história. O material da turnê foi compilado no álbum e vídeo Pulse, de 1995.

Pulse traz a versão ao vivo de Darkside of the Moon nos anos 1990.

Pulse (ao vivo) – 1995

Se o Pink Floyd vinha muito bem obrigado com os grandes sucessos seguidos de A Momentary Lapse of Reason, The Delicate Sound of Thunder e The Division Bell, Pulse fecha o ciclo com um fenômeno de vendas e de recepção. Esse novo disco ao vivo vendeu muito e causou um grande impacto no público, sendo mesmo uma porta de entrada para uma nova geração de fãs em plenos anos 1990, mesmo que, em paralelo, tenha sido o último lançamento regular da carreira do Pink Floyd como uma banda viva. O álbum reuniu as melhores performances da banda na perna europeia de sua turnê de 1994 promovendo The Division Bell, com as faixas retiradas principalmente dos shows em Londres e Roma, em outubro daquele ano.

Lançado em maio de 1995 como CD e LP duplo, Pulse inovou também em sua embalagem: além de uma bela ilustração de Storm Thorgerson via Hipgnosis com o que parecia um olho sendo eclipsado pela Lua, o CD trazia uma luz de LED vermelha piscando, pulsando, imitando a batida de um coração e fazendo referência ao Dark Side of the Moon, no que foi uma grande ousadia estética da época. O álbum também ganhou uma versão em VHS e LaserDisc que se tornou bastante popular, reproduzida constantemente na TV e em bares mundo à fora, como a representação visual mais conhecida do Pink Floyd. Em 2006, Pulse ganhou sua versão em DVD e também foi relançado tanto em DVD quanto em Blu-ray em 2022.

Pulse trazia dois discos, o primeiro um compacto “best of” do Pink Floyd tocado ao vivo com competência impressionante por Gilmour, Wright e Mason (mais adesões definitivas de Guy Pratt no baixo, Tim Renwick na guitarra, Jon Carin nos teclados, Gary Willis na percussão e bateria ocasional e Dick Parry no saxofone, mais Sam Brown, Durga McBroom e Claudia Fontaine nos backing vocals), abrindo de novo com Shine on you crazy diamond, trazendo a surpresa de Astronomy domine (canção de Syd Barrett que não era tocada pela banda desde o início dos anos 1970), Hey you, Another brick in the wall (part 2) (trazendo algumas inovações, como trechos da parte 1 e de The happiest days of own life, além de dois solos de guitarra) e algumas faixas de A Momentary Lapse of Reason e The Division Bell. O Disco 2 trazia o Dark Side of the Moon na íntegra , seguido do bis com Wish you were here, Confortably numb e Run like hell.

Pulse chegou ao 1º lugar das paradas tanto do Reino Unido quanto dos EUA.

[Parênteses Para o Fim]

Depois dos sucessos estrondosos de The Division Bell e Pulse, o Pink Floyd nunca mais se reuniu em estúdio e após seu último concerto oficial em 1995, o trio apenas se reuniu em março de 1996 para receber a indução no Rock Hall of Fame e tocou ao vivo uma versão acústica de Wish You Were Here, sendo esta a última atuação oficial do grupo. Houve rumores de reuniões para novos álbuns em seguida, especialmente ao longo do ano de 1997, quando o grupo completou 30 anos de existência (a imprensa chegou a mencionar que a banda gravaria um novo álbum e também se falou no lançamento de um disco com gravações ao vivo na rádio BBC dos anos 1960 e início de 1970 para celebrar a data, mas isso também não ocorreu). Depois de alguns anos, Gilmour avisou que a banda jamais se reuniria em estúdio. O grupo tinha conhecido seu fim oficial, ainda que nunca comunicado oficialmente.

O Pink Floyd completo reunido pela última vez.

Bob Gedolf, que interpretou o personagem Pink em The Wall ficou famoso em anos posteriores como o organizador do Live Aid, o gigantesco concerto beneficente ocorrido em 1985 com shows nos EUA e no Reino Unido, que reuniu alguns dos maiores artistas da época. O Pink Floyd fora convidado, claro, mas em meio ao início do litígio entre Waters e Gilmour-Mason, isso foi impossível e o evento ficou marcado na história da música e do rock (ao ponto de no Brasil seu dia, 13 de julho, ser celebrado como o Dia do Rock). Mas Gedolf conseguiu outra grande cartada em julho de 2005, quando organizou o Live 8 (uma série de concertos contra a reunião do G8 [o grupo das oito maiores economias do planeta] e para que as dívidas dos países pobres fossem perdoadas). Dessa vez, foi um evento ainda maior, com concertos nos EUA, Reino Unido e vários outros países pelo mundo. E dessa vez, ele conseguiu: a grande atração do braço britânico do evento foi a primeira e única reunião da formação clássica do Pink Floyd: Gilmour, Wright, Mason e Waters. A vergonha por não terem tocado no concerto original, a boa causa e a grandiosidade do evento foi resumida pelo próprio Gedolf, que teria dito a Waters e Gilmour: “olha, se houve uma única chance de alguma vez vocês fazerem isso, que seja agora”. E foi.

O quarteto clássico do Pink Floyd aceitou deixar as rusgas de 20 anos de idade e após uma curta rodada de ensaios tocou 4 faixas no encerramento do Live 8, em 02 de julho, com um medley de Speak to me/ Breathe e a parte Breathe (reprise) que originalmente fazia parte de Time; Money, Wish you were here (com a distinção de Waters cantar uma parte da letra e Gilmour outra, ao contrário da gravação na qual é tudo por Gilmour) e Confortably Numb. Contando com o apoio do guitarrista (e baixista em Wish you were here) Tim Renwick, do saxofonista Dick Parry e o tecladista Jon Carin, este foi o último concerto da formação clássica do Pink Floyd em sua história.

Em 07 de julho de 2006, o fundador Syd Barrett morreu vítima de um câncer e, em 10 de maio de 2007, foi promovido um concerto tributo ao genial e louco compositor. Obviamente, o Pink Floyd não podia faltar, mas dessa vez, infelizmente, Waters esteve à parte. Waters apareceu primeiro no programa, tocando uma faixa de sua autoria chamada Flickering flame tendo Jon Carin ao seu lado, ao passo que o Pink Floyd de Gilmour, Wright e Mason tocou a faixa Arnold Layne (acompanhados por Jon Carin no teclado e Andy Bell, do Oasis, no baixo) e participou do finale com vários outros artistas (mas sem Waters) tocando Bike. Esta foi a última apresentação do Pink Floyd como uma banda.

Naquele mesmo ano, David Gilmour saiu em turnê para promover seu disco solo On a Island e Richard Wright o acompanhou nos teclados como músico de apoio, o que gerou uma reunião extra-oficial de 2/3 do Pink Floyd e permitiu que a dupla cantasse em uníssono Echoes e dividissem os vocais em Confortably numb quase todas as noites. Esta foi a última aventura musical de Wright: o tecladista faleceu, em 15 de setembro de 2008, vítima de câncer.

Gilmour e Waters chegaram a se apresentaram juntos em um concerto beneficente (tocando a faixa To know her is to love her, de Phil Spector) e o baterista Mason dizia sempre que tinha esperanças de que a banda – novamente um trio – pudesse se reunir para pelo menos um concerto no futuro. De fato, Waters, Gilmour e Mason se reuniram em duas canções (Confortably numb e Outside the wall) do primeiro show da turnê solo de Waters executando o The Wall ao vivo, em maio de 2011, na O2 Arena, em Londres, alimentando a esperança dos fãs do Pink Floyd realizar um concerto inteiro. Não foi uma reunião oficial da banda, mas foi uma reunião na prática, ainda que em meio a um show solo de Waters. Mas nos anos seguintes, a dupla Waters e Gilmour esqueceu a cordialidade e voltou a se atacar pela imprensa e pelas redes sociais.

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A capa de The Endless River: novo disco depois de 20 anos.

The Endless River – 2014

Praticamente de surpresa, o Pink Floyd lançou este que é anunciado como o seu último disco. Na verdade, embora inédito, The Endless River é montado a partir de velhas gravações, realizadas no distante 1993, como preparação para o que resultou ser o The Division Bell. Surge, portanto, como uma homenagem a Richard Wright, talvez a grande estrela desses registros. The Endless River é um disco instrumental, na qual Gilmour, Wright e Mason retomam suas origens de banda experimental e pautam um álbum duplo em canções abstratas e esparsas tal qual eram em 1969 e 1970. Apesar da estranheza dos novos fãs (que não compreenderam a proposta do disco), o novo álbum é sensacional e traz um toque de calmaria e tranquilidade ao cenário musical contemporâneo, com o space rock do Pink Floyd. Apenas uma única faixa é cantada: Louder than words, em que a escritora Polly Samson escreveu uma letra e Gilmour canta sobre uma relação que não é construída por palavras, mas por gestos e música. Como era sua relação com Wright e com o próprio Pink Floyd como um todo. Destaques: It’s what we do, Sum, Skins, Allons-y (1), Autum’ 68.

Gilmour decidiu esquecer a coleção The Big Spliff que o engenheiro de som Andy Jackson havia montado ainda nos anos 1990 e trabalhou nas jam sessions a partir do zero. Com a ajuda de Jackson e Phil Manzanera (ex-guitarrista do Roxy Music), que receberam créditos de produção, Gilmour selecionou 18 pedaços de músicas, as quais foram retrabalhadas e editadas, ganhando gravações adicionais de Gilmour nas guitarras e Mason na bateria (em 2014) e reaproveitando os teclados originais de Wright, alguns dos quais ele havia até realizado overdubs nas sessões originais. Vários outros músicos adicionaram instrumentos, com o baixo sendo tocado por Guy Pratt, Andy Jackson e Bob Ezrin (que também tocou teclados adicionais), Damon Iddins e o letrista Anthony Moore contribuindo nos teclados extras e o tradicional Jon Carin tocou sintetizadores e loops de efeitos. Para dar uma cara mais jovial ao material, Gilmour chamou o produtor Youth para ajudar na produção, que terminou assinada por Gilmour, Manzanera, Jackson e Youth, além de Ezrin pelas gravações originais de 1993.

A concepção de Gilmour foi produzir 4 longas peças de música (uma para lado de um vinil duplo), formadas, cada uma, por faixas mais curtas e interligadas. O crédito de autoria das faixas, em sua maioria, são de Gilmour e Wright em parceria, com Mason ganhando créditos composicionais (pela primeira vez desde Dark Side of the Moon) em duas delas, uma das quais Skins, que é um solo de bateria ao estilo daquele apresentado no Live at Pompeii. Gilmour ganha créditos solo em 4 canções, a maior parte na etapa final do disco. Wright ganha crédito solo por duas faixas – Unsung e Autumn ’68 – com a última sendo um trecho de um minuto e meio do tecladista tocando no órgão de tubo do Royal Albert Hall no intervalo de um concerto do Floyd por lá, em junho de 1969. Há relatos de que Wright originalmente tocou por uma hora inteira uma peça inédita, que teria sido gravada. O título é uma referência a sua faixa Summer ’68 de 1970. A banda usou deliberadamente timbres e passagens reminiscentes de sua própria obra, com referências a Shine on you crazy diamonds em It’s what we do e a repetição do sampler de voz do cientista Stephen Hawking em Talkin’ Hawkin’.

A única faixa cantada é a última, Louder than words, com parte musical creditada apenas a Gilmour e uma letra nova de Polly Samson, que escreveu baseada na impressão que teve do convívio com a banda, inclusive, durante os concertos do Live 8, com os músicos praticamente sem falarem entre si, mas se comunicando através da música. Na faixa, Gilmour gravou os vocais em 2014 e adicionou um órgão hammond em cima da guitarra que já havia registrado em 1993. Wright toca piano, piano rhodes (elétrico) e um sintetizador, com Mason na bateria e percussão, e Bob Ezrin faz o baixo, com Durgan McBroom, Louise Marshal e Sarah Brown nos backing vocals.

A belíssima embalagem de The Endless River não foi criada por Storm Thorgerson, porque o artista morreu em 2013, e foi criada por seu parceiro Aubrey “Po” Powell, que se baseou na obra Beyond the Sky, do jovem artista egípcio Ahmed Emad Eldin, para compor a imagem do rapaz navegando uma típica canoa do Tâmisa por um rio de nuvens. O título do álbum é uma referência ao último verso da canção High hopes que encerra o antecessor The Division Bell, que traz The water flowing / The endless river / For ever and ever, como uma forma de conectar as duas obras.

O álbum foi recebido de modo misto pela crítica, que não entendeu a obra instrumental como uma referência à fase da banda pré-sucesso, mas foi um enorme sucesso de público, estreando no 1º lugar das paradas britânicas, com as vendagens em vinil sendo as mais rápidas desde 1997!!! Foi o primeiro lugar nas paradas de vários países europeus e da Oceania, e nos EUA ficou em 3º lugar na Billboard. Apesar disso, o único single foi Louder than words, que não entrou nas paradas britânicas, mas ficou em 29º lugar na Adult Alternative Songs da Billboard.

As máscaras da banda de apoio terminaram na capa da versão ao vivo do disco, em 2001.

Is There Anybody Out There? The Wall Live – 1980-81 (ao vivo) – 2000

Por essa ninguém esperava, mas foi muito bem-vindo: no ano 2000, em celebração aos 20 anos da última turnê trazendo a formação clássica da banda – Waters, Gilmour, Wright, Mason – foi lançado esse excelente álbum ao vivo, compilando o melhor da célebre turnê de The Wall. Com o litígio de Waters e o resto da banda, esse lançamento não era esperado pelos fãs, mas no fim das contas, as duas partes entraram em acordo.

O álbum traz canções editadas de alguns concertos das duas pernas da turnê, uma em 1980 e outra em 1981. De um modo geral, o Disco 1 traz a maior parte de canções da primeira etapa, enquanto o Disco 2 traz maioria da segunda. Além de Waters, Gilmour, Wright e Mason em seus respectivos papeis e instrumentos (com Waters cantando a maioria das canções e, muitas vezes, fazendo apenas os vocais, sem tocar um instrumento, por causa da teatralidade dos shows), o grupo é acompanhado por uma banda completa: Snowy White (nos shows de 1980) e Andy Roberts (nos shows de 1981) nas guitarras, Andy Bown no baixo, Peter Woods nos teclados, Willie Wilson na bateria (e Clive Brooks em alguns shows de 1981), mais backing vocals de Joe Chemay, Stan Farber, Jim Haas, Jon Joyce e Gary Yudman no papel de MC.

O setlist traz alguns adendos ao álbum original, pois o material de The Wall era longo demais para caber em um LP duplo e precisou ser editado, o que resultou em canções com duração reduzida e a faixa What shall we do now? totalmente excluída, ao passo que ela aparece no disco ao vivo, entre Empty spaces e Young lust. Também foi incluída a faixa instrumental The last bricks, que era tocada nos concertos enquanto os operadores terminavam de montar o muro para que Waters cantasse Goodbye cruel world no espaço do último tijolo antes de ser tampado. Algumas faixas são mais longas nas versões ao vivo, também e Outside of the wall, que encerra o show, tem uma roupagem mais tradicional, com canto em coro e instrumentos acústicos.

O álbum foi lançado com sucesso, chegando ao 15º lugar das paradas britânicas e ao 19º lugar nos EUA, ganhou uma versão remasterizada nos EUA e Canadá em 2005 e foi relançado dentro da versão Immersion de The Wall em 2016, mas infelizmente, desde então, está ausente da maioria dos streamings, inclusive, do Spotify, podendo ser ouvido apenas em sua versão física.

Live at Kneworth, 1990 – 2019

Uma das apresentações mais famosas do Pink Floyd na fase pós-Waters foi quando a banda foi o headliner do Knebworth Festival de 1990, em 30 de junho daquele ano, uma performance que foi parcialmente lançada em vídeo e áudio no álbum Knebworth – The Album, promovido pela organização do evento. Mas a banda lançou sua versão – desta vez com a performance completa – dentro do box set The Late Years, de 2019, e também disponibilizou uma versão separada, em CD, LP e downloud, com as faixas remixadas e reeditadas. Um dos diferenciais do concerto foi a presença, após décadas de ausência, da cantora Clare Tory reprisando seus vocais em The great gig in the sky e a célebre saxofonista Candy Dulfer em Shine on you crazy diamond e Money. O álbum chegou ao excelente 8º lugar das paradas britânicas e ao 100º lugar nos EUA.

  • Hey, Hey, Rise Up! – 2022 (single)

Totalmente de surpresa de modo inesperado, o Pink Floyd lançou um single como apoio às vítimas ucranianas da guerra desse país atacado pela Rússia. A faixa é uma versão da tradicional canção ucraniana Oh, the red viburnum in the meadow, datada de 1914, e contando com os vocais do cantor Andriy Khlyvnyuk, da banda Boombox, usados como sampler de uma gravação prévia, e autorizados por ele. O Pink Floyd aqui, claro, se restringe a apenas David Gilmour e Nick Mason, que usaram como apoio o baixista Guy Pratt, Nitin Sawhney nos teclados e vocais adicionais de Rosemary Gilmour (filha do guitarrista) e do Veryovka Folk Song and Dance Ensemble. Gilmour estava particularmente vinculado à Guerra da Ucrânia, pois um de seus filhos é casado com uma artista plástica ucraniana. O single foi lançado apenas de modo digital e toda a arrecadação foi doada para as vítimas da guerra.

O disco foi bem sucedido, chegando ao 49º lugar das paradas do Reino Unido, mas em da lista específica de Rock & Metal, e nos EUA, ficou em 2º lugar na Digital Songs Sales da Billboard, e 22º na Hot Rock & Alternative Songs, e como os vocais são em uma língua “estrangeira”, ficou em 1º lugar da World Digital Songs Sales. Até o momento, esta é a última canção oficial lançada pelo Pink Floyd de modo regular.

The Dark Side of The Moon Live at Wembley, 1974 – 2023

Como celebração dos 50 anos de lançamento do Dark Side of the Moon, o Pink Floyd lançou pela primeira vez em separado o concerto em Wembley, nos dias 15 e 16 de novembro de 1974, com o disco tocado na íntegra. O concerto, na verdade, já tinha sido lançado ao público – após ser um famoso bootleg por anos – como parte da versão Immersion do álbum lançada em 2011, porém, ganhou em 2023 sua versão em CD, LP e streamings. A versão em vinil traz algumas faixas com duração ligeiramente menor para caber no espaço da mídia física. É uma ótima performance da banda e um bom registro do que seria o grupo em seu apogeu. O álbum foi muito bem recebido: ficou em 4º lugar das paradas do Reino Unido, 49º na Billboard, subindo ao na Top Rock Albuns da Billboard.

Live at Pompeii – MCMLXXII – 2025

Outra performance muito famosa do Pink Floyd que nunca fora disponibilizada como disco autônomo até bem recentemente… O célebre concerto nas ruínas do anfiteatro romano de Pompeia, na Itália (cidade destruída pela erupção de um vulcão no século I) havia sido lançado como um filme cult em 1972, mas passou décadas sem estar disponível em áudio. (Veja mais informações no tópico do álbum Meddle, de 1971). Em 2016, o show foi remasterizado e mixado por David Gilmour e incluído no box set The Early Years, mas uma versão separada só foi lançada em 2025, com uma nova mixagem de Steven Wilson, famoso produtor de rock progressivo. O relançamento foi acompanhado da exibição de uma nova versão remasterizada do filme nos cinemas. O álbum se saiu muito bem nas paradas: chegou ao 1º lugar no Reino Unido e ao 28º nos EUA.

Coletâneas, Boxsets, trilhas sonoras, avulsos…

Via de regra, a discografia oficial do Pink Floyd foi exposta acima, com seus álbuns de estúdio e alguns complementos ao vivo. Porém, existe um número relativamente extenso de material complementar da obra da banda via coletâneas, caixas (boxsets) e até em alguns álbuns coletivos. Na maioria absoluta dos casos, esses lançamentos são meras curiosidades na obra geral do Pink Floyd, mas terminam sendo raridades, e por isso, iremos mencionar brevemente esse material.

TONITE LETS ALL MAKE LOVE IN LONDON – 1968 (trilha sonora)

Entre 1966 e 1967, o cineasta Peter Whitehead documentou a cena underground de Londres, a chamada Swing London, capturando a efervescência das artes e especialmente da música psicodélica em pleno Verão do Amor. O filme lança luz sobre artífices do movimento, como John Lennon, Mick Jagger, Allen Ginsberg, Yoko Ono e muitos outros, mas mostra também o Pink Floyd em seu estágio inicial, tocando em estúdio uma versão de Interstellar overdrive ainda antes da banda (e Syd Barrett) assinar contrato com a EMI. O álbum com a trilha sonora foi lançado apenas em 1968 – quando Barrett já tinha saído da banda que já tinha lançado dois álbuns – trazendo uma edição de 3 minutos da faixa mais outros pequenos dois trechos de 30 segundos.

Este material foi lançado em uma versão ampliada em 1990, como um CD duplo, trazendo Interstellar overdrive completa, com quase 17 minutos e mais a totalmente inédita Nick’s boogie, outro instrumental com quase 12 minutos. As faixas também saíram depois num EP (veja mais abaixo) dentro do catálogo oficial da banda.

THE BEST OF PINK FLOYD – 1970 (coletânea)

A primeira coletânea do Pink Floyd foi lançada pela EMI para o mercado estrangeiro, ou seja, europeu em 1970, curiosamente, focando nas faixas de Syd Barrett quando o músico já tinha saído da banda há anos. Este disco traz Arnold Layne e outros singles iniciais, faixas de The Pipes at the Gates of Dawn e os primeiros singles com David Gilmour. Este disco seria relançado em 1974 para se aproveitar do sucesso de Dak Side of the Moon dentro da série Maters of Rock, de LPs mais baratos.

PICNIC: A BREATH OF FRESH AIR – 1970 (álbum coletivo)

Em 1969, a EMI lançou o selo Harvest dedicado à cena alternativa londrina e foi por este selo que Syd Barrett lançaria seus álbuns solo, e ao qual o Pink Floyd passaria também a ser incluído por alguns anos. Em 1970, a gravadora aproveitou o momento para lançar um LP duplo reunindo essa primeira safra de artistas, com nomes como Deep Purple, Pretty Things, Roy Harper e Syd Barrett. Curiosamente, o Pink Floyd estava incluído no disco com a faixa Embryo (de autoria de Roger Waters), que jamais foi lançada na discografia regular da banda. Essa canção fazia parte do show The Man and the Journey, que o Floyd apresentou ao vivo ao longo de 1969 e 1970 e chegou a ser gravada nas sessões de Atom Heart Mother, bem como executada ao vivo nas sessões gravadas da rádio BBC.

ZABRIESKIE POINT – 1970 (trilha sonora)

Em 1970, o diretor Michelangelo Antonioni lançou o filme Zabrieskie Point, um retrato sobre a contracultura da época, como já haviam sido outras obras dele, como o famoso Blow Up. De novo, ele escolheu uma série de artistas alternativos para compor a trilha sonora e o Pink Floyd foi um deles. O grupo compôs um material relativamente farto de música instrumental para o longa, porém, essas contribuições foram sucessivamente recusadas pelo diretor, o que gerou bastante frustação à banda.

No fim, apenas três faixas do Floyd saíram na trilha sonora em disco, com Heart beat, pig meat, Crumbling land e Come in number 51, your time is up (esta última apenas outra versão de Careful with that axe. Eugene). O restante do disco é preenchido por outros artistas, como Greatful Dead e Jerry Garcia e The Youngbloods.

Na verdade, outras faixas do Pink Floyd tocam no filme, mas não estavam no filme, como Country song, Love scene (version 4) e (version 6) e Unkown song, que seriam incluídas num relançamento expandido em 1997. Várias peças não aproveitadas foram desenvolvidas pela banda em outras canções, como The violent scene que virou Us and them em Dark Side of the Moon.

RELICS: A BIZARRE COLLECTION OF ANTIQUES & CURIOS – 1971 (coletânea)

A primeira coletânea oficial do Pink Floyd foi lançada em 1971, na esteira do sucesso de Atom Heart Mother e antes de Meddle. Em muitos sentidos, Relics é uma versão atualizada de The Best of… que a EMI havia produzido praticamente à revelia do grupo. O álbum é focado principalmente na fase com Syd Barrett, privilegiando material que tinha sido lançado apenas em singles (Arnold Layne, See Emily Play) e algumas faixas de álbum, como Interstellar overdrive, Bike (ambas de The Piper at the Gates of Dawn), Remember a day (de A Saurceful of Secrets), Circus miror e The Nile song (ambas de More), mas tem a curiosidade de dar destaque a alguns Lados Bs de compactos, como Paint box, Julia dream, Careful with that axe, Eugene em vez de seus respectivos Lados As (Apples and oranges, It would be so nice? e Point me at the sky, respectivamente), que não estão na tracklist, de modo algo surpreendente. Todavia, a coletânea se restringe ao período de 1967-1969, não trazendo nada de Atom Heart Mother, que tinha acabado de sair. A coletânea também trazia uma faixa inédita: Biding my time (de Waters), um blues que fazia parte do concerto The Man and the Journey, que foi gravada em 1970 e que não saiu em nenhum outro lugar além de aqui.

Por sua característica curiosa, durante algum tempo, Relics foi o único acesso fácil do fã da banda a canções como Arnold Layne e See Emily play, tão ilustrativas de seu período inicial. O disco chamou a atenção na época: chegou ao 32º lugar das paradas do Reino Unido, o que não é nada mal para uma coleção tão alternativa e underground de faixas. Tendo se transformado em um disco raro com o passar dos anos, Relics foi relançada oficialmente em CD remasterizado em 1996, ostentando uma nova versão da capa, com o desenho original de Nick Mason transformado em um construto real em 3D pelas mãos da Hipgnosis. Quando a coleção do Pink Floyd foi relançada em LP e CD em 2016, a coletânea foi lançada de novo, mas com a capa original.

A NICE PAIR – 1973 (coletânea)

A EMI aproveitou o sucesso colossal de Dark Side of the Moon para lançar, em dezembro de 1973 (para aproveitar as vendas de Natal, pois o anterior saiu em março) uma coletânea que, na verdade, é simplesmente a reunião dos dois primeiros álbuns do Pink Floyd – The Piper at the Gates of Dawn (1967) e A Saucerful of Secrets (1968) – como um LP duplo em uma nova capa. Era uma maneira da banda dar holofote ao material de Syd Barrett (e lhe render royalties). A capa foi criada pela Hipgnosis, a partir de imagens rejeitadas para capas anteriores e o título faz piada com os dois álbuns e um par de seios desnudos na imagem central de cima. A popularidade da banda fez bem a A Nice Pair: o álbum chegou ao 21º lugar das paradas do Reino Unido e ao 36º dos EUA, um resultado excelente. Isso deve ter motivado a gravadora a relançar The Best of Pink Floyd dentro do selo Masters of Rock apenas alguns meses depois, como já mostramos.

A COLLECTION OF GREAT DANCE SONGS – 1981 (coletânea)

É triste dizer, mas a turnê de The Wall em 1980 e 81 gerou um enorme prejuízo financeiro para o Pink Floyd, mesmo com todos os concertos com ingressos esgotados, por causa do altíssimo custo do espetáculo teatral daqueles shows. E isso se somou aos problemas que a banda já tinha nesse campo – volte lá no The Wall e veja mais detalhes – então, a saída para a banda não ir à falência era lançar um greatest hits… o primeiro realmente organizado pela banda. Não foi tarefa fácil, ainda mais com o grande volume de canções de qualidade e a longa duração da maioria delas. Por isso, para se manter como um LP simples, A Collection… tem apenas 6 faixas (!): One of these days (representando o Pink Floyd pré-fama), Money, Sheep, Shine on you crazy diamond, Wish you were here e Another brick in the wall (part 2).

A Collection… é importante não apenas por ser o primeiro greatest hits oficial, mas porque seu conteúdo traz algumas peças únicas. Shine on you crazy diamond ganha uma edição reunindo as partes 1, 2, 4 e 7, com mais de 10 minutos misturando pedaços das duas metades divididas no disco original; e Another brick in the wall (part 2) ganha uma curta introdução com a repetição do motivo da guitarra base, para dar uma entrada mais gradual, em vez de começar direto com os vocais como está no álbum original.

Mas a grande novidade mesmo é uma regravação total, do zero, de Money. Lembre: insatisfeito com a divulgação de seus discos nos Estados Unidos, o Pink Floyd não renovou o contrato com a gravadora Capitol às vésperas do lançamento de Dark Side of the Moon. Assim, apesar de ter lucrado com este disco, a Capitol perdeu o passe da banda dali em diante, com o grupo sendo assumido pela Columbia/CBS nos EUA, e continuando com a EMI no Reino Unido, Europa e resto do mundo. Como Money foi lançada como single e foi um grande sucesso, a Capitol simplesmente não liberou o uso para a EMI/ Columbia usarem a faixa em Collection, o que obrigou David Gilmour a regravar a faixa cantando e tocando todos os instrumentos (guitarra, baixo, teclados e bateria) mais Dick Parry repetindo seu saxofone. Gilmour se esforçou para que a nova Money parecesse exatamente a antiga, e foi bem sucedido, sendo possível que um ouvinte casual ou desatento sequer perceba a diferença, ainda que existam particularidades: mesmo repetindo os efeitos da caixa registradora no início e as falas que cruzam no momento final, Gilmour optou por um vocal mais natural e menos rascante do que a versão original, enquanto a bateria de um modo geral é mais simples, pois o guitarrista não se atreveu a executar as sucessivas e rápidas viradas no terço final da faixa. Mas é um ótimo exemplo da incrível capacidade musical de Gilmour.

Gilmour também comissionou Storm Thorgerson e a Hipgnosis para fazer a capa, pela primeira vez desde Wish You Were Here, pois Roger Waters havia optado por outros artistas nos dois álbuns anteriores à coletânea. A capa traz a impactante imagem de um casal dançando no campo, mas amarrados por cabos presos ao chão que os impedem de se mexer, numa referência ao título do álbum, que era uma piada com o ritmo Disco de Another brick in the wall (part 2) – o maior sucesso radiofônico do Pink Floyd. Collection… traz uma capa que criou um tipo de template que a banda usaria em seus discos futuros pós saída de Waters.

A Collection of Great Dance Songs foi um enorme sucesso: chegou ao 37º lugar das paradas do Reino Unido e no 31º dos EUA, chegando a Disco de Ouro dentro de um ano e a Disco de Platina ainda antes do fim da década. A coletânea foi lançada em CD em 1997, em edições distintas da EMI e da Columbia, e uma nova versão chegou às lojas em 2000, pela EMI e Capitol (que recuperou brevemente a distribuição da banda nos EUA), para um novo relançamento em 2016, agora pela Sony Music/ Universal e Warner.

WORKS – 1983 (coletânea)

O sucesso de A Collection of Great Dance Songs gerou uma reação da Capitol Records dos EUA, que lançou a sua coletânea da banda com Works, focada de novo (tal qual The Best of…, A Nice Pair e Relics) na fase inicial da banda. O track list traz Arnold Layne e See Emily play de Syd Barrett e alguns números da fase underground do grupo, como Sets the controls to the heart of the sun (de A Saucerful of Secrets) e de modo surpreendente Several spieces of small furry animals gathered together in a cave and grooving with a pict, a faixa experimental de Waters em Ummaggumma, além de outras de quando a banda começou sua escalada de popularidade “pop”, com One of these days, Fearless (ambas de Meddle), Free four (Obscure by Clouds), Brain demage, Eclipse (ambas de Dark Side of the Moon) e, também de surpresa, Embryo, que só tinha saído na compilação dos artistas da Harvest.

Mas a Capitol não conseguiu promover Works para ter um bom resultado: o disco não entrou nas paradas dos EUA e no Reino Unido chegou apenas a 68ª posição.

SHINE ON – 1992 (box set)

Aproveitando o enorme sucesso de A Momentary Lapse of Reason (1987) e The Delicate Sound of Thunder (1988), e a celebração de 25 anos de atividades da banda, o Pink Floyd lançou uma caixa com 8 discos chamada Shine On, copilando algo como “o melhor” de sua carreira, por meio de sete álbuns completos: A Saucerful of Secrets (1968), Meddle (1971), Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977), The Wall (1979) e A Momentary Lapse of Reason (1987). Mas o grande destaque foi o oitavo disco, um bônus, chamado The Early Singles, que trouxe todas as faixas dos primeiros cinco compactos da banda e que não estavam facilmente disponíveis por não estarem nos álbuns “de linha”. Era uma forma dos colecionadores poderem ter todo o material da banda.

LONDON ’66-’67 – 1995 (EP)

Este é um lançamento avulso à banda: chegou primeiro em vídeo (VHS) como um tipo de trailer para o relançamento do filme Tonite Let’s All Make Love in London, de Pete Whitehead. A boa recepção motivou a companhia See For Miles a lançar as duas faixas do Pink Floyd (gravadas em 1966 com Syd Barrett): Interstellar overdrive e Nick’s boogie, com 16 e 11 minutos, respectivamente, como um compacto duplo (EP). Não é algo oficialmente comissionado pela banda, mas o produtor Joe Boyd era proprietário dos fonogramas.

1967: THE FIRST THREE SINGLES – 1997 (coletânea/EP)

Para celebrar os 30 anos de carreira fonográfica do Pink Floyd, a EMI lançou um CD promocional de pequena tiragem com a reunião das 6 faixas dos três primeiros singles da banda, todos lançados em 1967: Arnold Layne/ Candy and a currant bun; See Emily play/ the scarecrow; Apples and oranges/ Paint box, sendo as cinco primeiras de autoria de Syd Barrett e a última de Richard Wright.

ECHOES: THE BEST OF PINK FLOYD – 2001 (coletânea)

Para todos os efeitos, a carreira do Pink Floyd tinha terminado com Pulse (1995), mas o público não sabia disso. Após alguns anos de silêncio, em 2000 saiu o álbum ao vivo com os shows da turnê de The Wall, e no ano seguinte, o grupo decidiu fazer uma nova compilação retratando toda a sua obra, do primeiro single (Arnold Layne) até The Division Bell (1994). Dessa vez, o grupo investiu em um CD duplo (e um LP quádruplo!) com 26 faixas e 155 minutos! Algo justo e proporcional à grande obra do Pink Floyd. Foi escolhido não deixar as faixas em ordem cronológica e fazer uma mixagem especial para que todas ficassem conectadas umas às outras, para “lembrar” ao público do estilo conceitual da maior parte dos álbuns da banda. E a lista final das canções escolhidas se deu a partir de um sistema de votação entre os membros do grupo, incluindo Roger Waters.

O track list contempla a maior parte dos álbuns do grupo, deixando de lado apenas faixas de More (1969), Ummagumma (1969) e Obscure by Clouds (1972), e trazendo todos os hits e canções mais famosas, embora com alguns truques para poder caber tudo: Echoes, Marooned e One of these days ganham edições mais curtas, enquanto uma ou outra faixa tem o fade-out ligeiramente encurtado (See Emily play, Sheep, Keep talkin’, Wish you were here, High hopes), e Shine on you crazy diamond ganha (de novo) uma edição única, reunido as partes 1 a 7, ao passo que algumas ganharam edições ligeiramente maiores, como Confortably numb (que ganhou o finalzinho de Bring the boys back home para fazer uma transição) e Bike (que ganhou uma introdução com sinos, que advém da conexão com High hopes). O álbum traz pela primeira vez nesse tipo de material uma faixa de The Final Cut, com The Fletcher memorial home, e pela primeira vez em um álbum da banda, traz When the tigers broke free, canção que saíra apenas no filme The Wall e num compacto de 1982 (embora desde o relançamento de The Final Cut em 2004, ela foi adicionada a este disco).

Com uma capa de Storm Thorgerson e Hipgnosis recriando o “ambiente” de Ummagumma para trazer imagens sobrepostas com vários artefatos fazendo referência à carreira do grupo e suas capas, Echoes foi um sucesso enorme: lançada em novembro de 2001, chegou ao 2º lugar das paradas do Reino Unido e dos EUA ao mesmo tempo, e neste país, chegou a Disco de Ouro, Disco de Platina, Platina Dupla e Platina Tripla em apenas dois meses!

Curiosamente, foi o lançamento do terceiro disco “complementar” seguido – Pulse, It’s There Anybody Out There? e Echoes – que levou à imprensa cogitar que o Pink Floyd, na verdade, tinha acabado.

OH, BY THE WAY – 2007 (box set)

Para confirmar que a banda tinha acabado, o Pink Floyd lançou este box set em 2007, que diferentemente de Shine On, trazia toda a discografia oficial até aquele momento, excluindo os discos ao vivo. São 14 álbuns (de The Piper at the Gates of Dawn até The Division Bell) com uma embalagem em CD imitando os pacotes de LP dos anos 1960 e 70, como réplicas dos lançamentos originais. Apesar disso, a versão de The Final Cut (1983) traz a versão de 2004, com a inclusão da faixa When the tigers broke free. A capa da Hipgnosis imita (outra vez) o efeito de Ummagumma, com uma sala em vários níveis e imagens e objetos remetendo à banda e uma silhueta no fundo para simbolizar Syd Barrett.

DISCOVERY – 2011 (box set)

Discovery traz basicamente o mesmo conteúdo de Oh, By the Way (os 14 álbuns oficiais da discografia até aqui), só que com uma nova remasterização de James Guthrie. O box veio com um libreto informativo e com fotos e, diferente do box anterior, cada um dos álbuns foi vendido separadamente.

THE BEST OF PINK FLOYD: A FOOT IN THE DOOR – 2011 (coletânea)

Para acompanhar e promover o box Discovery, o Pink Floyd lançou uma nova coletânea, dessa vez em formato simples, que vem como um resumo da anterior (Echoes) de 10 anos antes, mas também com algumas diferenças. Resgatando o título mais direto The Best of Pink Floyd usado pela EMI nos anos 1970 e colocando o provocativo subtítulo de A Foot in the Door (para passar a ideia de uma iniciação à obra da banda), traz 16 faixas totalizando quase 80 minutos (que é o tempo máximo de um CD). A capa traz um professor em uma beca caminhando sobre um piso com as capas dos álbuns da banda (inclusive, de Relics, A Nice Pair e Oh, By the Way, assim como algumas contracapas).

De novo sem seguir uma ordem cronológica, a coleção traz apenas See Emily play da fase pré-1973, investindo no período pós-Dark Side of the Moon (exceto de Animals, pela duração das faixas, provavelmente), mas mantendo The Fletcher memorial home de The Final Cut, e incluindo Have a cigar, que não esteve na anterior. E o restante dos greatest hits, como Money, Time, Wish you were here, Shine on you crazy diamond (dessa vez, com uma edição das partes 1 a 5), Confortably numb, Another brick in the wall, Learning to fly, High hopes.

Dessa vez, o resultado foi mais modesto: chegou ao 14º lugar das paradas no Reino Unido e 50º nos EUA.

1965: THEIR FIRST RECORDINGS – 2015 (coletânea/EP)

Celebrando 50 anos das primeiras gravações do Pink Floyd, a EMI lançou outro EP promocional (tal qual The Early Singles) com cópias restritas, sendo também um esforço para manter os direitos de copyright dessas gravações, realizadas no Natal de 1965 quando o grupo ainda se chamava The Tea Set, com Syd Barrett (vocais e guitarra base), Rando “Bobby” Close (guitarra solo), Roger Waters (baixo e vocais), Richard Wright (teclados), Nick Mason (bateria) e participação de Juliete Gale (vocais). São 6 faixas, sendo quatro de Barrett (com destaque para Lucy Leave), uma de Waters (Walk with me, Sydney) e um cover de Slim Harpo (I’m a king bee), com um estilo musical mais próximo do R&B do que a sonoridade psicodélica de pouco tempo à frente. Foi a primeira vez que esse material viu a luz do dia de forma oficial e, no fim das contas, muito em breve seria incorporado à obra maior da banda no box set The Early Years.

THE EARLY YEARS 1965-1972 – 2016 (box set)

O Pink Floyd relançou sua discografia oficial em CD e vinil remasterizados em 2016, com os álbuns célebres dos anos 1970 vindo com uma série de extras e bônus (faixas ao vivo, out-takes…) e lançaram também esse colossal box set com 33 discos (!!!!), sendo 6 CDs duplos mais DVDs e Blu-rays, incluindo material de vídeo (!). Foi uma maneira da banda disponibilizar uma série de materiais da fase inicial da carreira, muito do qual já circulavam na pirataria.

O Volume 1: Cambridge St/ation traz gravações entre 1965 e 67 com Syd Barrett, incluindo a famosa demo da banda gravada no Natal de 1965, quando o Pink Floyd ainda se chamava The Tea Set e tocava R&B, com composições de Barrett (destaque para Lucy Leave) e um cover de Slim Harpo (I’m king bee), seguidas por canções dos singles (Arnold Layne, See Emily play) e dos álbuns The Piper at the Gates of Dawn (Matilda mother – no remix de 2010 que apareceu em uma coletânea solo do compositor) e A Saucerful of Secrets (Jugband blues); as últimas faixas de Barrett com a banda (que ficaram de fora de A Saucerful of Secrets), como Vegetable man, Scream thy last scream e a instrumental Beechwoods; um concerto completo em Estocolmo em setembro de 1967 (e infelizmente, com uma qualidade de som muito ruim, com os vocais de Barrett quase inaudíveis) e a trilha sonora inédita de um filme de John Latham.

O Volume 2: Germin/ation traz as faixas dos dois primeiros singles da banda com David Gilmour (It would be nice e Point me at the sky), gravações ao vivo na rádio BBC ao longo do ano de 1968. O Volume 3: Dramatis/ation vem com sobras da trilha sonora de More (1969), a versão original de Embryo (presente apenas nas coletâneas), gravações ao vivo na BBC em maio de 1969 e um concerto em Amsterdã em agosto do mesmo ano, com o segundo disco trazendo (finalmente!) a íntegra da obra The Man and the Journey, retirada de outra apresentação em Amsterdã, em setembro. O Volume 4: Devi/ation traz duas versões ao vivo de Atom heart mother (uma com orquestra completa) em um concerto e em uma gravação da BBC, mais outras faixas registradas na rádio, e um grande conjunto de faixas excluídas da trilha sonora de Zabrieskie Point, inclusive a famosa The riot scene; e dentre os discos com vídeo vem também uma versão do álbum Atom Heart Mother em 4.0 Quad Mix.

O Volume 5: Reverber/ation vem com out-takes de Echoes e uma gravação na BBC em setembro de 1971. O Volume 6: Obsfufc/ation veio com um erro de produção (!!!) trazendo o áudio completo de Live at Pompeii (que devia ter vindo apenas nos discos de vídeo) em vez da versão remasterizada de Obscured by Clouds (1972), que terminou sendo lançado à parte e enviado aos compradores como um bônus.

Por fim, o Volume 7: Continu/ation é um tipo de “bônus”, com duas interessantes gravações na rádio BBC em setembro e dezembro de 1967, esta última, como basicamente as últimas gravações de Syd Barrett com a banda, incluindo faixas como Flaming, Set the controls to the heart of the sun, Vegetable man e Jugband blues, mais faixas já com Gilmour, como gravações na BBC em 1968 e 71, trechos da trilha sonora (até então totalmente inédita) de The Comitee, o instrumental que a banda tocou durante a transmissão da chegada do homem à Lua, em junho de 1969 e uma versão ao vivo de Echoes (que embora datada de 1972, mas na verdade, vinda de Wembley, em 1974).

O box trazia ainda réplicas em vinil dos cinco primeiros singles da banda. Cada um dos volumes trouxe dois ou três discos de vídeos, com videoclipes, apresentações ao vivo e até filmes completos, como More e The Vallée, reunindo basicamente todas as imagens conhecidas da banda, inclusive, alguma coisa com Barrett e o famoso concerto para a TV em San Francisco, em 1970.

Mesmo com todo esse material (e o alto preço decorrente), The Early Years foi um enorme sucesso, chegando ao 19º lugar das paradas do Reino Unido, embora apenas no 103º na Billboard, mas no 13º lugar na Top Rock Albuns.

A banda lançou cada um dos Volumes (exceto o 7º) como CDs duplos separados no mercado (com o 6º trazendo Obscured by Clouds e Live at Pompeii, devido ao erro anterior); e lançou também uma coletânea do box, chamado The Early Years 1965-1972: Cre/ation, reunindo o “melhor” da caixa em outro CD duplo com 27 faixas incríveis.

THE LATER YEARS – 2019 (box set)

Em 2019, o Pink Floyd lançou uma box set com 5 CDs (e vários outros formatos, como DVD e Blu-ray com material extra – especialmente em outros formatos de áudio) reunindo material da fase da banda pós-Roger Waters, sob a liderança de de David Gilmour. O conteúdo mistura versões remasterizadas ou remixadas de faixas oficiais e alguns lançamentos inéditos.

O grande destaque da coleção era o CD 1, que trazia uma versão chamada de Upgrade do álbum A Momentary Lapse of Reason (1987), com uma recriação do disco. Como já explicamos, a sonoridade synth anos 1980 envelheceu mal e Gilmour e Mason decidiram re-editar todas as faixas para resgatar uma sonoridade mais atemporal como o restante da obra do Pink Floyd. Para isso – e usando os recursos da tecnologia digital – eles resgataram gravações de Richard Wright tocando teclados nas canções ao longo dos concertos para que seu toque e seus teclados habituais aparecessem em vez daqueles mais sintetizados de Gilmour, Jon Carin e Bob Ezrin no material original. Como Nick Mason praticamente não tinha tocado bateria no disco original, parte foi retirada dos concertos e parte foi refeita pelo baterista naquele ano. Não se sabe exatamente por qual motivo, mas os vocais de On the turning away também foram substituídos por um de um dos concertos de 1987 (talvez por causa do timbre não combinar com a nova instrumentação, ou Gilmour os achou muito limpos…). O resultado final é bom e soa realmente melhor do que o original. Esta versão do álbum foi lançada como um CD separado.

Os CDs 2 e 3 trazem uma versão expandida de The Delicate Sound of Thunder (1988), com uma grande remasterização e muitas faixas novas. Algumas foram aumentadas de tamanho, mas Money foi reduzida, tirando o solo de baixo de Guy Pratt e a seção do vocal à capella das backing vocalistas. Esta parte também foi lançada à parte como um CD duplo separado. O CD 4 trouxe algumas faixas ao vivo “novas” (novas versões de faixas já lançadas) tanto da turnê de 1987-89 quanto da de 1994, e também uma série de out-takes tirados das sessões que deram origem a The Endless River, incluindo a boa Nervana. Por fim, o CD 5 traz a íntegra do concerto em Knebworth em 1990, que também foi lançado como um CD à parte. O material de bônus também trouxe um single com a versão de Arnold Layne tocada por Gilmour, Wright e Mason no tributo a Syd Barrett, em 2007, além de um livro de fotos com 60 páginas, réplicas de ingressos e programas de turnê e libreto com as letras.

O box fez muito sucesso, pois chegou ao 32º lugar das paradas do Reino Unido, embora nos EUA raspou o Top200 na 197ª posição. A banda lançou uma coletânea do box como um disco separado, apelidado de Highlights, com 12 faixas, principalmente de material ao vivo e as versões 2019 de One slip e On the turning away.